Tento não me esquecer:

    Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
    Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
    Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.

30/06/2004

Como falar sobre a religião?

Como contraponto ao texto de Raimon Panikkar ...

Como falar sobre a religião?
"Eu gostaria de começar com a bela peça de Samnuel Beckett, 'Esperando Godot'. Ela é absurda, como absurda é a vida, mas o verdadeiro absurdo da vida, se compreendido profundamente, torna-se uma indicação para alguma coisa . Indefinivel. Além das palavras.
A cortina se levanta: dois vagabundos estão sentados e esperando Godot. Quem é esse Godot? Eles não sabem, ninguém sabe. Mesmo o Samuel Beckett, quando uma vez lhe perguntaram quem era esse Godot, disse, 'Se eu soubesse, teria dito na própria peça'.
Ninguém sabe, isso é um gesto Budista. Mas a palavra Godot soa como Deus (God, em inglês), o que é significante. Quem conhece Deus? Quem alguma vez o conheceu? Quem pode dizer, quem pode proclamar: 'Eu conheço'? Toda informação é tolice, e aquele que proclamar que conhece Deus, é simplesmente estúpido.
Godot soa como Deus (God), o desconhecido. Ele pode ser tudo, ele pode ser nada. Eles estão esperando Godot. Se eles não conhecem esse Deus, por que eles estão esperando? Porque se você não esperar por alguma coisa, você cairá dentro do vazio mais interno; se você não estiver esperando que alguma coisa aconteça, você terá que encarar o vácuo dentro de você, o nada dentro de você, e isso dá medo, isso é como a morte. Para evitar isso, para escapar disso, a pessoa projeta um sonho no futuro. É assim que o tempo futuro é criado.
O futuro não é parte do tempo, ele é parte da mente. O tempo é sempre presente. Ele nunca é passado e nunca é futuro. Ele é sempre agora. A mente cria o futuro, assim a pessoa pode evitar o 'agora', a pessoa pode olhar para frente, para as nuvens, esperar alguma coisa e fingir que alguma coisa está para acontecer e nada acontece.
Uma das verdades mais básicas a respeito da vida humana é que jamais coisa alguma acontece. Milhões de coisas parecem acontecer, mas nada jamais acontece. A pessoa segue esperando, esperando, esperando: esperando Godot. Quem é esse Godot? Ninguém sabe. Mas ainda assim, a pessoa tem que projetar um sonho... como evitar o seu próprio vazio interior?
Há um ditado: 'O homem é feito de pó e ao pó retornará - do pó para o pó e no meio, uma bebida se acomoda'.
Essa bebida é o desejo, a projeção, a ambição, o futuro, a imaginação. De outra maneira, você iria se tornar, de repente, consciente de que você é apenas pó e nada mais. Esperando pelo futuro, aguardando o futuro, o pó tem um sonho ao redor, ele faz parte da glória do sonho, ele ilumina. Através do sonho você sente que você é alguém. E sonhar não custa nada, você pode sonhar. Mendigos podem sonhar que são imperadores, não existe lei alguma contra isso. Para evitar o que é, projeta-se um sonho de tornar-se algo. Aqueles dois vagabundos estão personificando toda a humanidade.
O homem é um vagabundo. De onde você veio? Você não é capaz de dizer. Para onde você está indo? Você não é capaz de responder. Onde você está exatamente agora, neste momento? No máximo você pode encolher os ombros. O homem é um vagabundo, um viajante, sem lar no passado, sem lar no futuro, viajante numa viagem contínua, sem fim. Beckett está certo: aqueles dois vagabundos são toda a humanidade.
Mas para criar um sonho, um não é suficiente, dois são necessários. Porque um será menos do que é preciso, a ajuda do outro é necessária. Por isso que aqueles que querem se livrar dos sonhos tentam ficar sozinhos, começam a se tornar silenciosos, meditam, vão para o Himalaia. Eles tentam ficar só, porque quando você está só é difícil. Pouco a pouco, de novo e de novo, você vai sendo atirado de volta à sua realidade, não existe apoio, não existe desculpa, por isso o outro é necessário. É por isso que sempre que alguém se apaixona, de repente os sonhos explodem no ser. O outro está ali, agora vocês podem sonhar juntos e vocês podem ajudar um ao outro a evitar a si próprio. É por isso que há tanta necessidade de amor, é uma necessidade de sonho.
Só, é muito difícil sonhar. Pouco a pouco o sonho é quebrado e você é atirado à realidade nua, ao vazio. Um amante é necessário, alguém para se agarrar, alguém para olhar, alguém para compartilhar, alguém que vai remendar os furos, que irá trazê-lo para fora de si mesmo, de maneira que você não tenha que encarar a sua realidade nua.
A cortina sobe e dois vagabundos estão sentados. Eles estão esperando Godot. Eles não perguntam um ao outro: 'quem afinal é esse Godot?' porque perguntar pode ser perigoso. Eles ambos sabem, lá no fundo, que eles estão esperando ninguém. É perigoso, é arriscado perguntar 'quem é esse Godot?'. O surgimento da própria pergunta será perigoso: o sonho se despedaçará. Eles estão com medo, eles não perguntam.
Uma pergunta eles evitam continuamente: 'quem é esse Godot?' e essa é a questão básica, a que deveria ter sido formulada no primeiro momento em que a pessoa se tornasse consciente. Você está esperando Godot. Pergunte: 'quem é esse Godot?' Mas esta questão mexe com eles. Por isso eles conversam sobre muitas outras coisas. Eles dizem: 'quando ele vai chegar? você tem certeza de que desta vez ele vai cumprir a promessa? Ontem ele nos enganou, anteontem ele não veio e hoje também, a hora prometida já está passando e parece que ele não está vindo'.
Eles estão olhando para a estrada repetidas vezes, e a estrada está vazia. Mas eles não formulam a questão básica. Eles nunca perguntam: 'quem é Godot?'. Eles nunca perguntam 'quando ele prometeu a você que viria? Onde você se encontrou com ele? Como você sabe que ele existe?'. Não, eles nunca tocam nessa questões.
Essa é a maneira como vivem muitas pessoas no mundo. Elas nunca formulam a questão básica. Ela é arriscada, ela é muito perigosa. A pessoa tem que se esconder, a pessoa tem que fingir que essa questão básica já é conhecida. Lembre-se, a pessoa segue sempre perguntando as perguntas secundárias.
Quando vocês vêm a mim, raramente acontece de alguém formular um pergunta primária.... só secundárias. E se eu tentar trazê-los para a pergunta primária, vocês ficam amedrontados. Vocês perguntam coisas fúteis que podem ser respondidas, mas que, mesmo sendo respondidas, não lhes trazem ganho algum, porque elas não são básicas. É como se a sua casa estivesse em chamas e você perguntasse 'quem plantou essas árvores?'. A pergunta pode parecer relevante, ela pode ser respondida, mas qual será o resultado disso?A casa está em chamas, você tem que fazer alguma coisa, e perguntar o que é fundamental. Mas você nunca pergunta.
E de novo eles repetem, 'o dia está passando novamente e ele não veio'. E eles ajudam um ao outro, 'ele deve estar chegando, ele talvez esteja atrasado. Existem mil e um imprevistos. Mas ele é um homem em quem você pode confiar, ele é confiável'. E esse 'ele' é simplesmente vazio.
Um dia mais se passou e ele não veio e eles estão furiosos. Eles começam a dizer: 'agora é demais. É demais, e nós vamos embora'. Eles não podem esperar mais, mas eles nunca vão embora. No dia seguinte, de novo eles estão lá, sentados no mesmo lugar, esperando Godot novamente. E ontem eles haviam decidido, eles tinham decidido veementemente que agora eles iriam embora. 'Está acabado. Uma pessoa não pode esperar por alguém por toda a vida. Então, se ele estiver vindo, tudo bem; mas se ele não estiver vindo, também está tudo bem.'
Por que eles não vão embora? Eles continuam repetindo que estão indo embora. O problema é: para onde ir? Você pode ir embora, mas, para onde ir? Para qualquer lugar que você for, você estará de novo esperando Godot, a mudança de lugar não irá ajudar. Você pode ir para a Índia, você pode ir para a Inglaterra ou para os Estados Unidos, ou você pode ir para o Japão, mas qual será o resultado? Você estará esperando Godot. Japão, Inglaterra, Índia, dá no mesmo. A mudança de geografia não irá ajudar.
É por isso que quando a humanidade está em profundo tumulto, as pessoas se tornam viajantes. Elas vão de um país para outro. Elas estão sempre no movimento de ida, elas estão sempre indo a algum lugar. E elas não estão chegando a lugar algum, mas elas estão sempre indo a algum lugar. Na verdade elas não estão indo a algum lugar, elas estão apenas escapando dos lugares onde elas estão. Se elas estão nos Estados Unidos, elas vão para a Índia, se elas estão na Índia, elas vão para o Japão, se elas estão no Japão, elas vão para o Nepal. Elas não estão indo a lugar algum, elas estão simplesmente tentando escapar do lugar onde elas estão. E em todo lugar elas permanecem as mesmas: nada acontece, porque a geografia nada tem a ver com isso.
(...)
Amanhã novamente o sol nasce e eles estão no mesmo lugar e esperando, e de novo perguntando quando ele chegará. E eles se esqueceram completamente da noite anterior quando eles tinham decidido ir embora... mas, para onde ir?
Sem lugar para ir. Essa é a segunda verdade básica a respeito da humanidade.
(...)
E não fique assustado, porque se você ficar assustado, você começará a formular perguntas secundárias.
Religião é formular a questão fundamental, a questão verdadeiramente básica. E é muito significante formular a pergunta corajosamente, porque na própria formulação você está chegando próximo ao centro.
A segunda verdade: você tem ido, ido e ido de um lugar para outro, de um estado de humor para outro, de um plano para outro, de um nível para outro, mas você não está chegando a lugar algum. Você já chegou a algum lugar? Você pode dizer que você alcançou algum lugar? É sempre uma partida. E nunca acontece uma chegada? Os trens estão sempre partindo, os aviões estão sempre decolando, as pessoas estão prontas na sala de espera. Sempre partindo e nunca chegando a lugar algum. Tudo isso é um absurdo ... Mas você nunca pergunta.
Essas duas perguntas são básicas e a terceira começa então a borbulhar: quem é você? Porque, realmente, não é muito significativo perguntar quem é Godot. Isso é uma criação sua, seus deuses são suas criações.... A verdadeira religião, uma religião autêntica, não pergunta quem é Deus. Ela pergunta 'quem é você?' Eu tenho que descer até a minha fonte básica, somente ali, somente ali está a revelação. Jesus ou Buda - eles formulam as perguntas fundamentais.
A segunda coisa para compreender a respeito das perguntas fundamentais é que as perguntas fundamentais não têm respostas. A pergunta é a própria resposta. Se você formular a pergunta autenticamente, no próprio perguntar, ela será respondida. Não é que você pergunta 'quem sou eu, quem sou eu, quem sou eu?' e num dia você vem a saber que você é a, b, c, d. Não, você nunca vai chegar a saber a, b, c, d. Pouco a pouco, quanto mais você perguntar, mais fundo chegará. Um dia, de repente, a pergunta desaparece. Você estará de pé, face a face com seu próprio ser, você está aberto para o seu ser. A pergunta terá desaparecido e não haverá resposta.
Tenha isso como um critério: se a pergunta puder ser respondida, ela não é fundamental. Se por perguntar, a questão desaparece, ela é fundamental, e nesse próprio desaparecer, você terá chegado. E pela primeira vez, alguma coisa terá acontecido, pela primeira vez, você já não é mais o mesmo. Godot não veio, mas a espera desapareceu. Você não espera, você chegou. E uma vez que você tenha chegado, a qualidade de seu ser será totalmente diferente. Então você pode celebrar.
Quando uma semente se torna uma flor, existe alegria, existe deleite. Uma vez que você compreenda quem você é, uma vez que você vá fundo em seu vazio, sem medo, uma vez que você aceite a morte interna, e você não tente escapar através de sonhos e projeções, uma vez que você aceite que você é pó e ao pó retornará e que entre esses dois acontecimentos não há nada, só um profundo vazio, você terá chegado ao que Buda chama Nirvana. Isso não é o seu Godot..
Uma vez que você esteja pronto para entrar no vazio, de repente o medo desaparece, a mesma energia se torna celebração. Você pode dançar porque aquilo que parecia ser vazio era uma interpretação da mente, não era vazio. Aquilo era tão cheio que a mente não podia entender aquela imensa dimensão.
Uma vez que você entre em seu ser mais profundo, a mente não pode entender. Ela é totalmente alheia a essa nova linguagem, ao novo território. Isso é absolutamente desconhecido para ela. A mente não pode ajudar nisso. Ela segue simplesmente vazia. A coisa é demais para ela. A luz é tão brilhante e deslumbrante que a mente segue vazia e em branco. Você fica com medo e escapa, então você cria um falso deus, um Godot......
Existem religiões de Godots, igrejas, mosteiros, templos. Elas estão organizadas em torno de um credo, organizadas por causa do medo do homem, organizada por causa da mente escapando de seu vazio interior, são doutrinas e dogmas para preencher você. Todas elas são barreiras.
As religiões comuns são falsos fenômenos. Tenha cuidado com elas. Você pode estudar e, enquanto você estuda, você pode se sentir bem, enquanto você estuda, você pode se esquecer de si mesmo. Você pode entrar em teorias sutis e pode acontecer uma certa curtição intelectual, um deleite intelectual. (...) Ou você pode entrar nas drogas. Você mudará a sua química e por poucos momentos você alcançará uma altura que é falsa, que não é uma altura real, porque você não tem alicerces para ela. Foi a química que empurrou você.
(...)
Eu encontro você na estrada e eu tenho uma lanterna. De repente, você não está mais na escuridão, mas a lanterna é minha. Em breve nós iremos partir, porque o seu caminho é o seu caminho e o meu é o meu. E cada indivíduo tem um caminho individual para alcançar seu destino. Por um momento você esquece toda a escuridão, a minha luz funciona para mim e também para você. Mas em breve o momento chega e nós teremos que partir. Eu sigo o meu caminho e você o seu. Agora, de novo, você terá que ir apalpando na escuridão e a escuridão será ainda mais forte que antes.
Assim, não dependa da luz dos outros. É até melhor ir apalpando na escuridão, mas deixe que a escuridão seja sua. A luz de alguma outra pessoa não é boa. Mesmo a própria escuridão de uma pessoa é melhor para ela. Pelo menos é dela mesma, pelo menos ela é a sua realidade. E se você viver em sua própria escuridão, mesmo a escuridão se tornará menos e menos escura. Você será capaz de ir apalpando, você aprenderá a arte de apalpar e não irá cair.
Pessoas cegas não caem. Se você tentar andar com os olhos fechados, enfrentará dificuldades. Nem cem passos você conseguirá dar. Mas o homem cego tem andado de toda maneira, a cegueira é dele. Com os olhos fechados você está tomando uma cegueira por empréstimo, ela não é sua.
Mesmo a escuridão, sendo da própria pessoa, é boa. Os erros da própria pessoa são melhores que as virtudes de outras pessoas. Lembre-se disso, porque a mente está sempre tentada a imitar, a tomar emprestado. Mas o que é significante não pode ser tomado emprestado. Não, você não pode entrar no reino de Deus com dinheiro emprestado, não tem jeito. Você não pode subornar os guardas, porque não existem guardas, e você não pode entrar pela porta do ladrão, porque não existem portas. Você tem que caminhar e ao caminhar, criar o seu próprio caminho. Caminhos prontos não estão disponíveis.
Isso é o que as falsas religiões seguem ensinando as pessoas: 'Venha! Esta é uma superestrada. Seja um cristão e não precisará mais se preocupar. Então nós iremos cuidar de todo o seu fardo. Então nós nos responsabilizaremos.' Jesus disse: 'Seja você mesmo' e o Papa do Vaticano diz: 'Siga o cristianismo'. Todo o cristianismo é contra Cristo, todas as igrejas são contra a religião. Elas são cidadelas de anti-religião e de anti-Cristo.
Você deve ser você mesmo. Não existe outra maneira de ser. Tudo o mais é falso, desonesto, não sincero, imitação, feio. A única beleza possível é ser você mesmo, ser você mesmo em tal pureza e inocência que nada de fora, estranho, entre em você.
Caminhe em sua própria escuridão, porque caminhando, apalpando, pouco a pouco você irá encontrar a sua própria luz também. Quando você tem a sua própria escuridão, a luz não está muito longe. Quando a noite está escura, a manhã está próxima, quase chegando. Se você se tornar dependente de luz emprestada, você estará perdido. A escuridão nunca é tão perigosa quanto uma luz emprestada. Conhecer é bom, mas o conhecimento não é bom. O conhecer é seu e o conhecimento é dos outros.
Para você caminhar não é preciso que o mundo inteiro seja preenchido com luz, basta o seu próprio coração. Uma pequena chama e será o suficiente, porque ela irá iluminar suficientemente o caminho para você caminhar. Ninguém caminha mais do que um passo de cada vez. Uma pequena chama no coração - de consciência, de clareza, de meditação, uma pequena chama e será o bastante. Ela ilumina um pouco seu caminho. Então você dá um passo e então a luz avança mais adiante.
Lao Tsé diz: 'caminhando um passo de cada vez, a pessoa pode caminhar dez mil milhas'. E dEus não está lá longe. O Godot está lá longe, você nunca irá alcançá-lo. Você terá que esperar, esperar e esperar. Ele é uma espera. Godot é uma espera infinita, porque ele é simplesmente uma imaginação. Ele não está lá. Ele é como o horizonte, ele aparenta estar.
Godot é um horizonte, ele é uma espera, ele preenche o seu vazio e engana você. Esse é o único engano. Mas Deus não está longe. Deus está exatamente onde você está, exatamente agora.
Viver é possível somente neste momento, porque não existe outro momento. E quando eu estou dizendo essas coisas, não comece a pensar a respeito delas, porque pensar é um processo e leva você para o futuro. Ouça-me e entenda - isso não é uma questão de pensar. Eu não estou falando a respeito de alguma hipótese. Eu estou simplesmente falando para vocês um fato. Eu não estou dando a vocês uma doutrina, eu só estou indicando qual é o caso. Você não precisa pensar a respeito disso. Você pode ouvir e se você tiver ouvido bem, atentamente, o entendimento é imediato.
Comigo, você irá perder a trilha repetidas vezes, porque essa é a minha luz. Mas, uma vez que você saiba que a luz é possível, você se tornará confiante de que a sua luz também é possível. Se isso acontece com esse homem, por que não com você? Meus ossos são exatamente como os seus, meu sangue, exatamente como o seu, eu sou de carne-e-osso como você. Eu estou tão empoeirado quanto você. Se alguma coisa do além foi possível para esse homem, você pode confiar, não há necessidade de hesitar, você também pode dar o salto.
Comigo, nesses dias, enquanto você estiver comigo, eu vou tentar caminhar com você com minha luz. Lembre-se: aproveite isso, mas não dependa disso. Leia o Torah, leia a Bíblia, aproveite pois eles são realmente lindos, mas não dependa. Curta o seu próprio impulso, o seu próprio desejo, dê uma urgência, uma intensidade para chegar, para chegar onde você já está. Isso não irá acontecer em algum outro lugar. Isso está aí, onde você está.
A religião não é um objetivo, ela é uma revelação. Religião não é um desejo, ela é realidade. Só um pequeno sintonizar, e eu digo só um pequeno e tudo se torna possível. A vida se torna possível, de outro modo você viverá vazio e esperando. Não seja os vagabundos da peça de Samuel Beckett 'Esperando Godot'. Você já esperou muito. Ponha um fim nisso, agora, e comece a viver. Por que esperar? Quem você está esperando? Quem é afinal esse Godot?
Neste momento, toda a existência cruza em você.
Neste momento, tudo que está na existência, culmina em você.
Neste momento, você é um crescendo. Curta isso.
Se você puder entender que você é o objetivo, será muito fácil entender essa história. Ela é pequena, mas muito significante e penetrante. Você é o objetivo, você é o caminho, você é a luz, você é o todo. Esse é o significado quando nós dizemos 'você é sagrado'.
Se você veio a mim, lembre-se: deixe-me ser simplesmente um encorajamento, um encorajamento para levar você a si mesmo. Permita-me e ajude-me de tal maneira que eu possa atirá-lo de volta ao seu ser mais profundo. Esse é o significado de um mestre: um mestre ajuda você a ser você mesmo.
Eu não tenho qualquer padrão de comportamento para lhe dar, nenhum valor, nenhuma moralidade. Eu tenho apenas liberdade para lhe dar, de modo que você possa florescer, possa se tornar um lotus, uma luz e uma vida eterna."

24/06/2004

Nove maneiras de como não se deve falar de Deus

Encontrei este texto em uma página na internet. O tradutor procurava responder a alguns questionamentos que surgiram no seu blogger, por isto não quis excluir o prefácio do tradutor, tornava o texto mais coerente. Em um próximo post (sem data prevista) tentarei colocar algumas objeções pequenas (perdoe-me se peco de tanta pretenção) as idéias aqui colocadas. Sobre o tradutor http://proverbiota.blogspot.com/ Coincidência extraordinária, o blogger dele começa exatamente com a mesma frase que o meu. No principio era... Imagens recorrentes. O texto em inglês está em http://www.aril.org/panikkar.htm 

 "Algumas intervenções sobre Deus suscitaram comentários e críticas às quais fiz chegar minhas "respostas", sabendo de antemão que nunca eliminaria quaisquer dúvidas. Também nunca foi essa a minha intenção: não quero convencer ninguém. Contudo, desejaria que ao menos ficasse entre mãos dos que me vêm aturando um texto síntese das minhas motivações. Pensava elaborar um quando me caiu no monitor este texto. Este? Quem me dera que esta tradução da minha responsabilidade (eu sou um grande nabo em inglês…) não atraiçoasse o pensamento do autor. Se atraiçoar, eu peço desculpa a Pannikar. Mas mesmo que atraiçoe, o texto que se segue em português corresponde inteiramente ao que eu penso e sinto sobre o tema. Só mais uma nota: que bom verificar que Raimon Panikkar haja alcançado a liberdade para nos fornecer esta palavra libertada. Estou convencido que nos anos 50, altura em que pela primeira vez ouvi falar dele, a instituição que me revelou seu nome não lhe permitiria escrever o que se segue. Os nove pontos seguintes são um contributo para resolver um conflito que faz de muitos dos nossos contemporâneos um grupo à parte. De facto, parece que muita gente não é capaz de resolver o seguinte dilema: ou acreditar na caricatura de Deus que não é mais do que a projecção dos seus desejos insatisfeitos, ou não acreditar em nada em absoluto e, consequentemente, nem em si mesmos. Pelo menos desde Parménides, a maior parte da cultura ocidental tem-se centrado à volta da experiência-limite do Ser e da Plenitude. Grande parte da cultura oriental, por sua vez, pelo menos a partir dos Upanixades, centra-se à volta da consciência-limite do Nada e do Vazio. A primeira é atraída pelo mundo das coisas enquanto nos revelam a transcendência da Realidade. A segunda é atraída pelo mundo do subjectivo o qual nos revela a impermanência dessa mesma verdadeira Realidade. Ambas se preocupam com o problema da "finalidade", o fim último a que muitas tradições chamaram Deus. As nove breves reflexões que se seguem nada dizem acerca de Deus. Em vez disso, desejariam apenas indicar a que circunstâncias o discurso sobre Deus tem de ser adequado e mostrar-se eficaz, se se quiser manter útil para nos ajudar a viver nossas vidas de uma maneira mais plena e mais livre. Não procedemos desta maneira para evitarmos abordar "isso" que é Deus, mas talvez por termos uma profunda intuição: não podermos falar de Deus da mesma maneira como falamos de outras coisas. É importante que se tenha em conta o facto de que a maioria das tradições humanas falam de Deus tão só no vocativo. Deus é uma invocação. As nove facetas que esta reflexão apresenta é um esforço para formular nove pontos, os quais, quanto a mim, deveriam ser aceites como base para o diálogo que os homens não podem por muito mais tempo adiar sob pena de se reduzirem a nada mais do que robôs programados. Em cada ponto acrescentei apenas alguns comentários, concluindo com citações da tradição cristã as quais servem apenas de ilustração. 1. Não podemos falar de Deus sem primeiro ter alcançado um silêncio interior. Assim como é necessário fazer uso de um acelerador de partículas e de matrizes matemáticas para falar com conhecimento de causa de electrões, necessitamos, para falar de Deus, de uma pureza de coração que nos permitirá ouvir a Realidade sem outra interferência que a auto-investigação. Sem este silêncio do processo mental, não podemos elaborar qualquer discurso sobre Deus que não se reduza a uma simples extrapolação mental. Sem esta condição nós estaremos apenas a projectar as nossas próprias preocupações, boas ou más. Se procurarmos Deus com o fito de fazer uso do divino para qualquer coisa, estamos a ultrapassar a ordem da Realidade. Diz o Evangelho: "Quando orares, procura a mais profunda e a mais silenciosa parte da tua casa." 2. Falar sobre Deus é um discurso suigéneris É radicalmente diferente do discurso sobre outra coisa qualquer, porque Deus não é uma coisa. Fazer de Deus uma coisa seria fazer de Deus um ídolo, mesmo que se trate de um ídolo mental. Se Deus fosse apenas uma coisa, escondida ou superior, uma projecção do nosso pensamento, não seria necessário dar a "isso" um nome. Poder-se-ia com vantagem falar de um super-homem, uma super causa, uma meta-energia, ou meta-pensamento ou não sei o quê de outra coisa qualquer. Não seria necessário, em ordem a imaginar um arquitecto inteligentíssimo que outro não pudesse igualar ou um arquitecto de engenho inultrapassável, usar o termo "Deus"; bastaria falar do super desconhecido por de trás de todas as coisas que não conhecemos. É este o Deus das "descontinuidades" , o Deus dos espaços entre as matérias, cuja retirada estratégica tem vindo a ser revelada mais ou menos nestes três últimos séculos. "Não dirás o nome de Deus em vão", diz a Bíblia. 3. O discurso acerca de Deus é um discurso sobre o nosso ser todo inteiro. Não é matéria de pressentimento, "feeling", da razão, do corpo, de ciência, de filosofia académica e ou de teologia. A experiência humana, em todos os tempos sempre procurou exprimir um "algo" de outra ordem que é "um mais" tanto na base como no fim de tudo o que somos, sem excluir ninguém. Deus, se Deus "existe", não está à esquerda, nem à direita, nem acima nem abaixo seja qual for o sentido destas palavras. "Deus não faz distinção entre pessoas", diz São Pedro. 4. Não é um discurso acerca de qualquer igreja, religião ou ciência. Deus não é monopólio de qualquer tradição humana mesmo daquelas que a si mesmas se intitulam de teístas ou das que se consideram religiões. Todo e qualquer discurso que tenta tornar Deus prisioneiro de uma ideologia seja ela qual for é um discurso sectário. É inteiramente legítimo definir o campo semântico das palavras, mas quem limitar o campo de "Deus" à ideia que um dado grupo humano faz do divino acaba sempre por defender uma concepção sectária de Deus. Se existe "alguma coisa" que corresponde ao termo "Deus", não o podemos confinar a nenhum "apartheid". Deus é o Todo (to pan); A Bíblia hebraica diz isso; também as Escrituras cristãs repetem o mesmo. 5. É um discurso que sempre corresponde à expressão de uma fé É impossível falar sem a linguagem. Do mesmo modo, não há linguagem que se não adapte a esta ou àquela crença. Contudo, nunca se deve confundir o Deus do qual falamos com a linguagem ou a crença que dá expressão ao Deus em que acreditamos. Existe uma relação transcendental entre o Deus que a linguagem simboliza e aquilo que nós actualmente sabemos acerca de Deus. A tradição ocidental falou frequentemente de misterium – palavra que não significa nem enigma nem desconhecido. Toda a linguagem é condicionada pela cultura e a ela está ligada. Mais, a linguagem depende do contexto concreto o qual, por sua vez e ao mesmo tempo a alimenta de significações e lhe determina os limites do campo significativo. Precisamos de um dedo, olhos e de um telescópio a fim de localizar a lua, mas não a podemos identificar com o sentido que aqueles instrumentos indicam. É preciso ter em conta a intrínseca inadequação de todas as formas de expressão. Por exemplo, as provas da existência de Deus que foram desenvolvidas no período da escolástica cristã só podem demonstrar aos que crêem em Deus que a existência do divino não é uma irracionalidade. Se assim não fora, como poderiam ser capazes de saber que a prova demonstrava aquilo de que precisamente andavam à procura? 6. É um discurso acerca do símbolo e não do conceito. Não se pode fazer de Deus o objecto de qualquer conhecimento ou de qualquer crença. Deus é um símbolo simultaneamente revelado e escondido no símbolo de tudo aquilo que vamos exprimindo enquanto falamos. O símbolo é símbolo porque simboliza e não por causa de ser interpretado como tal. Não há hermenêutica possível para um símbolo porque é ele próprio a hermenêutica. Aquilo de que fazemos uso para interpretar é o próprio símbolo. Se a linguagem fosse apenas um instrumento para designar objectos, nunca seria possível um discurso sobre Deus. Os humanos não falam apenas para transmitir informação, mas porque sentem uma necessidade intrínseca de falar – quer dizer, para viver em pleno, participando linguisticamente num dado universo. "Nunca ninguém viu Deus", disse S. João. 7. Falar sobre Deus é, necessariamente, um discurso polissémico. Trata-se de um discurso que não pode ser limitado a uma sentença estritamente analógica. Não pode haver desse discurso um primum analogatum uma vez que não pode haver uma meta-cultura a partir da qual se possa continuar o discurso. Se uma houvesse seria uma cultura. Existem muitos conceitos sobre Deus, mas nenhum é "conceito de" Deus. Isto significa que procurar limitar, definir ou conceber Deus é um empreendimento contraditório: o produto de um tal procedimento seria apenas uma criação do espírito, uma criatura. "Deus é maior que o nosso coração", diz São João numa das suas epístolas. 8. Deus não é o único símbolo para indicar o que o termo "Deus" deseja transmitir. O pluralismo é inerente, em última análise, à condição humana. Não podemos "compreender" ou significar o que a palavra "Deus" representa na óptica de uma única perspectiva ou mesmo a partir de um único princípio de inteligibilidade. Na verdade nem a palavra "Deus" é necessária. Toda a tentativa para tornar absoluto o termo "Deus" destrói as ligações não só com mistério divino (que deixaria assim de ser absoluto – isto é sem dependência relacional de qualquer espécie), mas com os homens e com as mulheres daquelas culturas que não sentem a necessidade deste símbolo. O reconhecimento de Deus caminha sempre com a experiência da contingência humana e com a própria contingência do conhecimento de Deus, uma atrás da outra. O catecismo cristão resume isto dizendo que Deus é infinito e imenso. 9. É um discurso que inevitavelmente se completa a si mesmo outra vez num novo silêncio. Um Deus que fosse completamente transcendente – o que poderia significar querer falar sobre um tal Deus? – tornar-se-ia supérfluo, ou até mesmo uma hipótese perversa. Um Deus inteiramente transcendente levaria a negar a imanência divina e ao mesmo tempo destruiria a transcendência humana. O mistério divino é inefável e não há discurso que o possa descrever. É característica humana reconhecer que a própria experiência é limitada não só no sentido linear em direcção ao futuro, mas também intrinsecamente nos alicerces que a sustenta. Não há experiência, a não ser que sabedoria e amor, se unam, corporalmente e temporalmente. "Deus" é uma palavra que agrada a algumas pessoas e desagrada a outras. Esta palavra, ao irromper no silêncio da existência, permite-nos redescobrir uma vez mais esse silêncio. Nós somos, cada um de nós é, uma existência de uma "sistência" que permite polongarmo-nos pelo tempo fora, estendermo-nos pelo espaço, consubstancial com o resto do universo quando insistimos em viver, caminhando em frente à procura, resistindo à cobardia e à frivolidade, subsistindo precisamente neste mistério a que muitos chamam Deus e outros preferem não nomear. "Recolhe-te no silêncio e sabe que eu sou Deus", declara um Salmo. Haverá quem lamente que eu tenha uma ideia demasiado precisa de Deus, mesmo que suponha que eu haja aqui escrito alguma coisa de acertado. Desejaria responder que, pelo contrário, eu tenho uma ideia muito precisa do que Deus não é – e mesmo esta ideia não se subtrai ao ataque crítico destes nove pontos. Mas apesar disto, não se trata de um circulo vicioso, mas antes, um novo exemplo do ciclo vital da Realidade. Não se pode falar da realidade fora da realidade nem fora do pensamento, tal como é impossível amar sem amor. Talvez o mistério divino dê sentido a todas estas palavras. A experiência do divino mais simples e despretensiosa consiste na tomada de consciência de tudo aquilo que quebra o nosso isolamento (solipsismo) ao mesmo tempo que respeita a nossa solidão (identidade).

16/06/2004

Por que não passamos de robôs biológicos

Já a algum tempo vem sendo desenvolvidas pesquisas que procuram criar softwares controlados pela mente. Este é só mais um passo em direção ao óbvio: em algum tempo (sei lá quanto!) começaremos a programar o cérebro humano. Sim! Começaremos a desenvolver software capaz de interagir com o comportamento das pessoas. Isto é o futuro.
Isto está muito mais perto do que se pensa. E há quem fale em alma. Queria descobrir onde ela está.
"Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina."
A dualidade do pensar, mente e corpo, esta Descarteada. =)
Vale pra tudo: "Isto passará."


14/06/2004

Sabedoria

Quando Gautama Buda viajava de um lugar a outro, alguns poucos discípulos iam à frente e anunciavam na cidade:
- Buda está chegando, mas por favor não façam aquelas onze perguntas.
E uma daquelas onze perguntas era:
- Por que a vida existe? Uma outra era: - Quem criou o mundo?
Naquelas onze perguntas, toda a filosofia estava contida. Na verdade, se você abandonar aquelas onze perguntas, nada sobra para ser perguntado.
Buda costumava dizer que essas eram perguntas inúteis. Elas não eram respondíveis, não porque ninguém soubesse a resposta. Elas eram irrespondíveis pela própria natureza das coisas.
Um grande filósofo, Maulingaputta, veio até Buda e começou a fazer algumas perguntas... Perguntas após perguntas. Buda ouviu silenciosamente por meia hora. Maulingaputta começou a se sentir um pouco embaraçado porque Buda não estava respondendo, ele estava simplesmente sentado ali, sorrindo, como se nada tivesse acontecido, e ele havia formulado perguntas tão importantes, tão significativas.
Finalmente Buda disse: Você realmente quer saber a resposta?
Maulingaputta disse: Se eu não quisesse, por que eu teria vindo até você? Eu viajei pelo menos mil milhas para vê-lo... Por que eu teria vindo de tão longe? Foi um longo sofrimento. Parece que eu estive viajando por toda a minha vida! E você está perguntando se eu realmente quero saber a resposta?
Buda disse:
- Eu estou perguntando de novo: você realmente quer a resposta? Diga sim ou não, porque irá depender muito disso.
Maulingaputta disse:
- Sim!
Então Buda disse:
- Por dois anos sente-se silenciosamente ao meu lado, não pergunte, não questione, não converse, simplesmente sente-se silenciosamente por dois anos ao meu lado. E após dois anos você poderá perguntar o que você quiser e eu prometo que irei respondê-lo.
Um discípulo, um grande discípulo de Buda, Manjusri, que estava sentado na sombra de uma outra árvore, começou a rir muito alto e começou a rolar pelo chão. Maulingaputta disse:
- O que aconteceu com esse homem? Você está falando comigo, você não dirigiu uma simples palavra a ele, ninguém disse nada para ele... Estará ele contando piadas para si mesmo?
Buda disse:
- Vá lá e pergunte a ele.
Ele perguntou a Manjusri. Manjusri disse:
- Senhor, se você quiser realmente fazer a pergunta, faça-a agora. Essa é a maneira dele enganar as pessoas. Ele me enganou. Eu costumava ser um filósofo tolo, exatamente como você. A resposta dele foi a mesma quando eu cheguei. Você viajou mil milhas e eu havia viajado duas mil milhas.
Manjusri era certamente o maior filósofo, o mais conhecido do país. Ele tinha milhares de discípulos. Quando ele chegou, com ele vieram mil discípulos. Um grande filósofo chegando com seus seguidores.
E Buda disse:
- Sente-se silenciosamente por dois anos. E eu me sentei silenciosamente por dois anos, mas então eu não podia fazer uma pergunta sequer. Aqueles dias de silêncio... Devagar, devagar, todas as perguntas foram se desfazendo. E uma coisa eu vou dizer a você: ele manteve sua promessa, ele é um homem de palavra. Após os exatos dois anos, eu tinha me esquecido completamente, eu tinha perdido a noção do tempo, por que quem vai se preocupar em lembrar? Na medida em que o silêncio ficou mais profundo, eu perdi toda a noção de tempo. Quando os dois anos se passaram, eu nem estava me dando conta disso. Eu estava curtindo o silêncio e a presença dele. Eu estava bebendo a presença dele. E isso foi tão incrível. Na verdade, no fundo do meu coração eu não queria nunca que aqueles dois anos fossem concluídos, porque uma vez que eles se concluíssem, ele iria dizer Agora ceda o lugar para alguma outra pessoa sentar ao meu lado, e você afaste-se um pouco. Agora você já é capaz de estar só, você não precisa tanto de mim. Exatamente como uma mãe afasta a criança quando ela pode comer e digerir por si mesma e não precisa mais se alimentar do peito materno. Assim, Manjusri disse, eu estava esperando que ele se esquecesse de toda essa história a respeito dos dois anos, mas ele se lembrou. Exatamente após os dois anos, ele me disse: "Manjusri, agora você pode formular as suas perguntas". Eu olhei para dentro de mim e não havia nenhuma pergunta, nem ninguém para formular perguntas, era um silêncio total. Eu ri, ele riu, ele deu um tapinha nas minhas costas e disse, "Agora, afaste-se um pouco."
"Assim, Maulingaputta, é por isso que eu comecei a rir, porque agora ele está de novo aplicando o mesmo golpe. E esse pobre Maulingaputta vai se sentar por dois anos silenciosamente e vai se perder para sempre, nunca mais será capaz de formular uma pergunta sequer. Por isso, Maulingaputta, eu insisto: se você quer realmente perguntar, pergunte agora!"
Mas, Buda disse: "Minhas condições têm que ser atendidas."
Então a minha resposta para você é a mesma: atenda às minhas condições, medite, sente-se silenciosamente, simplesmente esteja aqui e todas as perguntas irão desaparecer. Eu não estou interessado em respondê-lo. Eu estou interessado em dissolver as suas perguntas. E quando todas as perguntas desaparecerem, aquele que pergunta também desaparecerá, ele não pode existir sem as perguntas. Quando nenhuma pergunta mais existir, nem aquele que pergunta... quantas bênçãos, quanto êxtase! Neste exato momento, você nem pode imaginar, você nem pode sonhar, você nem pode compreender. Então, todo o mistério da vida se abrirá, mistérios e mais mistérios... e isso não tem fim.

(Não sei quem escreveu este texto)

"Eu preciso aprender a falar menos do que o necessário e, quando tiver aprendido isso, falar cada vez menos, até ser só uma pessoa que ri. "

- Dionisio Neto