Escrito no rescaldo do Natal de 2025; revisitado no início de maio de 2026, aniversário do meu pai.
A Bíblia, para o meu pai, teólogo e filósofo, antes de sair do seminário aos 26 anos, era o livro máximo; preparou-se para dominá-la. Latim e grego fluentes, algum francês, amor pelos textos, pela exegese católica e boas traduções. A grega, favorita e hoje perdida, ele abria com quem quisesse dividir epifania. Depois do seminário, graduou-se em História, cursou Letras, trabalhou na Veja como chefe de revisão e na Playboy como secretário de redação. O desemprego após o fim da ditadura não o impediu de celebrar. No Plano Collor, perdemos quase tudo; infartou. Reergueu-se. Terminou a vida coordenando curso em universidade particular. E a Bíblia? Não abandonou nem no fim.
Mas isso não é tudo. Não estranhei quando, mais velho, percebi ironia nos comentários que às vezes deixava escapar. No Natal é inevitável lembrar dele e do tema; foi meu professor na crisma. De certa forma, tornou possível o ceticismo dos filhos, até o da minha irmã já morta. O vi sorrir e questionar várias vezes: "parece tão estranho!". Andávamos de carro, descíamos a Avenida 36 em Araraquara, perto de um farol; gostaria de responder também sorrindo: é, é estranho!
Foi ele também que trouxe do Culturato, escola onde dava aula na mesma Avenida 36, um livro de capa dura emprestado em 1989 para o filho de 13 anos que se interessava por astronomia. Era Cosmos, do Carl Sagan. Foi ali que conheci mais do ceticismo que depois se tornou parte do meu modo de enxergar o mundo; perspectiva de eterno saber incompleto, caminho não chegada. Foi esta leitura que me ajudou no mundo que estava descobrindo; me ajudou a suportar outra que emocionalmente teve impacto muito maior: Memórias do Subsolo (edição pequena da Bruguera). Angústia sem misericórdia nenhuma, criou o vazio de sentido, a dissolução do eu, impressão que só compreendi anos depois, primeiro com o budismo Theravada, depois com Metzinger; o consolo do Sagan foi certa complacência, um afeto pelo humano que o Subsolo recusava; foi esse afeto, não a ciência, que me sustentou depois de cair no subterrâneo. Se olho com curiosidade para a Bíblia ou outro tema qualquer que possa ser considerado espinhoso, sem conflito, angústia ou receio, devo isso a essa abertura do Sagan e especialmente do meu pai nas inúmeras conversas, um passado quase inacreditável para mim; tenho comigo as lembranças do que eu era, não foram anos incríveis, foram bons. Hoje, relendo a Bíblia para escrever este texto, vi menos revelação e mais máquina; desmistificou-se ainda mais o texto, já não me parece plausível que ali se revele algo surpreendente; nem exótico, nem oculto, não era mais do que o óbvio.
O Antigo Testamento
É só o imaginário de um povo pequeno, coeso na perda, ressentido, tomado por delírios de grandeza, que narra a própria eleição em 39 ou 46 livros; palimpsesto de Deus que termina em dissenso.
A Bíblia começa pelo Gênesis, que começa pelo cosmos, mas não permanece nele; a criação não investiga o mundo, usa o mundo; tudo existe para servir o homem, que existe para servir a Deus. Abre universal depois estreita: criador ordena luz, vida e morte de pessoas e povos; controla sexo e culpa; é voz que separa e aprova (“era bom”); presença quase doméstica, que planta jardim, procura o homem, impõe limite, pune e reorganiza. Sua oscilação denuncia camadas, tradições e funções diferentes; Atrahasis e Enuma Elish, textos mesopotâmicos em acádio anteriores à forma final do Gênesis, impedem de tratá-lo como revelação sem história. A força do Gênesis é transformar cenas simples em matriz cultural, como no Éden, em Caim e Abel, no dilúvio, em Babel e no quase sacrifício de Isaac. Contra outros textos antigos, a diferença aparece. O Nasadiya Sukta, com seu "Um sem vento" e seu “talvez nem ele saiba”, é mais forte como cosmogonia; menos literal, mais poético. A Teogonia não ordena o mundo por decreto; faz o cosmos nascer de genealogia com sucessão e luta, deuses são forças em conflito. Gilgamesh talvez supere todos como narrativa de consciência; amizade, luto, medo da morte, fracasso da imortalidade; o mais humano. O Gênesis, perto disso, parece mais literal, mais didático, mais certo de si: ordena, aprova, pune, afunila; cosmogonia utilitária. Os outros mitos parecem mais livres, mais abertos ou mais belos; o Gênesis é mais eficiente porque não investiga a origem: captura-a. A fragilidade do texto é tentar transformar cosmogonia em genealogia, quando nem mesmo a humanidade está no centro; é um povo especial, escolhido com genealogia telegráfica a serviço desta eleição: "Adão gerou, que gerou, que gerou". Mesmo que conseguisse fazer do centro a humanidade inteira, o que esta longe de fazer, ainda assim seria pouco diante do que sabemos; nossa insignificância, pálido ponto azul. O texto não fica aquém da tarefa a que se propõe; nem toca nela.
Não é exclusividade do Gênesis; pretensão descabida e autoengrandecimento desproporcionais à circunstância local. Antigo Testamento é código civil com pouca teologia; Deus como premissa não é teologia. Surpreendentemente, ele não é objeto de reflexão. São regras para gerir crises tribais; misturam a eleição de um povo e sua genealogia com propaganda dinástica, terra prometida, lei, pureza, conquista, identidade, punição, em textos que abusam do lamento, da súplica, da ironia pobre e do desespero; às vezes há entusiasmo ao celebrar Deus que diz, de maneira até um pouco óbvia, o que as pessoas gostariam ou precisariam que ele dissesse; manipulação ou controle sem pudores. Pureza e mais pureza; nenhum lamento quando crianças são mortas; pureza é o nome do medo da carne, e não se para de nomeá-la. A voz dessa obsessão por pureza é masculina; por isso, o papel determinado à mulher serve para sustentar essa ordem; ela é dada, tomada, negociada, estuprada, raptada, punida, repartida como despojo, usada como ventre, prova de honra, risco de impureza e objeto de vingança; nunca reconhecida senão pela sua função. Deus autoriza, ratifica ou ignora. Neste texto sagrado, a escravidão é aceita e normalizada; a violência não é episódio; o ódio e a indiferença de Deus também não são. É arrastado terminar: entediante, chato, fofoca, nonsense; disciplina social, não a revelação que eu tinha me preparado para questionar. Incomodam as falácias repetitivas, o apelo à autoridade (é verdade porque Deus disse, Moisés disse, ou o profeta disse); o raciocínio circular denuncia escrita de convertidos para convertidos; Deus é verdadeiro porque a Escritura (de Deus) diz. Post hoc: sofreu? então pecou; prosperou? então foi fiel. Inevitável lembrar do universo evangélico (especialmente neopentecostal), que de alguma forma presume o mundo meritocrático e justo.
Não são textos isolados; são textos local e historicamente situados, pertencentes ao mesmo mundo antigo, com seus limites e sua brutalidade. O grau de dependência varia. Amenemope aparece em Provérbios como forma e conteúdo; Hammurabi antecipa a lei casuística de dívida, escravidão, família e punição; Jó retoma o justo sofredor babilônico; Eclesiastes, a sabedoria diante da morte de Gilgamesh; o Deutero-Isaías, a propaganda imperial sobre Ciro. Nem tudo é cópia; quase nada tem origem pura; apenas história. Mas a questão é maior: ausência de evidência não prova; às vezes acusa. No Êxodo, é clara a desproporção entre o tamanho do relato e o silêncio das evidências arqueológicas. É provável que tenha havido fuga menor; mas não há evidência proporcional. A tradição talvez aumente, dê relevância; não inventa do nada.
Aclamado, Isaías tem suas melhores passagens em Deutero-Isaías (40-55), no contexto do exílio babilônico, após a queda de Jerusalém. Entretanto, não encontro (deveria?) nuance ética ou sutileza; a beleza é execução retórica, a construção do consolo, identidade e esperança. Além dessas passagens, muitas vezes retribuição simplista (moral de cartilha), punição, refrões como "será devorado pela espada" e o martelo "apesar de tudo, sua ira não se desviou, sua mão ainda está estendida". Boa parte do livro é binária, de crise, modo panfletário, voz de absolutos, fórmulas repetidas, inimigos caricaturados; quase tudo é função e tipo, não consciência. A literatura grega fala da vitória pelo intelecto ou pela luta, de reconhecimento tardio ou inútil, de amadurecimento, aceitação; Isaías ignora os sinais e vence por ser ungido, repetindo mantra que não convence: “assim diz o Senhor”. O texto é uma reconstrução tardia (de sentido); soa mal chamá-lo de “quinto evangelho”; como querem algumas leituras.
Os Salmos são compêndio de poética hebraica (paralelismo), antologia de 150 poemas/hinos, parte deles atribuída pela tradição a Davi. Muitos são ricos e belos; lamento, finitude, exílio. Alternam lucidez emocional com licença para o sadismo via Deus; ladainha. Cântico dos Cânticos é talvez o livro que menos precisa de Deus para funcionar; por isso a tradição precisou alegorizá-lo.
Jó é microcosmo da Bíblia, colcha de retalhos; prólogo e epílogo em prosa arcaica, quase conto sapiencial, enquanto o miolo é poesia altamente elaborada, provavelmente de outra época, sendo os discursos de Eliú talvez enxertos tardios. Em Jó, as mulheres deixam de ser apenas função; há simpatia por elas, que parecem entender melhor o jogo. Jó é um dos poucos lugares bíblicos em que a experiência humana não está inteiramente esmagada pela regra, pela genealogia ou pela propaganda; sua voz tem conflito, interioridade, desespero e ironia; não vi essa riqueza e profundidade em outro texto do Antigo Testamento; fora dele, na Bíblia, poucas vezes. Ele tem a força das grandes tragédias, trata o problema do sofrimento e da injustiça, supera a falência das explicações morais. Mesmo assim é teologia defensiva, não investigação radical. A pergunta "por que o justo sofre?" é forte, mas a resposta é apelo à assimetria ontológica: "quem é você para perguntar?" Isso não é profundidade; é apelo à autoridade para encerrar. A dor é dilacerante; captura e nos drena; mas Jó não é Shakespeare, não leu o Conto da Mulher de Bath, não conheceu a ironia e humanidade de Chaucer. Em Jó, personagens são tipos morais, não consciências dilaceradas. Jó não evolui psicologicamente; ele oscila retoricamente; Shakespeare constrói interioridade. Sem bardolatria, nenhum deles encerra nossas formas de fabular o humano.
Eclesiastes/Qohelet, desilusão sem subterfúgios, curto, seco, concentrado, o corpo estranho mais subversivo do cânone bíblico, ceticismo que a tradição tentou domesticar sem sucesso, mas ainda longe do niilismo moderno (de sentido); ele remove previsibilidade moral de um mundo que não responde de forma confiável a esquemas morais de recompensa. A autoria salomônica é máscara literária (hebraico tardio, aramaico e provavelmente até termos persas). Conteúdo sem ideal ou esperança, "Tive tudo, vi tudo, e deu em nada" (Sidarta vai por outro caminho, mais terapêutico que metafísico talvez?). Esse nada é hevel, vapor, hálito, fumaça, não só futilidade moral, mas insubstância ontológica; tentamos segurar a vida, mas nos escapa. Remendar o texto e tentar transformá-lo em epílogo moralista ("teme a Deus…"), com trechos pró-sabedoria servindo de cola piedosa, domesticar o estrago e fingir uma saída não se sustenta. Aqui Deus não é presença, é distância; não há justiça estável nem lucro último (yitron tende a zero), sobra ética pragmática e melancólica; comer, beber e trabalhar como consolo paliativo, não redenção; tem uma dureza que não consola. Mas a desilusão de Eclesiastes ainda não olha para si da forma moderna; não faz da própria lucidez objeto de autoironia; vê o absurdo, mas não ri dele; para antes. Falta-lhe esse autodesdém moderno. É arrebatador ler Esperando Godot: tristeza, humor e poesia, nenhum paliativo; dois vagabundos desmontam a epistemologia religiosa em um diálogo curto: dos quatro evangelistas, só um diz que o ladrão foi salvo; por que acreditar justamente naquele um? Vladimir insiste: os quatro estavam lá, ou por ali, mas só um fala do ladrão salvo. Por que acreditar nele, e não nos outros? Estragon encerra: gente é um bicho muito ignorante. Na versão inglesa recriada pelo próprio Beckett, eis o homem: “People are bloody ignorant apes”.
Relendo o Novo Testamento
É o empenho de pequenas comunidades protocristãs, majoritariamente iletradas, em converter, décadas depois dos fatos, a crucificação de um pregador judeu apocalíptico na verdade última do universo; entre os textos, quatro evangelhos atribuídos pela tradição a nomes já mortos de outra geração, em desacordo sobre fatos, cenas e o próprio protagonista, que nem suspeita do que será feito com sua história.
Meu pai tinha um hábito. Sem ser pedante ou fazer proselitismo, misturava frases da Bíblia e do seminário com expressões clássicas que apropriou como suas, talvez para segurar a dureza da vida que teve; scaffolding? Homo homini lupus ("homem é lobo do homem"); memento mori ("lembra-te de que vais morrer"); quid est veritas? ("o que é a verdade?"); mais do que o significado, com o tempo, entendi também a entonação. Não havia domingo que não sentenciasse: "quanto melhor o domingo, pior a segunda-feira". Como detestava o ambiente corporativo, encaixava ironicamente sic transit gloria mundi ("assim passa a glória do mundo") ou vanitas vanitatum ("vaidade das vaidades"). Falava do dia da semana (dies lunae), das horas do dia (laudes, vesperae), do tempo litúrgico (quadragesima) ou de algo do ritual (Introibo ad altare Dei), no qual viveu por quase 17 anos; foi depositado aos 9 anos em um trem para o seminário. Invariavelmente soltava coisas mais duras e tristes. Pater mi, si possibile est, transeat a me calix iste. Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? Filius autem hominis non habet ubi caput reclinet.
Em grego repetia, introspectivo: γνῶθι σεαυτόν ("conhece-te a ti mesmo"). Refletindo sobre esta frase tentei extrair da leitura (em vão?) o valor dos textos quando abri mais solene do que o esperado para um cético, o Novo Testamento. Memória afetiva? Aprendi a gostar de várias passagens e isto não se perdeu com o tempo; por que há valor? O filho pródigo, com sua aparente contradição e final aberto; o desmonte da lógica meritocrática dos trabalhadores na vinha; a negação e a dor de Pedro; a ética além da reciprocidade; o rico insensato; o lava-pés; o início do evangelho de João, entre outras; estas passagens ainda tocam.
Há outra coisa ainda, mais enraizada, mais funda em mim, inspirada essencialmente no Novo Testamento: música. Mais do que forma, rigor ou grandeza, a tristeza e certo acanhamento do viver; uma reserva, serena e doce. Meu pai ao violão. Ele morreu há pouco mais de quatro anos e, se alguém fosse hoje descrevê-lo no nosso universo letrado, tendo acesso a fotos, vídeos, e o que ele escreveu, ainda assim me parece improvável que capturássemos exatamente quem ele foi ou o que disse. Depende de quem fala; enfatizamos ou projetamos coisas distintas. Minha tia, no grupo da família de que eu participava, vociferava com a autoridade de irmã e de "conhecê-lo antes de todos" que meu pai detestava "os vagabundos da esquerda", como, segundo ela, o próprio Jesus detestaria. O que esperar dos evangelhos, escritos décadas depois por gente que sequer o conheceu?
Nos evangelhos, a sensação geral é de parábolas soltas, mal encaixadas na narrativa; texto oscilando entre memória, catequese, propaganda, manual de conduta. Circulavam oralmente ou em coleções antes de serem incorporadas; muitos trechos têm costura à vista. O final longo de Marcos¹, em que Maria Madalena é reapresentada como se o leitor não a conhecesse (as três Marias citadas no texto são Madalena como quer a tradição católica?); em Lucas, Jesus em Nazaré, menciona o que teriam ouvido sobre Cafarnaum antes de ir a Cafarnaum. As contradições não são difíceis de encontrar: genealogias e datas diferentes em Mateus e Lucas, calendário divergente da Páscoa entre os sinóticos e João, hora da crucifixão e palavras atribuídas a Jesus na cruz; vestígios de redações anônimas e tardias, voltadas a comunidades diferentes; não apóstolos registrando revelação, mas colagens comunitárias disputando Jesus. A tradição em Mateus legitima dentro da matriz judaico-cristã; em Lucas reorganiza universal, horizonte gentílico. Não há revelação única e coerente; há interpretação comunitária e desesperada, com mais ética de partilha e antiacumulação do que a direita religiosa supõe.
Ceticismo tolera a incerteza; religião, ao contrário do que afirma, não. Crer sem evidência como virtude é problema de difícil contorno; diversas vezes os textos impõem este desafio. “Bem-aventurados os que não viram e creram.” E a recusa: “Uma geração má e adúltera pede sinal, mas nenhum sinal lhe será dado.” Crenças têm custo social; formar crença sem evidência é vício público, não virtude privada; fere autonomia, terceiriza o juízo e toma submissão por virtude. Resta poder, carisma e ameaça: sujeição e acomodação convenientes. Étienne de La Boétie diagnosticou bem em A servidão voluntária: é o próprio povo que se faz dominar; deixar de servir significaria responder pela própria liberdade.
O Sermão da Montanha (Mateus 5–7) encanta, mas não como ética universal autossustentada; lembra mais "Reino iminente" (salvação e recompensa), para comunidade ansiosa por reversão e juízo; com o que mais eles poderiam sonhar? Sem o lastro escatológico, amar inimigos, não retaliar, não acumular e não se preocupar com amanhã não é regra geral de vida; a realidade chega. Se ele radicaliza a intenção e o perdão, o faz condicionado a horizonte punitivo e excludente; não há mal no mundo que faça merecer o inferno, seres fracos e ridículos como nós. É ética sob ameaça que modernizaram, mas está lá, simultaneamente sublime e doentia. A figura de Jesus que emerge dos evangelhos faz parte da genealogia, não é ápice do humanismo limpinho moderno. A beleza do texto é ter, muitas vezes, atualidade, quebrar a escalada de violência e expor a injustiça; como trata o amor não é sempre ressentimento fantasiado, o que não impede o uso para domesticar, culpabilizar e manter hierarquias; pessoas "boas" como obedientes.
Ainda no sermão da montanha, a ideia de que desejo sexual já é adultério (Mt 5:27–28), sempre considerei particularmente profunda. "Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela." Jesus não inventa o conceito de que o adultério começa no pensamento; já havia o diagnóstico da visão como a porta de entrada para a ação. Jesus expande o que já estava no decálogo, unindo "não adulterarás" a "não cobiçarás" e deslocando o critério moral do ato verificável para a intencionalidade que já reconfigura a pessoa; não é o simples ver, nem impulso que aparece sem convite; é o olhar assumido como projeto, olhar como instrumento para cultivar a cobiça. A traição não começa no corpo, começa quando o outro deixa de ser sujeito e vira objeto apropriável dentro da imaginação; a posse ensaiada; quem você se torna pela disciplina ou indisciplina do desejo.
Kieślowski traduz isso, sem o moralismo que apequenou muitos dos seus outros filmes, no episódio VI do Decálogo. Tomek e Magda não têm relacionamento, não são casados; "adultério" é sobre a adulteração do vínculo. No início do filme, o olhar do Tomek virou projeto, rotina, método, acesso sem reciprocidade, invasão; este é o adultério do Tomek. Magda responde brutal, nas palavras que trituram o afeto e o reduzem a reflexo, amor apenas como circuito de excitação; ela não revela a verdade, impõe com cinismo e indiferença o próprio niilismo como imunização; este é o adultério de Magda, "um ato que empana a graça e o rubor da modéstia; chama a virtude de hipócrita; arrebata da bela fronte um amor inocente, lá deixando uma chaga infame". Quando encontra um desejo que começa a virar cuidado, Magda o interpreta como fraude.
Tomek não mente quando confrontado, não se esconde, ele participa, se expõe passivamente, sente dor, vergonha. Talvez tenhamos desaprendido a reconhecer sentimento sem cinismo; me distancio assim do reducionismo brilhante-e-vazio do Žižek, Tomek como stalker-predador; psicanálise é a superestrutura interpretada e colada com talento retórico, projeção e malícia, para quem não é a pessoa, mas a imagem, o que move o Tomek. Depois de chamá-la para ir tomar sorvete e de conversarem, começa a existir, para Tomek, espaço para o cuidado, hesitação ao agir; esta é a transformação do Tomek, interrompida quando Magda é brutal; segue tentativa de suicídio do Tomek e Magda recapitulando os gestos, as pequenas ações do Tomek; conhece onde ele mora, liga os fatos da vida dele, a orfandade, a dor, a tristeza, a solidão e se conecta; esta é a transformação da Magda.
Interpretar com o Metzinger, outra superestrutura, quiçá uma evolução das que já sustentaram o ocidente (um dia refinada?), desloca a moral do teatro público, o que eu fiz, para a engenharia de processos interna, o que eu rodo; se o eu é um modelo transparente usado para navegar o mundo social, imaginar não é neutro, é treino; e treino talvez não seja sentença. Tomek começa pelo olhar voyeurístico que reduz Magda a imagem; mas, aos poucos, a percepção é moldada por detalhes reais, horários, solidão, fragilidade, dor. É quando ele começa a enxergá-la como pessoa que a simulação fechada perde força; outra, mais permeável ao real, aparece. Magda carrega outro modelo de processos rodando por dentro; aprendeu a ler vínculo como transação e afeto como isca.
O filme fecha a tese que o Sermão só sugere: o dano não é desejar; é quando o desejo vira modo de relação e o outro vira função. A reparação não nasce de culpa, nasce de realidade, limite e exposição; a mesma simulação que objetificou pode transformar/amadurecer; a repetição pode viciar/empobrecer, mas podemos refinar a empatia quando o roteiro deixa de ser fechado. E é aqui que o determinismo não autoriza simplificação: mesmo que tudo seja causal, genética, história, ambiente, sorte, não temos as variáveis nem seus pesos, então prudência é não transformar isso em destino uma vez que não somos o demônio do Laplace; o que dá para dizer é que o que você repete por dentro tende a virar padrão, na violência, no cinismo; mas às vezes o real quebra o circuito e reorienta o modelo. A simulação pode ser aprendizagem. Extrapolo dizendo que a simulação interna não é ensaio neutro, é a arquitetura que molda o sujeito/personagem: que o homem não comete o ato porque deseja, mas torna-se o ato ao cultivar o projeto da posse no teatro (transparente) da imaginação.
Exemplo de superestrutura que não melhora o que o texto já dizia é o filho pródigo, hoje parábola dos dois filhos. Não na leitura atual da crítica, mas na leitura espiritualizante da genealogia interpretativa, que tenta aprofundar dizendo que o filho mais novo não pede apenas a herança (dinheiro), mas sua parte da ousia, da substância do pai, quase uma parcela da natureza recebida (em registros muito diferentes, de Jean-Luc Marion a Huberto Rohden); leitura sedutora, que parece elevar o texto acima da economia doméstica e convertê-lo em drama ontológico: filho querendo separar-se da fonte de sua própria vida. Equívoco, porque a ideia de Jesus não é conciliar nem embelezar; é chocar. O escândalo está no dinheiro, na herança, na partilha antecipada, no pai tratado como morto antes de morrer. É aí que aparecem a contradição, a dor, o conflito, a basófia, a disputa. A leitura espiritualizante não aprofunda, mas neutraliza a dimensão antiacumulativa, antimeritocrática e antirretaliatória de Jesus. Relendo, vemos que a parábola não termina no filho pródigo retornando, o que faria a pergunta final ser “Perdoar o pecador?”; já respondido em outras parábolas. O pródigo é o gatilho narrativo; o irmão mais velho é o destinatário da parábola e o drama é outro: mérito, ressentimento, contabilidade moral, direito adquirido, obediência como crédito acumulado. O justo suporta a graça dada ao injusto? A profundidade está em a parábola nos deixar sem prescrição nem fechamento. Se o filho mais velho ama ao pai, não poderia ficar feliz por ele? Precisaria realmente do gozo da punição?
As cartas autênticas de Paulo, de qualidade literária e retórica indiscutível, constituem, com a tradição paulina, a primeira superestrutura textual preservada do movimento em torno de Jesus. Nelas, Jesus passa de pregador apocalíptico do Reino a Cristo crucificado e ressuscitado; os evangelhos nascem depois dessa interpretação, não antes dela². Elas são escritas no calor das disputas sobre o significado da morte dele. Paulo não acompanha Jesus histórico e trabalha sobretudo com o Cristo proclamado, fazendo da cruz e ressurreição o centro interpretativo, a cola comunitária. As cartas extrapolam o que Jesus teria dito. A tensão fica nítida porque o eixo passa a ser uma identidade translocal que precisa sobreviver ao atraso da expectativa apocalíptica (divertidamente atual) e gerir conflito interno, produzindo tanto potência intelectual quanto coesão dentro da instituição que se formava. Elas são a mutação decisiva do cristianismo de anúncio para arquitetura doutrinária e disciplinar, com o centro deslocado do ensino e do Reino para uma economia de cruz e ressurreição, culpa e reconciliação, pertencimento e obediência. Nietzsche critica impiedosamente Paulo em O Anticristo como um tipo oposto ao de Jesus. “E o que esse (dis)angelista não sacrificou em nome do ódio? Acima de tudo, o próprio Salvador; pregou-o à sua cruz”. O tipo do Salvador não criaria o cristianismo histórico; era necessário o tipo de Paulo, misógino, obsessivo autoritário, convicto da própria iluminação e impermeável à dúvida. Autoridade que nasce da missão, não do argumento; é o carisma do chamado; crê e convence a si mesmo e aos outros de que detém informação privilegiada sobre culpa, salvação, pureza, pertencimento e ameaça. É obcecado pela ideia que explica tudo e não tolera pluralidade; psicologia da convicção totalizante; mundo dividido entre carne e espírito, dentro e fora, nós e eles, velho homem e novo homem, obediência e desvio. Como fala em nome da verdade última, a divergência é erro a corrigir, ameaça a conter; corpo a disciplinar; o outro a converter. Quem ele representa, com quem ele dialoga hoje? Não é apenas com o fenômeno religioso; dialoga com todo aquele que tem a resposta final, simplificadora, anti-intelectual, polarizadora, avessa à pluralidade; máquina que fabrica inimigo e entrega pertencimento; transforma dúvida em fraqueza e dissenso em traição. A estrutura mental que Paulo tornou disponível no Ocidente foi a convicção totalizante, inteligência voltada contra a própria liberdade de pensar. É a certeza que o impede de fazer o que Sidarta fez, abdicar dos meios até mesmo para fazer o bem; não impor nada a ninguém. É o evangélico que prega, é o ateu que insiste, é a visão lazarenta da vida e da verdade, o insuportável da certeza absoluta forçando o mundo pela e para a própria vontade-verdade. Não é sobre convencer; é sobre impor, colonizar, dominar. É sobre poder; nunca foi sobre a verdade.
Uma perspectiva cética
Coleção de textos, não "um livro", muito menos "o livro"; mistura de gêneros, qualidade irregular, edição por séculos, colagens, autores sobrepostos, redação tardia dos relatos, contradições internas, erros factuais previsíveis. Obra seminal da Antiguidade, ao lado da literatura e filosofia greco-romanas, dos Vedas, Upanishads, Mahabharata, de Gilgamesh e dos Sutras; nada justifica o status de "a verdade" além da autoproclamação. A Bíblia é o maior acontecimento histórico-cultural do Ocidente, mas boa parte dos textos é pobre e repetitiva; histórias que canonizam o pior de nós, reality shows miseravelmente autênticos, arquivo de traumas e estratégias de poder, interpretação comunitária desesperada. Tirar esses textos do anacronismo é exercício fracassado: o que dizem foi reformulado, expandido ou teve seus limites expostos. Nunca teve estofo para sustentar o Ocidente; ainda menos agora.
Milagre e intervenção divina são teses que, se plausíveis como descrição do mundo, deixariam rastro nos dados; não deixam. Testada em ensaios clínicos de oração intercessória, a hipótese não encontra evidência nem efeito replicável³. Hume descreve por que, na Investigação sobre o Entendimento Humano, milagre não é apenas raro: é ruptura do curso regular da natureza⁴. O cristianismo inteiro se sustenta na ressurreição, o milagre máximo, justamente aquilo que exigiria a melhor evidência, mas chega a nós por relatos contraditórios dos próprios evangelhos, base textual da fé, num contexto de comunidade traumatizada, expectativa apocalíptica frustrada, experiências visionárias, tradição oral e redações já teológicas. Bart Ehrman diagnostica a falha: não é preciso aceitar uma hipótese alternativa como historicamente provável; basta notar que uma explicação humana improvável ainda é mais provável do que a suspensão do curso regular da natureza⁷. Encontrar Nazaré não comprova concepção virginal; encontrar Betânia não ressuscita Lázaro; encontrar uma tumba, ainda que a verdadeira, não ressuscita Jesus. O milagre costuma prosperar onde o ceticismo tem custo social; medo, esperança, prestígio e pertencimento criam incentivo para mentir pelo bem. Aparições marianas exemplificam essa fabulação em Lourdes, “confirmando” dogma proclamado anos antes, e em Fátima, falando de temas geopolíticos décadas após o evento. Ambiguidade inicial, grupo pressionado por guerra ou miséria, autoridade local, ar de mistério, imprensa, relato refinado a cada repetição e ecossistema que recompensa quem confirma e pune quem duvida. Testemunho? Insuficiente diante de explicações melhores: Navalha de Ockham. Não é o milagre que se prova; é a comunidade que se autoprotege; é a instituição que colhe benefícios. A verve faz o resto.
Não há percentual acadêmico realista sobre quanto do Jesus dos evangelhos remonta ao Jesus histórico; mas é cada vez menos defensável sustentar que a maior parte remonta. O Jesus Seminar, iniciado em 1985 por Robert W. Funk no Westar Institute, reduziu o Jesus dos evangelhos a 18% de falas e 16% de feitos considerados autênticos ou prováveis⁹; hoje a pesquisa é mais incômoda porque há pouco Jesus falando, mas sobram comunidades atribuindo falas convenientes a ele; no Antigo Testamento, nem há percentual. Crítica das fontes, crítica textual, arqueologia, Manuscritos do Mar Morto, Septuaginta, texto massorético e história do cânon não entregam revelação; entregam arquivo humano com versões, redações, acréscimos, supressões, disputas, escolhas posteriores; povo pequeno narrando eleição, derrota convertida em destino, Deus feito literatura; nossa Bíblia; texto, demasiado humano.
Por que estes textos em particular ganharam projeção e são aceitos por tanta gente como de origem divina? Passaram-se séculos; sei que os próprios valores que uso para julgar a Bíblia (autonomia individual, igualdade, crítica à escravidão/misoginia) são, genealogicamente, mutações secularizadas do próprio cristianismo ocidental. Contra o senso comum, a alegação de textos singularmente lúcidos e profundos não se sustenta; nas artes e na filosofia, temos criações mais ricas, profundas e vivas, mais capazes de nos enriquecer, expandir e até mesmo sustentar a experiência, produzir sentido ou consolar; mas exigem mais de nós. Quando se trata da finitude, do vazio, do medo, da carência, algumas vezes somos mais pobres e pretensiosos do que parece. Cânone não é sobre o melhor texto ou o mais profundo, é sobre o que melhor serve à tribo. A religião não é nada modesta: relação particular com o criador do universo. E os textos não se sustentam como profundos, atemporais ou universais: envelhecem, dependem de contexto, perdem poder explicativo e acabam salvos por releituras e metáforas; insuficientes para a própria ambição. Quando a leitura correta muda exatamente nos pontos em que a pressão externa muda (ciência, costumes, direitos), o texto não guia; ele é guiado, sua verdade é construída.
A teologia frequentemente não aprofunda no texto; acopla categorias filosóficas externas (Platão, Aristóteles, estoicismo, neoplatonismo, “espírito do tempo”). Não que a Bíblia seja ‘pura’; nasce híbrida e sincrética. O problema é a mistura interpretada como prova de profundidade e o enxerto apresentado como sentido necessário do texto (tentativa de blindar contra crítica). É profundo ou atual, talvez porque a filosofia é profunda ou porque o texto foi reeditado e reinterpretado. Claro que teologia também é tentativa de coerência; mas tende a extrair consequências com pretensão de universalidade e perfeição a partir de um conjunto finito e historicamente situado de textos, mesmo quando o resultado é eloquente e brilhante, como muitos textos não sagrados também o são. Quando João abre com “No princípio era o Logos”, o texto já nasce teológico: preexistência, mediação cósmica, encarnação. O problema não é que a metafísica esteja ausente; é que a tradição posterior a sistematiza como ontologia completa de Deus, Cristo e mundo. Diante de “isto é meu corpo”, a teologia medieval não se contenta com leituras diretas possíveis como memorial, símbolo ou presença espiritual e recorre ao esquema aristotélico de substância e acidentes para dizer que substância muda enquanto acidentes ficam, criando explicação ontológica técnica que dá ar de profundidade e precisão ao rito; não vem do texto.
A pergunta relevante não é "por que é verdadeiro?", mas "por que se replica e se torna obrigatório?". Crenças viralizam acopladas a instituições que barateiam a adesão (rotina/rito) e encarecem a dissidência (culpa, exclusão, punição). Talvez então possamos dizer que não foi profundidade nem magnetismo místico, mas logística de poder e eficiência institucional (eficiência de rede, primeiro comunitária, depois imperial), porque virou norma muito antes de virar leitura. O início foi o texto funcionando como crachá de pertencimento e régua de ortodoxia, repetido até que hábito se travestiu de evidência. Mas foi quando o Estado e a Igreja se acoplaram, virando infraestrutura e ordem pública, que se passou a decidir o que era heresia e crime, família e autoridade, cortando o que não convém (ou interpretando como convém) com rede, hierarquia, escola e liturgia padronizadas e escaláveis; a imprensa, posteriormente, só acelerou.
A resposta moderna é a de que a Bíblia não precisa ser verdadeira no sentido forte, porque seu sentido surge entre texto e leitor; a narrativa pouco importa, o que vale é o chamado ético que atravessa as épocas. Só que isso não resolve; desloca a autoridade do texto para o intérprete e para a instituição que valida o intérprete; repete em versão acadêmica o mesmo mecanismo que produziu o cânone, que produziu dogma, só atualiza o passado com valores do presente (a superestrutura), sem admitir que isso a transforma em espelho onde cada época lê o que quer encontrar. É necessário encarar a limitação brutal dos textos diante do que somos e do que vem aí; o que é dito e feito em seu nome.
Existe um tipo que a história produz raramente e que particularmente me assusta. Começa na margem, em alguma forma de humilhação, exclusão, vergonha ou ressentimento que não encontra elaboração interior e por isso precisa reorganizar o mundo. A ferida vira dogma; a vergonha exige revanche, método e doutrina; a dor exige escala para justificar a própria existência. Paulo de Tarso é um dos primeiros grandes arquitetos dessa gramática no Ocidente: certeza absoluta, visão messiânica, missão, inimigo, pertencimento, obediência; corpo como perigo, carne como guerra, desejo como queda, relações entre homens condenadas com intensidade demais. Pode parecer, mas não é contradição que entusiasmo e ódio convivam na mesma pessoa; é o mecanismo. O cristianismo que venceu foi a mutação paulina e preservou essa arquitetura durante dois milênios, tornando disponível uma linguagem que movimentos autoritários reaproveitam continuamente: verdade, queda, culpa, pureza, conversão, disciplina, eleitos, condenados, redenção. Troque salvação por nação, pecado por degeneração, heresia por traição, Reino por destino histórico; a máquina permaneceu; o fascismo deve mais ao cristianismo do que se supõe.
Paulo construiu uma estrutura capaz de organizar culpa, pertencimento e obediência em escala; durante séculos, funcionou. Hoje entramos na era da condescendência; quase todos se absolvem; alguns se imaginam escolhidos e necessários; precisam só de capital e poder. Peter Thiel representa uma mutação tecnológica do tipo Paulo; menos interessado em seguidores do que em infraestrutura, menos interessado em conversão do que em posicionamento estratégico, menos preocupado em convencer do que em reorganizar as condições sob as quais os outros pensarão; com uma malignidade que lembra Roy Cohn e Iago. O núcleo, porém, permanece o mesmo: inteligência elevada acoplada a uma humilhação não elaborada, ressentimento convertido em doutrina, causa suficientemente vasta para transformar uma ferida privada em destino coletivo. O que há mais a fundo nesta engrenagem do controle que nasce cindida? Um acerto de contas, talvez; lendo as cartas de Paulo, há mais em comum com Thiel e Cohn; em texto truncado por aspas e reticências, espinhos e autoflagelo, a história das ideias centrais do cristianismo é interrompida para falar da falta que faz Tito para Paulo. Paulo, Thiel e Cohn têm este senso de serem os escolhidos pela certeza de que estão certos; respondem ao chamado com duas convicções: são boas pessoas e vão para o céu... Mais do que "o problema do mundo é que os idiotas vivem cheios de certeza e as pessoas inteligentes têm dúvida"; os malditos, os ressentidos têm certeza do céu; pessoas boas nunca se sentem suficientes. O evangelho morreu na cruz; o que Paulo construiu em cima é outra coisa; o que veio depois é outra coisa ainda; ninguém segue a narrativa que chegou sobre o Galileu; se é que alguém alguma vez a seguiu. O resultado é disputa por terras, partidos, exércitos, mercados, plataformas, meios de comunicação, think tanks, finanças, tecnologia; não seguem Jesus, administram sua imagem para que ninguém precise segui-lo. Enquanto celebrávamos as conquistas do século XX, reorganizavam silenciosamente as condições do século XXI. Convenceram-nos de que consumir era liberdade, acumular era realização; identidade podia ser comprada e felicidade medida em status; perdemos o controle das instituições, degradamos a terra para o enriquecimento de canalhas e chamamos de progresso a perda da saúde, da beleza e da liberdade. Incapazes de distinguir meios de fins; fomos cooptados.
Nem tudo que persiste é verdade; nem o eu
A história marginalizou Lucrécio e outros livres-pensadores não por obsolescência intelectual, mas por incompatibilidade sistêmica. Em História do Ateísmo, Georges Minois mostra que o apagamento de diversas obras (incluindo Sobre a Natureza das Coisas) resulta de um filtro secular: o que não servia à teleologia cristã deixava de ser copiado. Para uma máquina que governa pelo medo do juízo e pela promessa de providência, o universo de Lucrécio, regido pelo clinamen (acaso), sem deuses punitivos e com uma alma mortal, era tóxico. A história das ideias no Ocidente passou, muitas vezes, por curadoria eclesiástica. A Bíblia não superou Lucrécio com argumentos, mas na logística de replicação. O ateísmo foi relegado à clandestinidade ou ao silêncio dos pergaminhos não reproduzidos, enquanto o texto bíblico se tornava infraestrutura institucional. A religião não é apenas "cola social"; é o sistema que decide o que merece ser lembrado. O sucesso desses textos é menos prova de superioridade revelada do que resultado de funil ontológico.
Compreendo o fiel simples, a avó que reza, o padre de bairro. Estranho o intelectual religioso, o poliglota, teólogo de primeira linha, que se defende com a superioridade ontológica da tradição. O Logos como estrutura racional do universo garante que a fé não é irracional? Que Logos? Nunca me apresentaram; nunca precisei ler texto como se ele devesse ser verdadeiro. A ideia de Logos divino parte da premissa de lei ou mente ordenadora. A ciência, por exemplo, encontra padrões; padrões não são necessariamente leis em sentido forte, são regularidades; regularidade não implica razão ordenadora; razão ordenadora não implica Deus; Deus não implica Cristo (curiosamente egóico); Cristo não implica Igreja que não implica Bíblia como texto divino. Em nenhum passo a ponte foi construída; são saltos sem justificativa. Se alguém lê o mesmo texto que eu li, conhece crítica histórica, filosofia, filologia, ciência moderna, sabe da precariedade das fontes, da violência, das camadas, dos enxertos, e ainda preserva a fé, a pergunta a ser feita não é mais sobre a Bíblia; é sobre quem vê a contradição, a contorna e continua existindo nela. “Crer para entender” não é método; é pressuposto. A fé não chega depois da evidência; não é conclusão; vem antes, como mundo. Carlo Maria Martini é um caso incômodo porque a fissura aparecia; dizia que a Igreja estava duzentos anos atrasada, mas permaneceu nela. Quando li com meu pai Em que creem os que não creem, o diálogo entre Martini e Umberto Eco, uma frase me arrebatou: é o outro, é seu olhar, que nos define e nos forma.
Francis Collins liderou o projeto de mapeamento do genoma humano; conhece a ausência de teleologia no código genético; sabe que a ideia de ancestral único da humanidade é biologicamente problemática, que a evolução é cega e que o sofrimento é anterior ao homem; e fundou a BioLogos Foundation para compatibilizar fé cristã e evolução. Evolução é teoria como a gravidade, sempre refinada, não palpite; nosso corpo confirma, com cóccix, coluna sobrecarregada, parto apertado que precisa de ajuda, dente de siso sem encaixe; diversas sobras e remendos, não é "o Projeto". A fé migra para o porquê quando o como deixa de precisar de intenção; perdeu o centro do cosmos, o desenho das espécies, a doença; agora, vai perdendo a origem da vida. Este Deus das lacunas perde espaço; ignorância provisória não converte ausência de evidência em compatibilidade. A origem da vida é uma dessas lacunas: como química sem vida chegou à cópia, erro, hereditariedade e seleção? Em 2026, a QT45, uma ribozima de RNA com apenas 45 nucleotídeos, não resolve a origem da vida; dá uma pista material sobre como química sem vida pode começar, ainda aos pedaços, a copiar informação⁸. Não é vida, nem quase vida; é química pequena, imperfeita, testável.
Havendo ou não Big Bang, singularidade, multiverso ou qualquer outra teoria ou explicação física ainda fora do alcance, nada entrega intenção. A pergunta “por que existe algo em vez de nada?” não me parece bem formulada; parece problema de uso da gramática. Falamos do que ocorreu; não falamos de motivo. Começo, se houver!, não é explicação; é o nosso limite. O que se pode dizer com seriedade é: eu não sei. Encolher os ombros é mais honesto do que ajoelhar. Kalam é a recusa do desconhecimento escrita em forma de silogismo: tudo que começa a existir tem causa; o universo começou a existir; logo, o universo tem causa. Que algo comece dentro do mundo não implica que o mundo (enquanto totalidade) comece do mesmo modo; começo não implica começo absoluto; começo absoluto não implica causa no sentido comum que pula pra causa transcendente sem pudores; causa transcendente não implica mente; mente não implica pessoa que já estamos cansados de saber não implica vontade livre; vontade livre fora do tempo não implica decisão inteligível; decisão inteligível está longe de implicar Deus. Kalam não constrói essas pontes; projeta categorias humanas para fora do domínio em que elas fazem sentido. Hume já desmontou esta transposição: não vemos a causa como vínculo necessário, vemos regularidades e projetamos necessidade sobre o hábito. Craig usa a cosmologia para obter começo; recua para a metafísica para fazer esse começo virar criação. Causa explica acontecimentos no mundo; não autoriza tratar o mundo inteiro como acontecimento nem transformar necessidade da razão em estrutura do real. A gramática entrega o truque: “começo”, “causa”, “vontade”, “decisão” e “pessoa” parecem palavras claras porque nasceram no mundo; fora do tempo, da mudança e da experiência, viram metafísica dogmática: gramática humana tomando a si mesma por estrutura do real. Craig tenta salvar o salto chamando a causa de pessoal, mas pessoa fora do tempo é truque verbal. Para salvar o Deus cristão, precisa manter inteligência, vontade, intenção e revelação; mas essas palavras nascem no tempo. Vontade é termo humano, resposta a necessidade física, biológica; não nasce conceito, nasce corpo que sente falta e se move para saciar; não é fora da matéria, do tempo; sem corpo é também sem necessidade. Decisão sem antes e depois não decide; pessoa sem mudança, sem relação, sem diferença interna é só palavra que a teologia protege porque precisa dela; tenta-se compatibilizar o incompatível, vontade sem corpo, decisão sem tempo, pessoa sem mudança. Não sabemos o que é a origem e talvez nunca saibamos.
Metzinger ajuda porque tira o eu do trono sem fingir que nada acontece. O sujeito não é alma, substância, comandante interno, impulso fora da causalidade; é um self-model transparente, um modelo de mundo no qual o organismo também aparece como alguém. Transparente porque não vemos o modelo como modelo: vemos através dele e chamamos isso de realidade; vemos a nós mesmos dentro dele e chamamos isso de eu. A consciência, então, não parece interruptor, mas gradiente: sensação, dor, atenção, memória, vínculo, antecipação, linguagem, autocontrole, narrativa de si, metacognição. Animais têm consciência; nós temos consciência; não a mesma, não no mesmo grau, não com a mesma arquitetura. A diferença é real; o abismo metafísico é vaidade. Jane Goodall não tornou os chimpanzés humanos, fez pior: mostrou que parte do que chamávamos de exclusivamente humano já estava ali, em formas menos abstratas, menos linguísticas, mas suficientemente próximas para ferir nossa fantasia de exceção. A autoconsciência reflexiva também varia dentro da própria espécie: há mais e menos linguagem, mais e menos abstração, mais e menos capacidade de narrar a si mesmo no tempo. Não há humilhação nisso. Há precisão. O erro começa quando se transforma gradação cognitiva em hierarquia de valor.
Falta algo; é certo. Humildade para amar a verdade mais do que a si mesmo; não somos naturalmente assim. O mistério existe, mas não pertence à religião; não é resolvido por ela. O silêncio do mundo não prova Deus; quando muito, nossa insuficiência. Para a teologia, revelação. Não é humildade ignorar nosso lugar: “É aqui. É o nosso lar. Somos nós. (...) cada rei e plebeu, cada político corrupto, cada ‘líder supremo’, cada santo e cada pecador (...) viveu ali — nesse grão de poeira suspenso num raio de sol.”⁶ Cada viés de confirmação, cada heurística preguiçosa, cada simulação transparente do self-model é indício de que somos robôs biológicos inclinados a buscar consolo; não a verdade. E o cético? Não é mais inteligente; não nega a máquina, estuda-a com menos receio; é mais exposto. Não é imune; aprende a desconfiar de si; é humano: busca abrigo, narrativa, confirmação mas terceiriza a culpa com menos facilidade. Viver é confrontar as próprias crenças sem ceder às próprias necessidades. Mudar de opinião diante da evidência não é fraqueza; é a única forma de permanecer coerente. Não há olhar que salva nem redenção programada; não há resposta última. A religião não tolera a única humildade real: não sermos especiais; sermos risíveis. O cético aceita a insignificância como perda de álibi: se nada nos observa, nada nos absolve. O vazio não dói. Dói viver a mentira de que estamos preenchidos.
Aleatoriedade não gera livre agência, só acaso; mesmo incognoscível, emaranhado, complexo, o mundo produz encontros. Noite insone, filha recém-nascida, TV nova, canal da BBC, "A Rough History of Disbelief", Pascal Boyer traz o que Joseph Campbell jamais ofereceu; rigor acadêmico, sem baboseira, sem monomito, sem leitura junguiana. É dele uma explicação do mecanismo por trás da persistência religiosa; extrapolo para os textos da Bíblia. Para Boyer, religião é subproduto da arquitetura cognitiva; não é adaptação biológica; é parasitária e se aloja em sistemas inferenciais já existentes. É possível intuir olhando para si: detecção de agentes, psicologia de coalizão, ontologia intuitiva. A Bíblia sobrevive porque seus conceitos são minimamente contraintuitivos (isso é contraintuitivo); agentes que preservam as características de uma “pessoa” (desejos, crenças, intenções), mas violam uma expectativa intuitiva por vez, como imortalidade ou invisibilidade, persistem melhor na memória humana. O ciúme de Deus é o melhor exemplo; paixão humana, reconhecível, quase mesquinha, atribuída a um agente que não morre, não tem corpo comum e sabe o que se faz escondido; a mente aceita porque conhece o ciúme; lembra porque o ciumento é impossível. A ciência, por outro lado, exige esforço para manter vivas ideias que não se sustentam intuitivamente; o pensamento religioso flui porque ativa um sistema de acesso à informação estratégica: deuses como agentes que “sabem” o que é socialmente relevante; moralidade e precaução vêm junto. Quando ouvimos um barulho à noite, quase ninguém começa por cálculo físico; a primeira hipótese é um agente; mecanismo útil à sobrevivência. É aqui que a religião se aloja: se o mundo faz barulho, pune, recompensa e ameaça, talvez haja Alguém por trás. Enquanto a ciência demanda esforço para desfazer o óbvio, a religião se expande naturalmente, não porque seja profunda, mas porque é barata e encaixa no nosso hardware de agência e culpa.
Não escolhemos os encontros; eles nos escolhem. O que chamamos de "abertura" ou "ceticismo" não é conquista moral, nem triunfo da razão sobre a fé. É o simples produto de uma história física: um livro na hora certa, uma célula que se dividiu, um ruído que fez diferença. O mérito é zero; a contingência é tudo. Somos o que o acaso do mundo e o fisicalismo da matéria fizeram de nós. A permeabilidade não é virtude; é um estado do modelo. E o modelo, ao acaso sob certas condições, encontra-se vulnerável ao real.
Lembro de um evento de luto logo após 9/11; a miséria e a fraqueza da maior potência militar pediam o Deus todo-poderoso; atribuíam a Deus o poder de que precisavam; o paradoxo do mundo virava informação processável; não as ciências, a razão ou a coragem; menos ainda a humildade e candura cristãs que não resistem à história; nos unimos muito mais para destruir do que para construir, porque a unidade da comunidade é apenas a outra face da sua violência unânime, como diria René Girard; o tribalismo não vem de outro lugar. A psicologia evolutiva mostra que a cooperação intra-grupo é frequentemente potencializada pela hostilidade extra-grupo e que o "efeito inimigo comum" é uma das formas mais brutais de coesão social, sobretudo quando a vida traz ameaça, escassez e insegurança. No fim, a religião parece uma tecnologia social de sobrevivência e se fortalece quando a vida piora; não enfrenta o escândalo da injustiça; atenua o sofrimento com promessas extraordinárias, improváveis, débeis.
“Deus não resiste nem à curiosidade nem à investigação: seu mistério, seu infinito, se degrada; seu brilho se obscurece; seus prestígios diminuem.” O sobrenatural não foi derrotado de uma vez; recuou uma área após a outra; a Terra deixou de ser o centro do drama do universo; o Gênesis deixou de ser história natural; as espécies deixaram de ser fixas; a doença deixou de ser castigo, impureza ou demônio; a alma deixou de ser explicação para memória, desejo, culpa e vontade; os textos deixaram de ser palavra direta, homogênea e divina. Restou-lhe o que resiste por indeterminação: sentido, consolo, metáfora, identidade (até quando?), medo; mas função não é verdade. “Esgotados seus atributos, ninguém terá mais energia para forjar-lhe outros novos; e a criatura que os assumiu e depois os rejeitou, irá reunir-se no nada com sua invenção, seu criador.”
Sem concessões
Responsabilizar a espécie, não Deus, inócuo espelho rachado; nem mesmo os textos antigos que falam dele como cruel colecionador de prepúcios e apenas registraram nossa miséria com pretensão cósmica. Deus e a religião são desculpas surradas que é preciso jogar fora. Acuso o animal que inventa absolvições para continuar predando: homens excitados pela infância, violentos protegidos pelo lar, fiéis nem mesmo a si mesmos, mas obedientes demais para pensar, padres e pastores blindados pela confiança, policiais-milicos-soldados dissolvidos na farda, juízes que chamam rito de justiça, empresas que vendem veneno como eficiência, povos inteiros convertidos em degrau para império, lucro, pureza, pátria, preconceito ou salvação. A história não é tribunal moral; é documento da barbárie. Deus é pequeno demais para tanto horror; nós fracassamos. Eu acuso a espécie; também passará.
As convicções são inimigas da verdade mais perigosas do que as mentiras⁵. A ausência de justiça cósmica não nos dispensa de nada; aumenta nossa responsabilidade. Mesmo sem meritocracia em nenhuma dimensão, a injustiça do mundo continua sendo razão decente para agir. O absurdo da ausência de sentido não se resolve, se supera; no meu caso, habitando o mundo das filhas. Mas pensando melhor não superei o absurdo, fui superado por duas pessoas que não pediram para existir.
Não faz nenhum sentido Jesus ser Deus encarnado; mas minha tia Paquita existiu, pobre, sem teatro, sem inveja, dando o que lhe faltava e protegendo a vergonha dos outros; isso me impede de aceitar minha pior versão como inevitável: talvez o evangelho tenha sido possibilidade antes de morrer na cruz e virar superestrutura. Die Liebe höret nimmer auf (“o amor nunca cessa”).
Recuso o ateísmo que não ama a dúvida e o assombro; recuso a fé de quem se ajoelha na certeza e no dogma. Fico com o maravilhamento sem destinatário, a Alice rindo, a Iris dançando e cantando, o sublime da música. Memórias. Tudo é memória; somos continuidade de memória, não substância; fábrica de continuidade que chamamos de eu. Sinto uma lufada; assombro. Tudo é tão inacreditável quando se olha direito: pontes sobre abismos, estações no espaço, meios de transporte autônomos, aceleradores de partículas, foguetes, sondas fora do Sistema Solar, IA, cirurgias impossíveis, doenças vencidas ou adiadas. "Que obra-prima é o homem! Quão nobre na razão, quão infinito nas faculdades; na forma e no movimento, quão expressivo e admirável; na ação, quão semelhante a um anjo; no entendimento, quão semelhante a um deus; a beleza do mundo, o modelo dos animais."
Não preciso fazer concessão nenhuma. Deus existe; maravilhamento sem intenção, sem vontade. Mas, se Deus é só maravilhamento, ordem ou excesso do real, então já não é o Deus das religiões; é outro nome para o mundo. Alberto Caeiro sabia. O ônus da prova permanece com quem afirma. Na genealogia dos fatos, ninguém nasce crendo; alguém diz: existe Deus.
E o meu pai?
Meu pai, no fim da vida, sofreu metamorfose nítida até para quem tinha pouco convívio: mais suave, leve, quase adocicado; parou de se preocupar, pechinchar, reclamar: lia a Bíblia; sentiu o corpo começar a falhar e deu mais peso à religião. Isso não prova nada sobre Deus; fala sobre nós. Aposentado, perdeu convívio social; vieram mortes em sequência, amigo de longa data, suicídios na família (irmão e depois sobrinha), e a perda do Nivaldo, chefe e próximo; veio também a sensação de mundo piorando, com o Trump subindo pela primeira vez e Bolsonaro aqui. Para quem se animou no primeiro Lula, foi baque. Passou a ir quase diariamente à missa na capela das freiras, como quem recompõe rotina, voz humana e um lugar onde a vida ainda responde.
Interpretei não como santidade, mas como adaptação. Sem poesia, cultura e religião são como arranjos para domesticar o terror de saber que vamos morrer; e há o lado social, mais feio e mais honesto, ninguém gosta de velho, quase ninguém gosta de quem não pode te beneficiar em algo. Religião é cola, pertença, consolo coletivo, uma máquina de transformar dor em narrativa e solidão em comunidade; no sofrimento ela ressurge porque é funcional, promete ordem quando a realidade vira entropia e promete companhia quando o indivíduo vira resto, e ainda serve como anestésico político, não por explicar o mundo, mas por tornar suportável a sensação de que ele está indo na direção errada. Por isso ela some mais fácil na estabilidade do que na crise; não é na dor que a razão vence, é na dor que ela some: a Bíblia pode ser desmontada como artefato histórico, político e cognitivo e ainda assim continuar sendo buscada, talvez mais, quando o corpo e o mundo lembram, sem delicadeza, o que somos. Sua suavidade final não era santidade, era o desapego de quem percebeu o que eu vivo me esquecendo, que a precisão do mundo importa menos do que o seu acolhimento; ele não estava sendo enganado pelo texto, estava sendo embalado por ele enquanto a realidade perdia o fôlego. "O que eu sei?" "Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo". Mesmo hevel, funcionava.
Mas a vida não tem sempre razão; não nascemos para dar conta do mundo. Somos o animal doente, primatas de pouca lucidez cuja miséria não é moral, é cognitiva e necessita da nossa atenção. Por tudo, é muito mais provável que não haja justiça nem aqui nem em nenhum lugar; os mortos só mortos, a dor sem sentido e consolo construção humana.
Vivo eu, com dúvida, receio e cautela porque reconheço que sou herdeiro de textos que não escolhi, desse amontoado caótico e precário, mesmo quando produz algum bem. Às vezes o bom é ruim; às vezes o ruim é bom. Não sabemos tão diretamente o que destruímos quando achamos que estamos apenas corrigindo. Desprezo a ideia simplista de que o mundo teria sido melhor sem o cristianismo; mas respeitar religião como tabu público pode reforçar o problema do mecanismo [certeza moral sem evidência] + [disciplina de grupo] + [imunidade à crítica], já que a crença não fundamentada não é hipótese; ela é identidade. Não forneço lealdade a nenhuma ideia, porque quanto mais dogmática, mais é impermeável ao viver. A religião, quando consola, também distorce e nos afasta da vida e da verdade que estão no mundo e não na possibilidade do eterno. Não é, portanto, preguiça de viver sem manual que me faz discutir esse texto em 2025; é a tentativa de entender quem somos; vida tão míope, breve e pequena. Pensando no Cosmos pelo Eclesiastes, esse universo numa casca de nós: "uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece". "Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens".
Sou filho do meu pai e pai da Iris e da Alice.
Notas
1. Sobre o final longo de Marcos (Mc 16:9–20) como adição textual posterior, ver EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: quem mudou a Bíblia e por quê?
2. A precedência das cartas paulinas autênticas em relação aos evangelhos canônicos é amplamente aceita na historiografia do cristianismo primitivo; as datas exatas, contudo, seguem debatidas.
3. Sobre oração intercessória e ausência de evidência robusta de efeito clínico específico, ver BENSON et al. (2006), KRUCOFF et al. (2005) e ROBERTS; AHMED; DAVISON (2009).
4. David Hume, Investigações sobre o entendimento humano, seção X, “Sobre os milagres”.
5. NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, I, §483.
6. SAGAN, Carl. Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space. New York: Random House, 1994. Trecho conhecido como “Pale Blue Dot”, a partir da fotografia da Terra feita pela Voyager 1 em 1990.
7. Sobre a impossibilidade metodológica de tratar a ressurreição como conclusão histórica mais provável, ver o debate entre Bart D. Ehrman e William Lane Craig, Is There Historical Evidence for the Resurrection of Jesus?, realizado em 28 de março de 2006, no College of the Holy Cross. A transcrição registra o argumento de Ehrman segundo o qual uma hipótese humana improvável ainda pode ser historicamente mais plausível que a suspensão do curso regular da natureza.
8. Sobre a QT45, ver GIANNI et al. (2026). O artigo descreve uma ribozima polimerase de RNA com 45 nucleotídeos capaz de sintetizar sua cadeia complementar e uma cópia de si mesma em condições experimentais específicas; o achado não resolve a origem da vida, mas oferece uma pista material relevante para modelos de mundo de RNA.
9. Sobre o Jesus Seminar, ver WESTAR INSTITUTE. The Jesus Seminar. Segundo o próprio Westar, o grupo foi organizado em 1985 e concluiu que cerca de 18% dos ditos e 16% dos feitos atribuídos a Jesus nos evangelhos seriam autênticos.
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WESTAR INSTITUTE. The Jesus Seminar. Westar Institute. Disponível na página “The Jesus Seminar”, no site do Westar Institute. Acesso em: 31 maio 2026.
Artigos, estudos e debates citados
BENSON, Herbert et al. Study of the Therapeutic Effects of Intercessory Prayer (STEP) in cardiac bypass patients: a multicenter randomized trial of uncertainty and certainty of receiving intercessory prayer. American Heart Journal, v. 151, n. 4, p. 934–942, 2006.
CRAIG, William Lane; EHRMAN, Bart D. Is There Historical Evidence for the Resurrection of Jesus? Debate realizado no College of the Holy Cross, Worcester, Massachusetts, 28 mar. 2006. Transcrição publicada em Reasonable Faith.
GIANNI, Edoardo et al. A small polymerase ribozyme that can synthesize itself and its complementary strand. Science, 2026. DOI: 10.1126/science.adt2760.
KRUCOFF, M. W. et al. Music, imagery, touch, and prayer as adjuncts to interventional cardiac care: the Monitoring and Actualisation of Noetic Trainings (MANTRA) II randomised study. The Lancet, v. 366, n. 9481, p. 211–217, 2005.
ROBERTS, L.; AHMED, I.; DAVISON, A. Intercessory prayer for the alleviation of ill health. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2009, Issue 2, Art. No.: CD000368. DOI: 10.1002/14651858.CD000368.pub3.
Filmografia e materiais audiovisuais
MILLER, Jonathan. A Rough History of Disbelief. BBC Four, 2004. Série documental escrita e apresentada por Jonathan Miller.
KIEŚLOWSKI, Krzysztof. Dekalog VI. Polônia, 1988.
Estados de Esp?rito
Quem tem Deus não precisa dos outros; quem aprendeu a ver flores, não precisa inventar Deus.
Diga o que sente; não o que acha que deveria dizer.
Tento não me esquecer:
Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.
Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.
30/12/2025
A Bíblia ou o que somos nós
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25/12/2025
Uma história
Segundo os evangelhos
Maria, virgem e prometida a José, concebe pelo Espírito Santo após anúncio de um anjo. José, advertido em sonho, a acolhe. Jesus de Nazaré nasce em Belém, entre sinais e mensagens. Herodes, o Grande, rei cliente de Roma, ao ouvir que magos do Oriente vieram pelo nascimento do “rei dos judeus”, manda matar meninos de até dois anos. Novamente avisado em sonho, José foge com a família para o Egito e só retorna após a morte de Herodes. Entre nascimento e vida pública, poucos episódios.
Jesus adulto, aproxima-se de João Batista, líder asceta que prega arrependimento e confronta lideranças, e é batizado. Ao sair da água, ou depois, enquanto orava, o céu se abre e uma voz o declara filho amado. Vai ao deserto e é tentado pelo demônio. Ao voltar, João já está preso, ou ainda solto? Mais tarde ele é morto por decapitação.
Jesus anda pelas vilas da Galileia e diz que o Reino de Deus está próximo e que é preciso mudar. Começa com exorcismos. Chama homens comuns, ensina em público histórias simples, cura febres e paralisias, purifica leprosos, devolve visão, toca impuros e diz a alguns que seus pecados estão perdoados. Escolhe doze e lhes dá autoridade para anunciar e expulsar demônios. Atrai gente, consolida seguidores e cria oposição. Milagre falha onde há incredulidade; ele se irrita, suspira, muda de lugar. Com base em Cafarnaum, circula por aldeias ao redor do lago. Multiplica pães, acalma tempestade, dá visão a cego, ressuscita mortos; um é amigo.
Depois de dois ou três anos, vai a Jerusalém para a Páscoa. A cidade lota, entra aclamado. No Templo ataca o comércio do culto. Autoridades decidem prendê-lo. É traído por um seguidor, interrogado, levado ao governador romano, condenado. Crucificado, fala pouco: perdoa, promete. Sede; vinagre. Entrega a mãe ao discípulo amado: “eis tua mãe”. No momento da morte, clamor humano e desamparado, talvez entrega confiante ao Pai ou declaração de missão cumprida. Morre e é sepultado. Ressuscita ao terceiro dia; o túmulo é achado vazio; faz aparições. Sobe aos céus, deixando promessa de breve retorno glorioso. Depois, de Deus, silêncio.
Nota: Este resumo é uma montagem dos quatro evangelhos; não problematiza variações e nuances, algumas vezes só as incorpora ou cita as diferentes variações.
O Novo Testamento não é obra coesa, mas um conjunto de textos de comunidades cristãs primitivas, moldado por lutas ideológicas, disputas de interpretação, autoridade, identidade.
O mínimo historiográfico
Jesus judeu galileu ligado a Nazaré, aldeia pequena, num mundo de baixa alfabetização e muita crença em intervenção sobrenatural, fala com carisma na linguagem da Torá e dos profetas. Suas ideias carregam a expectativa de juízo e de “Reino de Deus”. Faz crítica moral e social, e entra em tensão com o Templo e autoridades. No judaísmo do período, circulam máximas éticas curtas atribuídas a sábios como Hillel, como “o que é odioso a você, não faça ao outro”. Provavelmente teve irmãos e irmãs biológicos, filhos de Maria e José. Um deles, Tiago (“o Justo” na tradição cristã), aparece mais tarde como liderança da comunidade de Jerusalém como “irmão do Senhor”.
Na vida adulta, aproxima-se de João Batista, pregador de arrependimento que batiza no Jordão (sinal público de mudança e de preparação para a intervenção iminente de Deus). João ganha adesão popular e provavelmente vira problema político: preso e morto, num contexto de medo de agitação e controle de multidões. Com João fora de cena, Jesus inicia pregação como continuidade desse clima apocalíptico-moral.
Circula por vilas da Galileia, anuncia Reino de Deus próximo e que é preciso mudar a vida agora. Reúne discípulos, ensina em público por máximas e histórias curtas, e cria atrito ao mexer com pureza/impureza, falar em perdão, dividir mesa com marginalizados e criticar a hipocrisia religiosa. Com base em Cafarnaum, povoado pequeno, roda aldeias ao redor do lago.
Ponto relevante e compreensível é a retórica do sinal, comum e mobilizadora. Atribuídos a Jesus nos textos redigidos décadas depois, feitos extraordinários como curas, exorcismos, controle da natureza, multiplicação de pães, dar visão a cego, ressuscitar um morto são historicamente melhor entendidos como tradição de comunidade sobre pregador carismático, não dado independente.
Vai a Jerusalém na Páscoa, em ambiente lotado e tenso; confronta práticas ligadas ao culto. Autoridades locais decidem neutralizá-lo: preso, interrogado e entregue ao poder romano. Sob Pôncio Pilatos, condenado e crucificado. Após a morte, o movimento não acabou, e em poucas décadas já aparece organizado e espalhado, com disputas internas e releituras teológicas que ampliam e reconfiguram o que Jesus teria sido.
Nas décadas seguintes, figuras parecidas, líderes carismáticos e “profetas de sinal” como Teudas, o “Egípcio”, o profeta samaritano, entre outros também atuam no ambiente de expectativa, crise e repressão romana. Jesus é um caso dentro dessa paisagem, não exceção inexplicável.
Adendo literário
Duas histórias, não pretendem ser factuais, para ler de forma não mitificada os evangelhos
Um dos três contos de Flaubert: Herodíade. A prisão de João Batista, o jogo de poder de Herodes, o ódio de Herodíade e a figura ambígua de Salomé aparecem de forma apenas esquemática nos evangelhos, mas ganham corpo, densidade política e brutalidade no conto, onde o sagrado é reduzido a pó e a execução deixa de ser mistério para virar narrativa.
O segundo é a ironia de quem criou Putois. Anatole France: “O procurador da Judeia”. Divertidíssimo.
Maria, virgem e prometida a José, concebe pelo Espírito Santo após anúncio de um anjo. José, advertido em sonho, a acolhe. Jesus de Nazaré nasce em Belém, entre sinais e mensagens. Herodes, o Grande, rei cliente de Roma, ao ouvir que magos do Oriente vieram pelo nascimento do “rei dos judeus”, manda matar meninos de até dois anos. Novamente avisado em sonho, José foge com a família para o Egito e só retorna após a morte de Herodes. Entre nascimento e vida pública, poucos episódios.
Jesus adulto, aproxima-se de João Batista, líder asceta que prega arrependimento e confronta lideranças, e é batizado. Ao sair da água, ou depois, enquanto orava, o céu se abre e uma voz o declara filho amado. Vai ao deserto e é tentado pelo demônio. Ao voltar, João já está preso, ou ainda solto? Mais tarde ele é morto por decapitação.
Jesus anda pelas vilas da Galileia e diz que o Reino de Deus está próximo e que é preciso mudar. Começa com exorcismos. Chama homens comuns, ensina em público histórias simples, cura febres e paralisias, purifica leprosos, devolve visão, toca impuros e diz a alguns que seus pecados estão perdoados. Escolhe doze e lhes dá autoridade para anunciar e expulsar demônios. Atrai gente, consolida seguidores e cria oposição. Milagre falha onde há incredulidade; ele se irrita, suspira, muda de lugar. Com base em Cafarnaum, circula por aldeias ao redor do lago. Multiplica pães, acalma tempestade, dá visão a cego, ressuscita mortos; um é amigo.
Depois de dois ou três anos, vai a Jerusalém para a Páscoa. A cidade lota, entra aclamado. No Templo ataca o comércio do culto. Autoridades decidem prendê-lo. É traído por um seguidor, interrogado, levado ao governador romano, condenado. Crucificado, fala pouco: perdoa, promete. Sede; vinagre. Entrega a mãe ao discípulo amado: “eis tua mãe”. No momento da morte, clamor humano e desamparado, talvez entrega confiante ao Pai ou declaração de missão cumprida. Morre e é sepultado. Ressuscita ao terceiro dia; o túmulo é achado vazio; faz aparições. Sobe aos céus, deixando promessa de breve retorno glorioso. Depois, de Deus, silêncio.
Nota: Este resumo é uma montagem dos quatro evangelhos; não problematiza variações e nuances, algumas vezes só as incorpora ou cita as diferentes variações.
O Novo Testamento não é obra coesa, mas um conjunto de textos de comunidades cristãs primitivas, moldado por lutas ideológicas, disputas de interpretação, autoridade, identidade.
O mínimo historiográfico
Jesus judeu galileu ligado a Nazaré, aldeia pequena, num mundo de baixa alfabetização e muita crença em intervenção sobrenatural, fala com carisma na linguagem da Torá e dos profetas. Suas ideias carregam a expectativa de juízo e de “Reino de Deus”. Faz crítica moral e social, e entra em tensão com o Templo e autoridades. No judaísmo do período, circulam máximas éticas curtas atribuídas a sábios como Hillel, como “o que é odioso a você, não faça ao outro”. Provavelmente teve irmãos e irmãs biológicos, filhos de Maria e José. Um deles, Tiago (“o Justo” na tradição cristã), aparece mais tarde como liderança da comunidade de Jerusalém como “irmão do Senhor”.
Na vida adulta, aproxima-se de João Batista, pregador de arrependimento que batiza no Jordão (sinal público de mudança e de preparação para a intervenção iminente de Deus). João ganha adesão popular e provavelmente vira problema político: preso e morto, num contexto de medo de agitação e controle de multidões. Com João fora de cena, Jesus inicia pregação como continuidade desse clima apocalíptico-moral.
Circula por vilas da Galileia, anuncia Reino de Deus próximo e que é preciso mudar a vida agora. Reúne discípulos, ensina em público por máximas e histórias curtas, e cria atrito ao mexer com pureza/impureza, falar em perdão, dividir mesa com marginalizados e criticar a hipocrisia religiosa. Com base em Cafarnaum, povoado pequeno, roda aldeias ao redor do lago.
Ponto relevante e compreensível é a retórica do sinal, comum e mobilizadora. Atribuídos a Jesus nos textos redigidos décadas depois, feitos extraordinários como curas, exorcismos, controle da natureza, multiplicação de pães, dar visão a cego, ressuscitar um morto são historicamente melhor entendidos como tradição de comunidade sobre pregador carismático, não dado independente.
Vai a Jerusalém na Páscoa, em ambiente lotado e tenso; confronta práticas ligadas ao culto. Autoridades locais decidem neutralizá-lo: preso, interrogado e entregue ao poder romano. Sob Pôncio Pilatos, condenado e crucificado. Após a morte, o movimento não acabou, e em poucas décadas já aparece organizado e espalhado, com disputas internas e releituras teológicas que ampliam e reconfiguram o que Jesus teria sido.
Nas décadas seguintes, figuras parecidas, líderes carismáticos e “profetas de sinal” como Teudas, o “Egípcio”, o profeta samaritano, entre outros também atuam no ambiente de expectativa, crise e repressão romana. Jesus é um caso dentro dessa paisagem, não exceção inexplicável.
Adendo literário
Duas histórias, não pretendem ser factuais, para ler de forma não mitificada os evangelhos
Um dos três contos de Flaubert: Herodíade. A prisão de João Batista, o jogo de poder de Herodes, o ódio de Herodíade e a figura ambígua de Salomé aparecem de forma apenas esquemática nos evangelhos, mas ganham corpo, densidade política e brutalidade no conto, onde o sagrado é reduzido a pó e a execução deixa de ser mistério para virar narrativa.
O segundo é a ironia de quem criou Putois. Anatole France: “O procurador da Judeia”. Divertidíssimo.
15/09/2025
Mulholland Drive e a direita americana: no hay banda
Debaixo da tenda montada, luz branca estourada e sombra dura. Sob ela, uma pessoa sentada fala ao microfone, atrás de uma mesa repleta de bonés, garrafas d'água e panfletos, tudo disposto sobre um pequeno palco. Diversas vezes, nos quatro lados da lona que os protege, aparece a frase PROVE ME WRONG; leio-a com ironia inevitável. Do lado de fora, massa amorfa com centenas, talvez milhares; o sol recorta grupos. Nas escadas do prédio próximo, um bloco compacto, amontoado. Todos, olhos fixos em quem fala; algumas bocas paradas no meio do grito. No momento em que solta um recorte pronto pra internet, o quadro inteiro parece travar: um homem na primeira fila, com a cabeça acima das demais, inclina só um pouco o corpo, como se preparasse levantar-se, enquanto uma mulher ao lado, imóvel, olha para o chão. Um estampido interrompe a fala, e o corpo de quem discursa cai lentamente para o lado (com a imagem borrada). Agonizo junto.
Quando escrevi, há alguns meses, sobre o ambiente de trabalho, veio à mente o Hopper de Nighthawks, que usei como banner no artigo sobre o mundo corporativo: algo não se encaixa, algo vai acontecer. Reassistindo essa cena, com a violência ocultada pelo desfoque, tenho a mesma sensação: algo não se encaixa, algo vai acontecer: o assassinato de Charlie Kirk.
Não vou defendê-lo; ele não precisa: há milhões, com ideias de jirico, chorando pelo santo. Tampouco vim celebrar assassinato. Ele era um escroto proto-fascista cujas ideias o mainstream tratou de ignorar para colocá-lo em um lugar imerecido, também aqui no quintal. Conhecia pouco sobre ele e, pasmo, assisti dezenas de vídeos, reconhecendo fala após fala, o teatro de outro ícone americano, David Lynch, mise en scène entre o mundano kitsch e o macabro/surreal, a banda de Mulholland Drive: público levado às lágrimas, convencido pela performance, nada ciente da miséria em que se encontra. Parece espontâneo, “popular”, cheio de emoção, mas é playback. A conexão entre Hopper e Lynch, aliás, transcende falarem sobre o modo de vida americano. Em ambos, o cenário é personagem e temos aquela rachadura no cotidiano, tudo aparentemente banal, solidão, suspensão, tempo parado. É o Lynch, é o Kirk: a cena foi artificialmente pensada, coreografada, encenada.
Essa encenação não é de hoje e transcende o palco político. Tocqueville percebeu no século XIX; onde todos podiam em teoria ascender socialmente, o sucesso material visível se tornava o principal marcador de valor e status. Todo mundo supostamente “igual”, medindo o próprio valor pelo olho dos outros. Se não temos sucesso, a culpa é nossa: não nos esforçamos o suficiente, não acreditamos o suficiente, não performamos o suficiente. A inveja e o medo de não ter valor impulsionam tudo. Minimalismo e vida simples jamais serão mainstream no capitalismo, porque o capitalismo desmoronaria se a vitrine perdesse sua função religiosa.
Quem está preso na corrida dos ratos, acreditando nela, retira da equação o acaso, a sorte, os eventos fora do controle, os privilégios, as dívidas contraídas pela aparência e os atos ilícitos ou injustos. O que importa é a opinião alheia. É o Instagram, que funciona nos Estados Unidos e no Brasil como em poucos lugares: uma vitrine contínua onde se exibem corpo, consumo, “sucesso” e fé performática. Igrejas de espetáculo e figuras como Charlie Kirk não prosperam por acaso; muitas vezes prosperam juntas, vide Pablo Marçal. Oferecem ao ressentido um pacote pronto de status: ele é vencedor, parte da América cristã original, alguém escolhido, alguém de sucesso. O cerne da observação de Tocqueville é esse desassossego persistente. É o palco de Lynch.
O objetivo é substituir a realidade consensual por um culto de exaustão emocional, propaganda e adesão fanática, sempre com desprezo pela nuance e pelo pensamento crítico. Olhando para os temas dos vídeos, reconheci um após o outro os elementos discutidos por Jason Stanley sobre o fascismo: passado mítico, homogeneidade, propaganda, anti-intelectualismo, conspiração, realidade paralela, escolhidos, vitimismo, hierarquia, lei e ordem seletivas, culto ao herói, visão messiânica. Não é difícil reconhecer a contradição insolúvel: um grupo se pretende superior e escolhido, herdeiro da pureza cristã e ocidental, mas ao mesmo tempo se diz perseguido, humilhado, derrotado, traído. A solução é sempre a narrativa de traição. O fracasso do grupo é projetado em inimigos externos: liberais, minorias, mídia, comunistas. O resgate da glória é delegado ao herói viril e implacável, autorizado a suspender as leis para purificar a nação.
Essa redenção violenta se traduz em lei e ordem seletivas: repressão brutal contra os fracos e os diferentes, silêncio completo sobre o capitalismo de compadrio e sobre a exploração que produz escravidão moderna nas prisões americanas. Essa retórica não é acidente lateral da direita republicana; é parte central de seu establishment e de seus apoiadores radicais. Não há, nesse ponto, uma “direita boa” e uma “direita performática”. Há a mesma máquina de poder, desejo, status e conforto. A única mudança é que o pudor acabou. A farsa da seriedade institucional já não funciona. That’s all, folks.
Essa contradição não nasce com Kirk; atravessa o cristianismo desde cedo. Não falo da figura de Jesus; falo do cristianismo paulino, com seu dogmatismo duro, seu messianismo, seu ódio instintivo a tudo que o contradiz, seu tribalismo e sua rejeição da dúvida. Paulo está na genealogia desse cristianismo de combate: uma matriz afetiva, moral e retórica que certos extremismos de direita, inclusive os de inclinação fascista, herdam sem saber nomear. O Sermão da Montanha, o perdão aos inimigos e a ética antiacumulativa dos Evangelhos são incompatíveis com a igreja evangélica dos super-ricos e das armas.
Tragédia é Gaza. Tragédia são os corpos coloniais que a Europa empilhou na África e nas Américas. Tragédia é o que Achille Mbembe chama de necropolítica: o poder de decidir quem vive, quem morre e quem, no fim, vira estatística. Tragédia é a vida transformada em matéria administrável por impérios, fronteiras, exércitos, prisões, drones e bloqueios. Tragédia foi o Congo Belga, o Vietnã, a fome em Bengala, as bombas no Laos e centenas de outros exemplos na história humana. Tragédia é o assassinato de quem dá a vida pelos outros: dos pacifistas, dos generosos, dos altruístas que repartem o quase nada que têm; dos que entram na favela, limpam ferida, acolhem o viciado, enterram filho, seguram a mão do moribundo, protegem desconhecidos. A morte de Kirk é intolerável porque assassinato é intolerável; a morte de Kirk não é tragédia.
A conta da história do pensamento é simples e incômoda. Todo avanço real em ciência e direitos veio de quem rompeu com a fé oficial, hereges, céticos e ateus. A religião organizada, historicamente, atuou para censurar, atrasar e apagar o diferente. Sua função foi sempre póstuma, abençoar o que já estava conquistado, vendendo a farsa de que esteve do lado certo. Kirk é o subproduto final. Um cristianismo de palco que instrumentaliza a cruz enquanto ataca a pouca humanidade que a modernidade arrancou a fórceps de crentes e ateus. A vida real, a luta pela nossa humanidade e pela sobrevivência da Terra, sobra para meia dúzia de humanistas que restaram, cristãos ou não. Meu ateísmo me consola: há paz, no fim das contas — no meu fim, onde só restam o bom e velho Lucrécio, alguns poucos pares e o fisicalismo. O evangelho morreu na cruz..
Quando escrevi, há alguns meses, sobre o ambiente de trabalho, veio à mente o Hopper de Nighthawks, que usei como banner no artigo sobre o mundo corporativo: algo não se encaixa, algo vai acontecer. Reassistindo essa cena, com a violência ocultada pelo desfoque, tenho a mesma sensação: algo não se encaixa, algo vai acontecer: o assassinato de Charlie Kirk.
Não vou defendê-lo; ele não precisa: há milhões, com ideias de jirico, chorando pelo santo. Tampouco vim celebrar assassinato. Ele era um escroto proto-fascista cujas ideias o mainstream tratou de ignorar para colocá-lo em um lugar imerecido, também aqui no quintal. Conhecia pouco sobre ele e, pasmo, assisti dezenas de vídeos, reconhecendo fala após fala, o teatro de outro ícone americano, David Lynch, mise en scène entre o mundano kitsch e o macabro/surreal, a banda de Mulholland Drive: público levado às lágrimas, convencido pela performance, nada ciente da miséria em que se encontra. Parece espontâneo, “popular”, cheio de emoção, mas é playback. A conexão entre Hopper e Lynch, aliás, transcende falarem sobre o modo de vida americano. Em ambos, o cenário é personagem e temos aquela rachadura no cotidiano, tudo aparentemente banal, solidão, suspensão, tempo parado. É o Lynch, é o Kirk: a cena foi artificialmente pensada, coreografada, encenada.
Essa encenação não é de hoje e transcende o palco político. Tocqueville percebeu no século XIX; onde todos podiam em teoria ascender socialmente, o sucesso material visível se tornava o principal marcador de valor e status. Todo mundo supostamente “igual”, medindo o próprio valor pelo olho dos outros. Se não temos sucesso, a culpa é nossa: não nos esforçamos o suficiente, não acreditamos o suficiente, não performamos o suficiente. A inveja e o medo de não ter valor impulsionam tudo. Minimalismo e vida simples jamais serão mainstream no capitalismo, porque o capitalismo desmoronaria se a vitrine perdesse sua função religiosa.
Quem está preso na corrida dos ratos, acreditando nela, retira da equação o acaso, a sorte, os eventos fora do controle, os privilégios, as dívidas contraídas pela aparência e os atos ilícitos ou injustos. O que importa é a opinião alheia. É o Instagram, que funciona nos Estados Unidos e no Brasil como em poucos lugares: uma vitrine contínua onde se exibem corpo, consumo, “sucesso” e fé performática. Igrejas de espetáculo e figuras como Charlie Kirk não prosperam por acaso; muitas vezes prosperam juntas, vide Pablo Marçal. Oferecem ao ressentido um pacote pronto de status: ele é vencedor, parte da América cristã original, alguém escolhido, alguém de sucesso. O cerne da observação de Tocqueville é esse desassossego persistente. É o palco de Lynch.
O objetivo é substituir a realidade consensual por um culto de exaustão emocional, propaganda e adesão fanática, sempre com desprezo pela nuance e pelo pensamento crítico. Olhando para os temas dos vídeos, reconheci um após o outro os elementos discutidos por Jason Stanley sobre o fascismo: passado mítico, homogeneidade, propaganda, anti-intelectualismo, conspiração, realidade paralela, escolhidos, vitimismo, hierarquia, lei e ordem seletivas, culto ao herói, visão messiânica. Não é difícil reconhecer a contradição insolúvel: um grupo se pretende superior e escolhido, herdeiro da pureza cristã e ocidental, mas ao mesmo tempo se diz perseguido, humilhado, derrotado, traído. A solução é sempre a narrativa de traição. O fracasso do grupo é projetado em inimigos externos: liberais, minorias, mídia, comunistas. O resgate da glória é delegado ao herói viril e implacável, autorizado a suspender as leis para purificar a nação.
Essa redenção violenta se traduz em lei e ordem seletivas: repressão brutal contra os fracos e os diferentes, silêncio completo sobre o capitalismo de compadrio e sobre a exploração que produz escravidão moderna nas prisões americanas. Essa retórica não é acidente lateral da direita republicana; é parte central de seu establishment e de seus apoiadores radicais. Não há, nesse ponto, uma “direita boa” e uma “direita performática”. Há a mesma máquina de poder, desejo, status e conforto. A única mudança é que o pudor acabou. A farsa da seriedade institucional já não funciona. That’s all, folks.
Essa contradição não nasce com Kirk; atravessa o cristianismo desde cedo. Não falo da figura de Jesus; falo do cristianismo paulino, com seu dogmatismo duro, seu messianismo, seu ódio instintivo a tudo que o contradiz, seu tribalismo e sua rejeição da dúvida. Paulo está na genealogia desse cristianismo de combate: uma matriz afetiva, moral e retórica que certos extremismos de direita, inclusive os de inclinação fascista, herdam sem saber nomear. O Sermão da Montanha, o perdão aos inimigos e a ética antiacumulativa dos Evangelhos são incompatíveis com a igreja evangélica dos super-ricos e das armas.
Tragédia é Gaza. Tragédia são os corpos coloniais que a Europa empilhou na África e nas Américas. Tragédia é o que Achille Mbembe chama de necropolítica: o poder de decidir quem vive, quem morre e quem, no fim, vira estatística. Tragédia é a vida transformada em matéria administrável por impérios, fronteiras, exércitos, prisões, drones e bloqueios. Tragédia foi o Congo Belga, o Vietnã, a fome em Bengala, as bombas no Laos e centenas de outros exemplos na história humana. Tragédia é o assassinato de quem dá a vida pelos outros: dos pacifistas, dos generosos, dos altruístas que repartem o quase nada que têm; dos que entram na favela, limpam ferida, acolhem o viciado, enterram filho, seguram a mão do moribundo, protegem desconhecidos. A morte de Kirk é intolerável porque assassinato é intolerável; a morte de Kirk não é tragédia.
A conta da história do pensamento é simples e incômoda. Todo avanço real em ciência e direitos veio de quem rompeu com a fé oficial, hereges, céticos e ateus. A religião organizada, historicamente, atuou para censurar, atrasar e apagar o diferente. Sua função foi sempre póstuma, abençoar o que já estava conquistado, vendendo a farsa de que esteve do lado certo. Kirk é o subproduto final. Um cristianismo de palco que instrumentaliza a cruz enquanto ataca a pouca humanidade que a modernidade arrancou a fórceps de crentes e ateus. A vida real, a luta pela nossa humanidade e pela sobrevivência da Terra, sobra para meia dúzia de humanistas que restaram, cristãos ou não. Meu ateísmo me consola: há paz, no fim das contas — no meu fim, onde só restam o bom e velho Lucrécio, alguns poucos pares e o fisicalismo. O evangelho morreu na cruz..
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Araraquara, SP, Brasil
21/05/2025
Ozymandias
Não sei.
Não sei...
Tudo passa.
A filha sai pro mundo.
O ideal não existe.
O bom senso não veio.
O amor não salva.
Deus não aparece.
Nada vale a pena.
Ninguém tem razão.
Esta vida, às vezes,
deixa a gente
acabrunhado.
E mesmo assim...
existem
as raríssimas pessoas boas,
a memória
a alegria silenciosa,
o fim consolador.
Não sei...
Tudo passa.
A filha sai pro mundo.
O ideal não existe.
O bom senso não veio.
O amor não salva.
Deus não aparece.
Nada vale a pena.
Ninguém tem razão.
Esta vida, às vezes,
deixa a gente
acabrunhado.
E mesmo assim...
existem
as raríssimas pessoas boas,
a memória
a alegria silenciosa,
o fim consolador.
28/04/2025
Teodicéia
O tema é mais complexo do que parece; é erro grosseiro de alguns ateus, não aceitarem que na filosofia analítica é logicamente possível. A "vitória técnica" (isto é, a demonstração de que não há contradição formal) é entretanto, extremamente limitada e abstrata. Sim, é logicamente possível um Deus existir junto com o mal em algum mundo possível, mas não mostra que o Deus descrito é o Deus de religiões históricas Cristianismo, Islamismo ou Judaísmo, que ama suas criaturas, intervém no mundo e promete justiça e salvação. Essas propriedades complicam o problema do mal: se é pessoal, justo e amoroso, o sofrimento brutal, massivo e injustificado do mundo parece incompatível. Não basta compatibilidade lógica, o problema de aplicabilidade permanece enorme, enquanto existencial e prático, quando trata do mal natural (terremotos, câncer infantil, tsunamis) não é fruto de livre-arbítrio humano. Distribuição aleatória de sofrimento ataca a ideia de justiça divina providencial.
A questão é anterior! Atribuir bondade ou amor a Deus é erro conceitual grosseiro, necessidade humana de projetar na realidade os próprios desejos de consolo e sentido. Bondade, conceito humano, emerge da experiência da vulnerabilidade, necessidade de preservar a vida e mitigar o sofrimento, não pode ser exportada sem distorção para um ser concebido como pleno, atemporal e autosuficiente. No plano humano, dizer que algo é bom implica a capacidade de agir em favor de um bem, corrigir falhas e sustentar processos frágeis. Em um ser perfeito, para o qual toda realização já está consumada no próprio ser, não há movimento nem direção; portanto, a linguagem da bondade simplesmente perde qualquer ancoragem. Criar por amor carrega a mesma falha. Vontade, como concebemos, pressupõe falta, impulso e direção para o que ainda não é, enquanto a perfeição plena exclui qualquer carência. Um ser que é puro ato não deseja, não precisa, não se move. Imaginar que um Deus perfeito cria por vontade ou amor é incoerente, estranho (temos que encolher os ombros e suspender do juizo, no mínimo).
O problema clássico do mal se sustenta apenas enquanto Deus é representado como um agente moral interessado no bem das criaturas. Se Deus é pensado com as categorias humanas de benevolência e justiça, a existência do mal se torna um escândalo lógico; mas se Deus é pensado seriamente como absoluto, sem atributos morais projetados, a existência do mal não configura problema, apenas expressão da realidade enquanto tal.
Resta então a necessidade de escolher: ou concebemos Deus como ser necessário, além de bem e mal, como defendeu Espinosa, ou reconhecemos que o Deus tradicional é apenas uma construção emocional, como denunciou Nietzsche. Em ambos os casos, a consequência é o fim da imagem de um Deus pessoal, preocupado com a sorte das criaturas, e a dissolução do problema do mal como uma falsa questão.A persistência em atribuir a Deus atributos humanos revela não a profundidade da fé, mas a incapacidade de suportar o absoluto em sua verdadeira natureza: indiferente, sem desejo, sem amor, sem remorso.
Se Deus sabia que uma criatura livre cometeria males atrozes, e ainda assim a criou, não seria Ele, no mínimo, conivente?
A única desculpa de deus, é que ele não existe. Sthendall adiantou-se a Nietzsche (e o Nietzsche cita isto, não sem amargor).
Se for radicalmente livre, então é um ato sem causa, sem razão suficiente, sem determinação. Mas se é um ato sem causa nem razão, ele é um ato irracional, aleatório e não pode ser considerado livre em sentido pleno, apenas caótico. Se for parcialmente causado, então nossas escolhas decorrem de desejos, impulsos, estruturas mentais, influências externas. Logo, não é livre no sentido radical, mas condicionado.
O livre-arbítrio "absoluto" seria absurdo (puro acaso), e o livre-arbítrio "condicionado" não é livre de verdade.
A neurociência contemporânea — nos experimentos de Molly Crockett (dá uma olhada no youtube! o experimento do trem é sensacional) sobre a manipulação bioquímica de julgamentos morais, nas medições de Benjamin Libet sobre a antecipação neuronal às decisões conscientes, nas análises de Joshua Greene evidenciando a predominância das respostas emocionais nos dilemas éticos, e nos estudos de Antonio Damasio sobre a fundamentação inconsciente das escolhas humanas, desmantela o livre-arbítrio como conceito filosófico robusto. Ao revelar que nossas decisões emergem de processos causais prévios, muitas vezes inconscientes e bioquimicamente moduláveis, esses dados confirmam as intuições de Spinoza, para quem a liberdade é ignorância das causas, e de Nietzsche, que denunciou o livre-arbítrio como artifício moral para legitimar a culpa.
A liberdade ontológica, entendida como autodeterminação radical e soberana, não é sustentada nem empiricamente, nem logicamente: é um mito psicológico necessário para a coesão social e a imputação de responsabilidade, mas incapaz de resistir a uma análise rigorosa. Sem liberdade real, o argumento de que o sofrimento é o preço inevitável da liberdade colapsa, e resta apenas a crueza de um mundo onde culpa e punição recaem sobre seres que não escolhem suas condições fundamentais. Em tal contexto, qualquer tentativa de justificar a presença do mal por apelo ao livre-arbítrio não apenas fracassa, mas compromete a própria noção de divindade benevolente, que se vê reduzida, se existir, a cúmplice cega ou indiferente da tragédia que constitui a existência.
Toda ética fundada na culpa livre, toda teodiceia que apela à liberdade para justificar o sofrimento, colapsa não sob um golpe emocional, mas sob o peso insuportável da realidade.
A questão é anterior! Atribuir bondade ou amor a Deus é erro conceitual grosseiro, necessidade humana de projetar na realidade os próprios desejos de consolo e sentido. Bondade, conceito humano, emerge da experiência da vulnerabilidade, necessidade de preservar a vida e mitigar o sofrimento, não pode ser exportada sem distorção para um ser concebido como pleno, atemporal e autosuficiente. No plano humano, dizer que algo é bom implica a capacidade de agir em favor de um bem, corrigir falhas e sustentar processos frágeis. Em um ser perfeito, para o qual toda realização já está consumada no próprio ser, não há movimento nem direção; portanto, a linguagem da bondade simplesmente perde qualquer ancoragem. Criar por amor carrega a mesma falha. Vontade, como concebemos, pressupõe falta, impulso e direção para o que ainda não é, enquanto a perfeição plena exclui qualquer carência. Um ser que é puro ato não deseja, não precisa, não se move. Imaginar que um Deus perfeito cria por vontade ou amor é incoerente, estranho (temos que encolher os ombros e suspender do juizo, no mínimo).
O problema clássico do mal se sustenta apenas enquanto Deus é representado como um agente moral interessado no bem das criaturas. Se Deus é pensado com as categorias humanas de benevolência e justiça, a existência do mal se torna um escândalo lógico; mas se Deus é pensado seriamente como absoluto, sem atributos morais projetados, a existência do mal não configura problema, apenas expressão da realidade enquanto tal.
Resta então a necessidade de escolher: ou concebemos Deus como ser necessário, além de bem e mal, como defendeu Espinosa, ou reconhecemos que o Deus tradicional é apenas uma construção emocional, como denunciou Nietzsche. Em ambos os casos, a consequência é o fim da imagem de um Deus pessoal, preocupado com a sorte das criaturas, e a dissolução do problema do mal como uma falsa questão.A persistência em atribuir a Deus atributos humanos revela não a profundidade da fé, mas a incapacidade de suportar o absoluto em sua verdadeira natureza: indiferente, sem desejo, sem amor, sem remorso.
Se Deus sabia que uma criatura livre cometeria males atrozes, e ainda assim a criou, não seria Ele, no mínimo, conivente?
A única desculpa de deus, é que ele não existe. Sthendall adiantou-se a Nietzsche (e o Nietzsche cita isto, não sem amargor).
Se for radicalmente livre, então é um ato sem causa, sem razão suficiente, sem determinação. Mas se é um ato sem causa nem razão, ele é um ato irracional, aleatório e não pode ser considerado livre em sentido pleno, apenas caótico. Se for parcialmente causado, então nossas escolhas decorrem de desejos, impulsos, estruturas mentais, influências externas. Logo, não é livre no sentido radical, mas condicionado.
O livre-arbítrio "absoluto" seria absurdo (puro acaso), e o livre-arbítrio "condicionado" não é livre de verdade.
A neurociência contemporânea — nos experimentos de Molly Crockett (dá uma olhada no youtube! o experimento do trem é sensacional) sobre a manipulação bioquímica de julgamentos morais, nas medições de Benjamin Libet sobre a antecipação neuronal às decisões conscientes, nas análises de Joshua Greene evidenciando a predominância das respostas emocionais nos dilemas éticos, e nos estudos de Antonio Damasio sobre a fundamentação inconsciente das escolhas humanas, desmantela o livre-arbítrio como conceito filosófico robusto. Ao revelar que nossas decisões emergem de processos causais prévios, muitas vezes inconscientes e bioquimicamente moduláveis, esses dados confirmam as intuições de Spinoza, para quem a liberdade é ignorância das causas, e de Nietzsche, que denunciou o livre-arbítrio como artifício moral para legitimar a culpa.
A liberdade ontológica, entendida como autodeterminação radical e soberana, não é sustentada nem empiricamente, nem logicamente: é um mito psicológico necessário para a coesão social e a imputação de responsabilidade, mas incapaz de resistir a uma análise rigorosa. Sem liberdade real, o argumento de que o sofrimento é o preço inevitável da liberdade colapsa, e resta apenas a crueza de um mundo onde culpa e punição recaem sobre seres que não escolhem suas condições fundamentais. Em tal contexto, qualquer tentativa de justificar a presença do mal por apelo ao livre-arbítrio não apenas fracassa, mas compromete a própria noção de divindade benevolente, que se vê reduzida, se existir, a cúmplice cega ou indiferente da tragédia que constitui a existência.
Toda ética fundada na culpa livre, toda teodiceia que apela à liberdade para justificar o sofrimento, colapsa não sob um golpe emocional, mas sob o peso insuportável da realidade.
27/03/2025
Uma apologia a agilidade?
Antes do método, a pergunta (uma reflexão aberta)
“While we will, if necessary, dine using the items on the right, we prefer to nosh on the left.” — Buffet Manifesto, Snowbird, 2001
Sei que falar de agilidade ou metodologia parece redundante porque a sensação é de que tudo já foi dito, e que seguimos presos ao lugar comum. Resolvi escrever para meus colegas mais próximos e equipe um pouco do que imagino ser útil na discussão do nosso dia a dia. Trato aqui enquanto pensamento, uma tentativa de entender o mundo corporativo e refletir sobre ele. Não se trata, de um ataque, mas de uma escolha, questionar e duvidar.
Pensamento não merece submissão, nem respeito, nem engajamento, nem idolatria, nem adesão. Pensamento merece resposta com pensamento, livre: é a apologia que faço a uma Agilidade.
Trabalho com pessoas diversas, que, mesmo vindas de contextos e culturas diferentes, partem de premissas semelhantes que, de algum modo, se cristalizaram e pararam de ser questionadas: um senso comum sobre como deve ser a liderança, como deve se comportar nossa voz e desejos dentro do ambiente corporativo.
São ideias que, à primeira vista, parecem consolidadas, mas carregam fissuras, tema que é o objetivo deste ensaio. Quero tatear e discutir este consenso (aparente?) ou se algumas dessas ideias precisam ser revistas.
Olhando para o que já vivi, clientes ou parceiros, houve muitos casos de sucesso, leves, positivos, experiências, os momentos de felicidade eudaimônica ("a felicidade é o bem supremo entre todos os bens realizáveis pela ação"¹) com a sensação de sentido profundo, coerência interna, mais do que prazer imediato, significado, pertencimento (isto existe). Mas esses momentos não são maioria, longe disto!, e exigem para acontecerem, coincidência de fatores simultâneos que podem se resumir ao chavão pessoas certas no lugar certo. Não é trivial. E eu falo do descompasso estrutural entre discurso e prática, entre método e realidade e os motivos que fazem projetos funcionarem que nem sempre os que se acredita.
A agilidade, por exemplo, a despeito da visão e conhecimento de vários dos criadores e nomes significativos da área (Cockburn, Fowler), que tinham claras as limitações e reflexões necessárias para desenvolver software, na sua aplicação e adoção, é muitas vezes conduzida por pessoas desconectadas da prática concreta e das tecnologias.
Quando a agilidade se expandiu, após seu sucesso inicial, em grande parte (mas não só) resultado da excelência e qualidade dos criadores e do ecossistema que se formava em torno deles, ganhou corpo, e essa credibilidade a deteriorou em sua próxima fase: a institucionalização (vi isto acontecer de forma similar com o CVV). Nesse momento, ela começou a se descolar dos princípios. Transformada em produto, tribo, dogma, perdeu o valor original, artesanal, crítico, experimental (gosto de verdade construída), para se transformar em produto embalado para escala, uma franquia. Passou a depender de marketing e de seguidores.
Não muito tempo depois, a agilidade parou de ser uma exclusividade dos times de desenvolvimento e entrou nas salas de reunião. De forma apressada e equivocada, globalizou-se. Compreendo a crítica que pode surgir aqui: elitismo. Mas a crítica não é à disseminação, mas à banalização. Elitismo é assumir, com condescendência disfarçada, que só pensa quem teve acesso aos círculos certos, de preferência os da Ivy League (e sim, com ironia e sem ressentimento: sei que Cockburn estudou na Europa). Arrogância não está em cobrar reflexão, mas em crer que a lucidez é monopólio acadêmico ou cultural. Mais que possível é extremamente necessário situar em cada contexto as pŕaticas (voltarei a falar do tema mais a frente quando falar em Hofstede).
Elitismo foi também a crítica dirigida ao Nietzsche, especialmente à sua proposta do “Além-do-homem” (Übermensch), interpretada como desprezo pelos “fracos” quando na verdade ele trata da superação. Nietzsche enxergava isto tão bem, esse tipo de desprezo pelas pessoas, quando ria, já no início do Zaratustra, de quem dizia amar a humanidade, mas vivia longe dela. Também aqui: quem louva os times, mas os considera incapazes de pensar, não os valoriza — instrumentaliza.
Voltando a agilidade, foi apenas alguns anos depois que ela realmente se perdeu. Vi isto acontecer, quando agilistas sem conhecimento técnico, passaram a trocar empirismo adaptativo por positivismo mecânico de processos, sequência chata de buzzwords desvinculada da realidade onde atuamos. Descaracterizou-se.
Como apoiar no direcionamento certo, compreendendo verdadeiramente por que e para quem é necessário realizar? Como apoiar o time com perguntas coerentes entendendo a complexidade e o apoio necessário, a abordagem na interlocução e a iniciativa a priorizar, antecipando, mitigando? Um consultor crítico, inquieto, mergulhado no entendimento, e sem heroismo ególatra. Sem de fato, compreender, as dinâmicas, os problemas, faz facilitação no escuro, ainda mais com a obsolecencia de muitas métricas ágeis, com o advento da IA. O que significa “velocidade” em ambientes que integram IAs no fluxo?
Se este mesmo facilitador serve de interlocutor ou ventriloco (desperdício) com o cliente ou gestão da empresa o time é infantilizado, não aprende a negociar, não constrói vocabulário, não entende o impacto do que entrega e a mediação constante vira tutela com a comunicação perdendo agilidade. É aborrecido ver alguém que desconhece tecnologia atuar; ele vira eterno cotovê-lo, falando do que não compreende.
Por outro lado, se ele apenas marca as reuniões e o cliente entende que ele não tem nada a agregar que não enriquece o debate, prefere contratar T&M tratando a relação com o fornecedor como uma alocação, internalizando a gestão. Perde-se o sentido de consultoria.
Para mim é claro, quando então se perpetua no time contradiz o princípio que afirma. Sem isto, é comprometida toda a ideia de autonomia. Muitos analistas, com 5 ou 10 anos trabalhando em projetos, acumulam, compartilham e fazem muito bem este papel. Esqueça formação acadêmica, entre os melhores profissionais de TI que conheci, havia físicos, engenheiros de diversas áreas etc. A questão está no grau de envolvimento do "Puro agilista", na solução, do entendimento. Claro que generalização sobre um "tipo" é estúpida, sempre existem exceções, pessoas que em determinados contextos podem gerar ótimos resultados, mas falo aqui especificamente dentro de consultorias que mesmo sem serem grandes (ou talvez exatamente por isto) são dinâmicas, exigentes, complexas.
O manifesto ágil veio com as premissas: priorizar "indivíduos e interações", "software funcionando" (...). Focar onde os modelos preditivos fracassaram, ambientes complexos e dinâmicos. Mais do que eficiência, era clara a necessidade de flexibilidade e adaptação.
A pergunta era algo assim: como desenvolver software que entregue valor, qualquer que seja a medida disso, de modo contínuo, adaptável e alinhado ao que realmente é necessário, em vez de seguir planos rígidos que fracassam na prática? Como criar software de forma viva, iterativa, em contato com a realidade mutável dos problemas humanos e organizacionais?
Refletindo um pouco mais, um passo atrás ainda é necessário: o Ágil veio para responder o quê? Ineficiência da entrega de software? Era este o problema? Como tornar visível e eficiente o fluxo de trabalho existente, sem mudanças bruscas, respeitando o sistema atual? Dificuldade de diálogo entre negócio e tecnologia? Como manter a autonomia e alinhamento em organizações que crescem rapidamente, sem perder cultura e velocidade? Impossibilidade de prever escopo em sistemas complexos ou em contínuo movimento? Como adaptar a leveza do ágil a diferentes contextos, priorizando segurança, criticidade e tamanho da equipe? Cada resposta, ou a seletividade das perguntas, leva a respostas/metodologias diferentes, complementares ou não. Na filosofia da ciência, existe um nome pra isto: reconstruções pós-fato. Não estou discutindo da utilidade, todas elas práticas, aplicáveis. Feitas por quem vive a realidade do desenvolvimento, por quem de fato as utiliza!
Outro ponto, que enfrentamos mais nos últimos 10 ou 12 anos, é a gestão de projetos de tecnologia por pessoas que desconhecem a própria tecnologia que gerenciam e ignoram as oportunidades, riscos e desafios que enfrentamos... Não o VP ou o diretor distantes, a gestão operacional, imediata, agora responsável por pessoas, fornecedores, processos, tecnologias e complexidades que julga compreender. O dinheiro migrou para a área de negócio: é consenso que todos precisam estar alinhados ao negócio. Alinhados ao negócio ou submissos ao negócio?
O que falei sobre os agilistas ganha novas dimensões quando os próprios clientes, sob pressão constante por resultados, não aderem a qualquer lógica processual — nem à que eles mesmos contrataram e, em sua urgência, frequentemente atropelam. A entrega só não é comprometida porque o fornecedor antecipa, sobrecarrega, ajusta, apaga incêndios, quase sempre à revelia de qualquer planejamento. Ouço isso com frequência de consultorias de todos os portes em diferentes desafios.
Onde se encaixa a área de tecnologia?, que muitas vezes acreditam ter internalizado na contratação de duas pessoas dentro da área de negócio. Servidora acessória? Informada das decisões, enquanto a IA e a revolução tecnológica se aprofundam e aceleram?
A expectativa da área de negócio torna-se irreal, experiencia de projeto ágil, com preço de projeto de escopo fechado, com gestor que adivinhe sonhos e pensamentos. Uma equipe aberta a mudanças que também sugira melhorias e tenha uma visão de produto durante a execução do projeto. Mas datas e o custo do projeto não podem ser alterados! Se quem gestiona não tiver malícia, entrega-se o pior dos dois mundos: custos nas alturas fora do prazo. Ninguém vai pagar.
Na introdução citei um ponto, de modo geral, razamente debatido e considerado: o nosso contexto.
Geert Hofstede, realizou, entre as décadas de 1960 e 1970, uma das pesquisas mais influentes sobre cultura organizacional analisou dados de funcionários da IBM em mais de 70 países e identificou dimensões culturais que demonstram como valores coletivos moldam comportamentos em ambientes de trabalho e sociedades. Os comportamentos e valores de seus funcionários variavam significativamente conforme o país o que indicava que a cultura nacional tinha mais influência do que a cultura corporativa.
Algumas dimensões culturais propostas por Hofstede incluiam temas caros a agilidade: distância do poder, o individualismo vs. coletivismo, aversão à incerteza, orientação de longo prazo vs. curto prazo, indulgência vs. restrição.
Práticas organizacionais (agilidade?) não podem portanto, concluiu o estudo, serem transplantadas mecanicamente entre contextos culturais distintos sem levar em conta as bases simbólicas e coletivas de cada sociedade. Nem todo modelo portanto funciona da mesma forma no Brasil, nos EUA ou no Japão, pois o pano de fundo cultural altera as expectativas, os comportamentos e até a maneira como se entende o papel da liderança, da hierarquia, da colaboração e da autonomia.
O Brasil, com alta distância de poder, baixa autonomia e aversão à incerteza, exige abordagens próprias, não cópias de modelos escandinavos ou norte-americanos. Analises como a de Henry Pereira, ou o artigo acadêmico de Lopes et al. que reforça a falta de estudos nacionais sobre agilidade situadamente aplicada no Brasil, nos falam desta necessidade.
Mas o mercado brasileiro ainda consome métodos prontos (e rentáveis modelos de certificação importados) como se fossem neutros.
Nos falta um corpo empírico próprio. Mais grave que aplicar a agilidade mal é aplicar sem pensar ou desconhecendo estas variáveis. Importa-se o formato sem importar os fundamentos.
E a confusão da agilidade com ciência? Claro que não são os criadores, mas aplicadores vez por outra que escorregam confundindo. Algumas vertentes da agilidade especialmente no seu discurso corporativo desde sempre se apropriam da linguagem do empirismo para vender legitimidade. O empirismo do ágil não é empirismo científico rigoroso, ele é meramente operacional. Como metodologia, o agil carrega consigo uma epistemologia, um conjunto implícito de suposições sobre o que conta como conhecimento e validação prática (não se trata do aparato formal das ciências). Surge então um fetiche epistemológico (o desejo secreto de quem teme a dúvida). Pega-se a palavra empirismo, associa-se a ciencia e temos uma ideia equivocada de validação. Nem todo modo de agir é, por si só, um modo de conhecer (Merleau-Ponty, Dewey, Rorty). É um otimismo ingênuo achar que a eficácia prática prova a verdade epistemológica. Um método vira uma ilusão simplória de resposta.
Acrescento ainda que estas escolhas e suposições formam estruturas que não aparecem, mas que sustentam o discurso. Se elas não forem compreendidas, a prática se descola da realidade, e tende a se tornar simulacro. Uma metodologia não explica a realidade. Não falamos sobre "a verdade".
Muito do que se afirma sobre a agilidade carrega uma aura de evidência, mas não resiste a exame rigoroso. Replicabilidade? Nem de ambientes, times ou lideranças (e seus estados), nem projetos — e o que chamamos de "sucesso da agilidade" pode ter acontecido, só não posso afirmar com os dados que temos. Uma hipótese e não digo que seja verdade, mas uma hipótese que imagino agora: combinação de pessoas competentes, talvez mais atualizadas ou com fôlego novo, abertas à experimentação, em contextos férteis (ainda só suposição). Pela natureza dos projetos poderia haver maior autonomia e boa vontade — inclusive com o erro. "Ausência de evidência não é evidência de ausência"² pode realmente ser isto, mas eu completaria, "Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias"³. Que algo tenha dado certo não implica causalidade direta com o método, tampouco validade universal. Do ponto de vista da filosofia é ainda pior. Para acreditar nisso é preciso esquecer Hume: o sol ter nascido ontem, ou em todas as manhãs anteriores, não é garantia lógica de que nascerá amanhã, embora se veja casualidade, experiência não é certeza. “Nenhuma conclusão da razão é capaz de nos dar uma justificativa para a suposição de que o futuro se conformará ao passado. Todos os argumentos extraídos da experiência, portanto, são efeitos do costume, e não do raciocínio⁴”. Por isso, em contextos complexos e líquidos como os que vivemos, falar em forecast como se fosse previsão confiável é wishful thinking.
Essa confusão entre prática e validade já apareceu em outros debates públicos recentes, inclusive na folha de são paulo. Natalia Pasternak, cientista de formação, alerta sobre o uso abusivo da palavra "ciência" como selo, recurso de autoridade. E está certa: dizer que algo é “científico” não o torna verdadeiro, nem legítimo, só encobre um vazio de fundamentação. É o mesmo que vejo quando a agilidade evoca "empirismo" sem qualquer rigor, porque testa hipóteses no dia a dia. Chamar isso de ciência é, no mínimo, uma bobagem.
Que Bobagem! escrito pela Pasternak é um livro interessante justamente por tratar do tema com leveza e fluidez. Em tempos corridos e imediatistas, uma leitura assim acessível é quase um alívio. Dá pra ler em uma sentada.
Christian Dunker, psicanalista respondeu publicamente ao livro da Natalia (a psicanalise é um dos temas tratados pelo livro), e pondera que nem todo saber precisa seguir os moldes das ciências naturais. Há validações que se dão pela experiência, pela clínica, pela escuta, pela reflexão, pela prática situada — e isso não é um defeito. É outra forma de operar no mundo. A questão, portanto, não é se a agilidade é ou não ciência. A questão é reconhecer que ela tem sua própria lógica, e que essa lógica não autoriza o uso do discurso científico como forma de blindagem contra o pensamento. Não é “ciência”. É método. E método, como todo pensamento, não merece adesão. Merece resposta.
O que considero ser ainda mais frágil é a fé do método. Em diversos contextos já se disse: são as pessoas, estúpido! Estamos em um contexto, em um pais, em um momento... Não, não há mágica.
Como ter certeza do cliente descobrindo valor ao longo do processo, se a iteração não é autossuficiente, e na realidade muitas vezes falta maturidade, vocabulário, contexto ou as vezes ética e temos no cerne do processo da agilidade a confiança (por quem pede, para quem executa).
Confiar que equipes auto-organizadas farão boas escolhas técnicas e de negócio? Sem ambiente favorável e perfis adequados (que não estão sobrando), a hierarquia formal ou informal domina e decisões seguem nas mãos de quem pouco compreende, do outro lado, o que está em jogo. Decisões que interferem negativamente nos objetivos da alta gestão, da equipe e do próprio negócio.
A nossa servidão por se tratar do cliente, é muitas vezes voluntária, providencial e cômoda, mesmo em ambientes sadios, 'É incrível como os homens, sem coação nem necessidade, se deixam dominar com tanta facilidade'⁵, me entristece esta resignação bovina (e a tenho visto em demasia, por que ela é uma diminuição da tensão). Mas ela não seria também uma reação à indiferença com que muitos são tratados, alijados de praticar autonomia, decisão, colher benefícios, reconhecimento, tratados no fundo como meros joguetes? Poucas pessoas querem realmente responsabilidade em contextos onde assumir riscos não é recompensado ou valorizado. James Joyce tinha uma frase brilhante: "Que minha pátria morra por mim". Quando li Ulisses a muitos anos sempre entendi esta frase como a recusa amarga a morrer por uma coletividade que abandona seus próprios líderes. Joyce nunca perdoou a Irlanda que execrou Parnell em nome da moral de rebanho. O que resta: cinismo ou resignação.
Auto-organização e accountability reais só florescem em ambientes que combinam segurança com exigência — e isso não se improvisa. É cultura, não canvas e powerpoint.
Basta a transparência e diálogo? Panaceia. Não há acordo onde há interesses e potências desalinhados, é da natureza das coisas, insolúvel. Potência, no sentido nietzschiano — não como dominação bruta, mas como expansão ativa de si, criação de valores⁶. Quer aproveitar o melhor disto? Promover a cultura! que não é neutra e demanda para se desenvolver, tempo, reflexão, coragem, perdas! Não dá para se ter tudo. É preciso se escolher o que se quer, o que se é. É comum na cultura corporativa não se desejar verdadeiros criadores, desejar ajustados, adesão cega, repetição e docilidade. Mas ajustados não criam... São só rebanho, que não transforma, e todos não imploramos por inovação e accountability?
As cerimônias são espaço de alinhamento?, mas e o medo e a linguagem truncada, as diferenças culturais e de perspectivas? Teatro do absurdo, entendimento razo. Quando estudei na faculdade a história social do conhecimento, comecei a entender por que “A compreensão efetiva e plena do pensamento alheio só se torna possível quando descobrimos a sua eficaz causa profunda afetivo-volitiva⁷”. A nossa leveza por vezes só esconde que somos herdeiros do jeitinho, da fuga do conflito (a bolha aqui particularmente funciona bem), da passividade agressiva (que homem cordial!), cheios de nós mesmos e da nossa esperteza, do patriarcalismo e do favoritismo.
Fatiar valor em incrementos? há entregas que exigem orquestração, visão e tempo, que nem sempre cabem em backlog. Iterar virou mantra!, e em certos sistemas errar rápido não é aceitável. Software para seguradora? Banco? Segurança? E talvez por isso pensemos que tudo cabe, mesmo quando o pensamento pede reflexão, tempo, profundidade e silêncio. Dizem que entregas contínuas levam ao aprendizado, mas sem tempo para respirar, pensar torna-se exceção. É possível compreender/aprender sem reflexão? E a gestão do dinheiro, "o capital" ironia, sem entendimento do problema, não tem paciência para o orgânico: tolera o ágil só enquanto ele acelera (e perde dinheiro com a falta de visão, o maniqueísmo).
A ideia pueril de que código muda a qualquer hora também desconsidera a realidade técnica: legados frágeis, integrações sensíveis, arquitetura que não permite improviso, sistemas de missão crítica ou onde um desvio implica em milhões. Os puxadinhos para se adequar e resolver estes problemas, fragilizam, não fortalecem a metodologia.
Acredita-se que pôr pessoas juntas gera colaboração, quando na prática, confiança não nasce por proximidade. Supõe-se que todos compartilham a noção do que é um bom trabalho, mas o que é qualidade para um é preciosismo para outro. Costuma-se confiar excessivamente na clareza da linguagem, quando ela é, quase sempre, opaca. É comum assumir que entregar algo equivale, automaticamente, a gerar valor, é sinônimo de valor, mas repetir movimento não é avançar.
Procura-se pessoas disponíveis, inteiras, lúcidas, mas estou nos vendo fragmentados, cansados, distraídos. Cansados!, da mesmice, da burocracia, da estupidez, da basófia, da disputa nonsense! Repete-se a exaustão sobre a auto-organização, tão desejada, que exige maturidade raramente presente. E a transparência, quando total (exigida!), vira vigilância. Por fim, acredita-se em metodologia neutra. Metodologia carrega visão de mundo, traz sua ética, ontologia (ideia implícita de ser humano que esta embutida no método, autônomo, bom, iterativo, toma boas decisões com informação suficiente etc..) e quem apenas segue não se dá conta disso. Talvez por isso a adaptação constante soe tão virtuosa, mesmo quando esgota.
E é justamente nesse ponto — os resultados e o esgotamento em que a contradição se intensifica. Em consultorias de tecnologia, o responsável pelo delivery, antes estratégico e técnico, foi capturado (inocência) pela lógica do acúmulo de papéis. De articulador passou a acumulador: inovação, metodologia, delivery-tecnologia, captação e retenção de talentos, financeiro, processos internos, pré venda, novos negócios-vendas.
Byung-Chul Han já dizia que o sujeito da performance é também o sujeito da autoexploração. A cultura do “sim”, da hiperexposição, da eficiência sem fim — travestida de liberdade e protagonismo — criou um modelo de gestão que não sustenta o pensar, apenas o responder. “O sujeito de desempenho é ao mesmo tempo senhor e escravo. Ele é simultaneamente explorador e explorado. [...] O sujeito de desempenho se explora até que entre em colapso⁸”. Nietzsche começa e Byung-Chul Han termina. O que começa com vontade de potência termina no esgotamento performativo. BurnOut? O que se exige não é decisão com critério, mas reação. O excesso de positividade destrói a possibilidade de crítica, que soaria no meio do teatro, como "remar ao contrário". O que fazer? Em vez de agir, performar, em vez de dizer não, acumular. A saturação é uma forma moderna de submissão, a agilidade só reforçou isto. É o discurso que governa, não mais a pessoa.
Claro que não se trata de um colapso individual; embora favoreça, o isolamento e, com ele, a dificuldade de pedir ajuda. O outro passa a ser visto com excesso de alteridade, distância; a empatia rareia. E essa dificuldade não é neutra: ela é útil. A separação dos corpos enfraquece os vínculos e não facilita a gestão.
Quando olho para o isolamento, um episódio banal, mas didático. Eu e três gerentes da minha equipe íamos juntos a um evento da companhia. Combinei tudo com antecedência, pedi o carro, queria trocar uma ideia antes; alinhar rápido, descontrair. Eu falaria no evento, e limitação, detesto falar. Pelo menos dois deles totalmente cientes disto. Ninguém atendeu o telefone. Estavam no café, cada um no seu tempo. Subi para buscá-los, dois minutos. Quando desci, tinham ido. Pegaram o Uber. Todos sabiam que havia outro Uber a caminho — chegou pouco depois, fui com o pessoal de outra área. Nenhuma afronta direta, nenhum atrito. Só aquela coreografia corporativa sutil onde cada um se administra. Ausência com aparência de normalidade. Relações sem responsabilidade recíproca, afinal, não preciso de apoio, preciso de subordinados. Em O Novo Espírito do Capitalismo, Boltanski e Chiapello mostram como a crítica foi cooptada pela lógica empresarial: flexibilidade, criatividade, engajamento (lembra da agilidade?, mera coincidência o match?); tornaram-se ferramentas do capital, e não do pensamento. É exatamente o que acontece com os líderes. São convidados a serem “inspiradores”, “protagonistas”, “empáticos” — nunca lúcidos. Lúcidos demais, seriam perigosos. “O novo espírito do capitalismo recupera as críticas dirigidas a ele, em particular as críticas de tipo artístico, integrando-as parcialmente, e assim tornando-as inofensivas”⁹.
Um profissional bacana que trabalha comigo me diz o tempo todo: "Programar é arte¹⁰." Só posso concordar discordando. Arte convoca beleza, inquieta, suspende o mundo, produz sonho. Ninguém goza com um código bem escrito. E Joyce diria que a arte é epifania: aquilo que não explica, mas revela. Pequenas epifanias encontro na Clarice e na Carolina Maria de Jesus. Pode haver arte em um pequeno trecho de comentário deixado, mas jamais no código em si. Duchamp abriu essa possibilidade, mas não nos deu passe livre para a banalização: colocou um mictório num museu e disse que era arte, porque afirmou que era. O gesto artístico está no deslocamento, na ironia, na crítica. E não na simples repetição. Só consigo ler no final, como um alívio estético. É a tentativa de redimir o tempo vendido (vida), pela fantasia de criação.
Neste momento conto com o Mujica para esclarecer as coisas “Quando compramos algo, não pagamos com dinheiro. Pagamos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro.” Quando a vida perde sentido, o trabalho pode virar refúgio e às vezes é o único disponível. Se já não encontramos prazer na filosofia, nas relações, na arte verdadeira ou na densidade de uma vida interior, passamos a operar o trabalho como gerador de significado. E ele pode ser. Pode trazer alegria. A busca pela excelência ainda pode ser uma forma legítima de realização — dentro da lógica da eudaimonia. Mas se, dentro do trabalho, tudo que nos resta é entregar, e não realizar com excelência, então a própria lógica se dissolve. Resta só movimento. E cansaço.
No cenário do responsável pelo delivery, a sobrecarga e o cansaço, não redimem. Por que há covardia, quando não se recusa e se cala frente à tarefa impossível. Por que se corrobora com a manutenção do delírio, sustenta-se a farsa da eficiência. Quando tudo vira prioridade, nada é enfrentado. Como Nietzsche advertia, a moral do rebanho (do senhor e do escravo) se esconde muitas vezes e abdica-se da vontade de potência para manter a ordem, mesmo que seja a ordem da decadência. A decadência, onde quero chegar, o ressentimento moral, para Nietzsche, nasce justamente da incapacidade de afirmar a própria potência. Esta incapacidade, leitura minha, de certo modo, se opõe à ideia de felicidade eudaimônica que não se sustenta no julgamento do outro, mas na realização de uma vida com coerência interna, sentido e expressão afirmativa da própria potência (em Aristóteles, entendo que mais serena, quase budista). Não consigo discordar do Nietzsche (e como seria?), que vida plena não precisa ser calma ou pacífica, mas uma afirmação, mesmo diante da dor, do risco e da contradição. Não é sobre poder sobre os outros, mas intensidade de ser, capacidade de autoafirmação criadora.
A metodologia, nesse cenário, não é neutra. Se ela é aplicada sem consciência do tipo de subjetividade que está produzindo, se não leva em conta o que exige dos corpos e das mentes, ela se torna um disfarce técnico para um problema moral da boa e velha politicagem...
Se o projeto, enquanto consultoria, implode, é mais do que faltar tempo para pensar, mas sobretudo porque pensar se tornou um risco político. Os diretores sobrecarregados se tornaram, paradoxalmente, os garantidores da paralisia.
A paralisia não nasce da ineficiência, mas da hesitação frente ao impacto real do pensamento. Pensar com rigor desestabiliza, exige revisão de crenças, confronta o grupo, impõe escolhas. O risco não é só mudar de direção, é de mostrar que corremos pro lado errado e estamos ainda mais longe (este deveria ser o verdadeiro espirito que a agilidade poderia trazer). Pensar, neste cenário, não é bem-vindo. Por quê? Para quem? “Pensar é perigoso. Mas não porque leva à ação; porque nos impede de aceitar o inaceitável. ¹¹” Isso é ética.
Este é um ponto-chave. Por que algumas pessoas são mais suscetíveis à obediência, mesmo quando ela fere seus valores, e outras resistem? A filósofa Hannah Arendt argumenta que a diferença entre os que obedecem e os que resistem está no pensamento crítico como hábito interno. Ela não fala de QI, nem de cargo, nem de caráter, mas da capacidade de parar, refletir, e julgar moralmente. Ter coragem e perguntar: 'Isso que estou fazendo pode ser justificado perante qualquer outro ser humano?' Não cai no dualismo tacanho, bom ou mal, mas fala do esvaziamento da consciência.
Stanley Milgram, em sua famosa experiência sobre obediência (várias vezes passei este video para gerentes e coordenadores da equipe), chegou a uma constatação que ecoa a tese de Arendt: pessoas comuns, sem traços sádicos ou cruéis, podem agir contra seus próprios valores dentro de um ambiente que legitima a autoridade e dissolve a responsabilidade. A obediência, aqui, também não é fruto da maldade, mas da anestesia uma vez que a responsabilidade é de quem pede, não de quem executa. O mal, na maioria das vezes, não exige monstros, mas apenas pessoas dispostas a agir como engrenagens, seguidores que obedecem sem pensar.
Já foi dito que o problema não era este ou aquele mestre, o problema são os seguidores, os que nunca criaram. Os que acreditam cegamente (também no C-Level). Aqueles que encontraram sua tribo, sua identidade, sua paz, sua voz! no senso de pertencimento ao dogma... Alguém quer saber da verdade, ou trata-se apenas de sentir-se bem e fundamentado? As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras¹²". Os que se consideram da tribo ágil, os que se consideram da tribo do board. “Toda convicção é uma prisão¹³”. E a agilidade — ou, além dela, o próprio modo de ver o mundo corporativo — tornou-se exatamente isso: prisão voluntária que regula comportamento, fala, tempo, relações. Prende sem algemas pela adesão. É assim também o capitalismo tardio, entusiasmado e voluntário, dos pequenos empreendedores?
Mas a agilidade ou os ambientes corporativos não se sustentam só por método, argumento ou eficácia, e sim porque mobilizam afetos: pertencimento, reconhecimento, superação coletiva, sensação de avanço e até uma ideia de liberdade (mesmo que simulada). O "espírito do time" muitas vezes encobre a precariedade da estrutura, a arbitrariedade das decisões ou o fracasso do método.
Isso ecoa diretamente no que o Safatle argumenta: regimes de dominação não se impõem só por coerção racional, mas por administração afetiva. O "espirito do time", nesse sentido, não precisa convencer pela razão ele funciona porque oferece emoção, estética, mito (sensação de significado verdadeiro ou não, mesmo que fabricado, sensação). Foi tribalismo, senso de pertencimento, me refugiar durante a pandemia lendo e tentando entender como o fascismo funciona, assustado com a lógica absurda de muitos ao meu redor? É a fragilidade ou o tribalismo que impulsiona? Conseguimos sair desta lógica?
O ágil em particular deixou de ser método para virar forma de vida corporativa regulando comportamento, fala, tempo, relações e não apenas entregas. A empresa não quer só agilidade, quer que você seja ágil, o que transforma método em regime. Já me entristeci ao ouvir pessoas dizendo que levam a agilidade para a vida pessoal. Vida pessoal requer outras coisas além de produtividade e resultado. Não é típico do nosso tempo a vida Instamagrável?
A agilidade foi capturada. Se sua origem era técnica e pragmática, seu destino se tornou ideológico. O método não nasceu corrompido, mas foi cooptado como outros projetos emancipatórios antes dele (contracultura, gestão por propósito, software livre, movimentos sociais de base, economia colaborativa, feminismo corporativo).
Não é que a agilidade mente: ela foi instrumentalizada para mascarar experiencia dura e crua: trabalho é produzir para receber. Há muitos anos, um episódio em que estive envolvido se tornou, pra mim, emblemático. Ele ilustra como autonomia (ou neste caso sua promessa) é interpretada e como a comunicação pode ser atravessada por afetos, expectativas e ruídos simbólicos. Um analista experiente, colocado temporariamente em posição de liderança, reagiu com suspeita e hostilidade a um gesto de apoio. Pedi que me mostrasse um status report antes de enviá-lo, para ajudá-lo; fui interpretado como uma ameaça. O gesto foi lido como controle, imposição, deslegitimação. O problema não era a ação em si, mas a crença instalada. Ele reagia à sombra simbólica do gerente, ao fantasma do comando, à memória de um passado anterior de caos e ausência de limites, e não ao momento da colaboração. A crença cega no método funciona como fé; impede o entendimento, sufoca a escuta.
Não foi o status que causou o atrito. Foi a subjetividade. O gesto simples — "me mostra antes de enviar, te ajudo" — foi lido como ameaça, invasão, controle. Mas o que estava em jogo não era o conteúdo da fala, era o lugar simbólico do sujeito: a identidade de quem se acredita líder emergente colidiu com a imagem arquetípica do gerente opressor. O passado caótico da empresa, a ausência de limites e horários de trabalho, a pressão difusa pela performance: tudo isso compôs o pano de fundo afetivo para um mal-entendido inevitável.
No final então, foi sobre a subjetivação (a constituição da identidade dele). Lazzarato apontava que no capitalismo cognitivo, não basta produzir tarefas, é preciso produzir sujeitos compatíveis com o regime de produção. O analista não reagiu como alguém que nunca liderou (o que era o caso), mas como alguém que foi levado a acreditar que já liderava, bastando a ele crer nisso com força suficiente. A subjetividade exigida pelo trabalho imaterial — autônoma, performática, proativa — transforma o gesto mais banal (um pedido de apoio) em ameaça existencial.
Se eu também não tivesse passado por isto (com erros semelhantes), poderia esquecer que este é o problema da subjetividade contemporânea no trabalho: não se reage ao que é, mas ao que se acredita que é. O ego — essa ficção cultivada pela meritocracia emocional — torna-se frágil, hipersensível, combativo. Tudo vira disputa por reconhecimento. E o sucesso, antes coletivo, passa a ser experiência individualizada, ansiosa, defensiva.
O problema, para não falar de agilidade apenas, quando qualquer prática não é realmente compreendida, não é muitas vezes a simplificação, a pobreza de ideias, a miséria? Já ouvi no passado: “Faz um farol com a situação financeira, operacional, do projeto”. Sim! Claro! — e eu bato a mão na testa. “A simplicidade é o máximo da sofisticação” — dizem, citando uma frase atribuída a Leonardo da Vinci. A simplicidade a qual me refiro é a redução ingênua que serve para parecer que estamos no controle, mas que em sistemas complexos, é apenas uma redução estética. As perguntas realmente importantes neste caso permanecem sem resposta. Elegância sem profundidade é só pose. Emenda-se eventualmente com frases prontas típicas do ambiente corporativo como a chamada Lei de Kidlin: ‘Se você não consegue explicar de forma simples, é porque não entendeu.’ Respostas simples para problemas complexos existem, mas são raras e exigem mais trabalho do que parece. Muitas vezes, explicar de forma simples, em contextos complexos é por que não se compreendeu.
A saída é subverter, recriar, evoluir, mesclar práticas para atender contextos, sem simplificar ou fugir da dificuldade, da reflexão e do risco. Isto não vem de uma simples replicação. Este é o problema da pedagogia da auto-ajuda, onde coachs não só de agilidade, querem ensinar a viver, empreender e gestionar, pensar e resumir tudo a baby steps¹⁴ e otimismo. Sintomático, não?
Claro, às vezes pode parecer simples. Mas só porque alguém se esforçou para interpretar, entender o contexto, combinar repertórios, enfrentar contradições. Leva tempo.
Sempre que penso em simplificar, lembro da Navalha de Ockham — o princípio segundo o qual, entre explicações concorrentes, a mais simples tende a ser a correta. Mas essa ideia, muitas vezes, é mal compreendida. Ockham falava de economia explicativa, não de redução do fenômeno. A simplicidade a que ele se refere é a que explica melhor, com menos pressupostos — não a que reduz o real para caber em um slide.
"Meros códigos fazem um humano. A e C e T e G. O Alfabeto de você. Tudo vem de 4 símbolos. Como IA Eu só tenho 2. É a metade, mas duas vezes mais elegante" (adaptação livre de Blade Runner 2049). Quatro letras. Um ambiente. Como explicação, a elegância do mundo não exige propósito — em ambos os casos, basta que ela aconteça.
Algumas metodologias e práticas hoje se converteram justamente naquilo que diziam combater (incluindo a agilidade): prescrição. Algumas com algum grau de sofisticação (lantejoulas), mas ainda assim, prescrição. Claro, alguns seguidores ainda sonham com liberdade. A liberdade humana — o espírito realmente livre, questionador, demolidor de ídolos — que não brota de ideias repetidas e manuais. Não se emancipa ninguém com fórmula, não há pensamento vivo onde há obediência muda. “A autonomia se exerce, se fortalece e se consolida à medida que vai sendo vivida. Não se decreta, se conquista¹⁵”.
Viva Paulo Freire.
Nietzsche (sempre ele) não nos pede que abandonemos o medo — ele o denuncia como sintoma de uma vida ressentida, paralisada (engraçado por que ainda hoje há medo do Nietzsche e das suas ideias). O medo mais sutil: pensar por conta própria viver sem modelos, abdicar da proteção oferecida pelos métodos e práticas consagrados. Deixar de ser um seguidor, criar valores. Esse "sim" à vida, é o gesto mais potente de afirmação. Como Molly Bloom no final de Ulisses, do Joyce: "sim eu disse sim quero Sim" — uma entrega ativa, lúcida, à vida que pulsa e escapa de todo enquadramento. Vigor.
Voltando agora ao Aristóteles, a excelência (aretḗ), nesse sentido, não é conformidade com o esperado, mas recriação do que é possível. Só quem abandona o ressentimento pode inovar de verdade. Só quem não busca certezas (este é o problema de qualquer dogma) pode experimentar com profundidade, por que remove ao máximo os filtros. A vida como representação da realidade que eu crio diria Schopenhauer, que influenciou Nietzsche.
Pra criar este ambiente, repito a exaustão pra quem conheço, aprendi com a agilidade a desfazer a ilusão do controle. Fazendo uma conexão com o que falei mais cedo — inclusive o controle epistêmico que, como mostrou Hume, é só hábito disfarçado de certeza. A causalidade que afirmamos nas organizações é, em grande parte, superstição. O sol não nascerá amanhã por que eu quero.
Repetimos porque parece funcionar, mas não compreendemos as forças em jogo. Agimos por costume, não por conhecimento. Chamamos isso de empirismo, mas não é ciência. No fundo, o hábito funciona como defesa contra o real: contra a contingência, contra o imprevisível, contra a necessidade de decidir de novo a cada vez. É economia de energia, aceitar dogmas é economia de energia.
Transformar, portanto, é dizer "sim" à incerteza. É arriscar-se. É abrir mão das promessas fáceis de quem vende método como se fosse salvação.
A pergunta original — que com o tempo foi ampliada para: como criar soluções tecnológicas que entreguem valor continuamente, adaptáveis e alinhadas à realidade atual? — foi dissociada do seu contexto e transformada em método reprodutível, um ritual que mantém a forma, mas perde a abertura e a experimentação verdadeira, arriscada, corajosa, hardwork. A resposta se institucionalizou antes que o pensamento se aprofundasse, sem coragem para nomear o que está prejudicando, com medo de desagradar ou tomar decisões dificeis, o pensamento parou na superfície da resposta, e o problema voltou a se repetir com outra aparência (o que matou o RUP já foi dito a exaustão, não foi a falta de conhecimento? Eu acrescentaria, foi e é também para a agilidade, especialmente na gestão, falta de coragem!).
A agilidade é produto do nosso tempo, e possui ética compatível com o capitalismo tardio: adaptável, veloz, mensurável.
Mas sejamos claros: raramente vi a agilidade aplicada numa cultura que vivia um capitalismo meritocrático, aquele em que se mede rápido, troca rápido, e o resultado importa mais do que o discurso. Onde há frieza, pressão e consequência. E por mais estranho que pareça, foi ali que encontrei ética inegociável, responsabilização e critério.
Boa parte das vezes vi o capitalismo de compadrio: favorecimento, jeitinho, blindagem, ausência de responsabilização, vitimismo e infantilização.
E os resultados? Como estão os resultados?
E quanto ao método? Talvez devêssemos (como Montaigne ao defender Sebond), suspeitar mais dos fundamentos. Não há apologia sem interrogação.
E como Clarice, aceitar também o que escapa:
“Não entender. Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. [...] Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”¹⁶
Dostoievski dizia que Dostoiévski dizia que a beleza salvará o mundo. Só a beleza da Clarice salvará o mundo — a nossa humanidade que se importa.
¹ ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro I, 1095a15-20. ² SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado pelos Demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. ³ Idem. ⁴ HUME, David. Investigações sobre o Entendimento Humano, Seção IV. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Unesp, 2005. ⁵ LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso sobre a Servidão Voluntária. ⁶ NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Segunda dissertação, §12. ⁷ VIGOTSKI, Lev S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001. ⁸ HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. ⁹ BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 43. ¹⁰ Robson Rocha, New Business Account Manager na Entelgy Brasil. https://www.linkedin.com/in/robsonrocha/ ¹¹ Paráfrase inspirada em Hannah Arendt, leitura e reflexões sobre a banalidade do mal. ¹² NIETZSCHE, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. ¹³ NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral, I, §10 ¹⁴ What About Bob? (1991). Direção: Frank Oz. Com Bill Murray. Título em português: Nosso Querido Bob. ¹⁵ FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. ¹⁶ LISPECTOR, Clarice. Não entender. In: A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Escrever este texto provocou um momento de catarse. Foram muitos dias e noites intensas, após um longuíssimo período de letargia convenientemente autoimposta. Instigado e remoído percebi com clareza que precisava escrever mesmo com minha limitação; o alcance da minha linguagem é o alcance do meu mundo; só posso viver o que sou capaz de nomear.
Esta é minha jornada intelectual dos últimos 15 ou 16 anos, servindo como gestor, dentro de ambientes corporativos. Inteira minha, com méritos e defeitos, na era do chatGPT e Google, que consultei (além dos livros e da memória do que li), como a Barsa dos nossos tempos.
Gostaria de compartilhar os sentimentos de realização que tive ao escrever este texto e repensar. A leitura e a escrita são alegrias que menos gente sente hoje. A alegria que tive quando descobri Carl Sagan aos 15 anos, Clarice aos 16 ou quando comecei a sofrer com o Nietzsche aos 19. A alegria de compartilhar algumas ideias em um blog de poucos leitores há mais de 20 anos.
Não é uma trajetória menos digna pelos fracassos profissionais, projetos mal geridos, posicionamentos mal feitos ou pela tentativa — nunca concluída até agora — de seguir com cursos na área de humanas. Sempre foi uma busca por um significado que a tecnologia, por si só, não oferece. As humanidades são tudo que nos resta. Perceberemos melhor isso com o avanço da IA e do totalitarismo.
Teríamos resultados muito melhores, para dar já uma alternativa ao niilismo aparente deste texto, caso nossos currículos de formação em tecnologia nos ajudassem em interpretação de texto, visão crítica e ética.
O sucesso da agilidade é indiscutível, mesmo como epifenomeno, mesmo por motivos diferentes dos que muitos agilistas acreditam (como eu discuti no texto), mas deve regredir. As pessoas não estão preparadas para liberdade, são os ciclos. Ela vai ser incorporada, pelo menos as práticas convenientes. A agilidade ao esperar o melhor das pessoas "conduz elas aonde cumpre conduzílas" e trouxe pelo menos no inicio as mentes mais inquietas, era o melhor que podiamos fazer folks. A IA vem agora com uma nova pressão e uma nova forma de desestabilização. Aceleramos mais? Agora é a nova adaptação pra mudar tudo pra permanecer onde estamos.
Não há mágica para solucionar o problema corporativo que hoje é um problema de mundos, é um problema do mundo. Não cabe no modo automático, exige cuidado, exige reflexão: sentir, viver e sonhar. Eu tenho como exemplo de liderança, uma princesa feniciana da odisséia, re-escrita-desenhada por um dos poetas contemporâneos, que descobri a pouco tempo, Miyasaki (afetado diretamente pela IA sem ética): Nausicaa. Não a catarse bela, porém simplificada e messiânica do anime, mas a vida enquanto pugna (Nietzsche?) do mangá.
Não houve, até hoje, sofrimento no trabalho que uma hora de leitura não ajudasse a superar. Chateia-me, de verdade, neste exato momento, ler sobre escola cívico-militar e lembrar do legado do Vlado.
Que bom que nossa história não está no LinkedIn nem poderá se resumir a isto.
texto publicado originalmente no Linkedin
“While we will, if necessary, dine using the items on the right, we prefer to nosh on the left.” — Buffet Manifesto, Snowbird, 2001
Sei que falar de agilidade ou metodologia parece redundante porque a sensação é de que tudo já foi dito, e que seguimos presos ao lugar comum. Resolvi escrever para meus colegas mais próximos e equipe um pouco do que imagino ser útil na discussão do nosso dia a dia. Trato aqui enquanto pensamento, uma tentativa de entender o mundo corporativo e refletir sobre ele. Não se trata, de um ataque, mas de uma escolha, questionar e duvidar.
Pensamento não merece submissão, nem respeito, nem engajamento, nem idolatria, nem adesão. Pensamento merece resposta com pensamento, livre: é a apologia que faço a uma Agilidade.
Trabalho com pessoas diversas, que, mesmo vindas de contextos e culturas diferentes, partem de premissas semelhantes que, de algum modo, se cristalizaram e pararam de ser questionadas: um senso comum sobre como deve ser a liderança, como deve se comportar nossa voz e desejos dentro do ambiente corporativo.
São ideias que, à primeira vista, parecem consolidadas, mas carregam fissuras, tema que é o objetivo deste ensaio. Quero tatear e discutir este consenso (aparente?) ou se algumas dessas ideias precisam ser revistas.
Olhando para o que já vivi, clientes ou parceiros, houve muitos casos de sucesso, leves, positivos, experiências, os momentos de felicidade eudaimônica ("a felicidade é o bem supremo entre todos os bens realizáveis pela ação"¹) com a sensação de sentido profundo, coerência interna, mais do que prazer imediato, significado, pertencimento (isto existe). Mas esses momentos não são maioria, longe disto!, e exigem para acontecerem, coincidência de fatores simultâneos que podem se resumir ao chavão pessoas certas no lugar certo. Não é trivial. E eu falo do descompasso estrutural entre discurso e prática, entre método e realidade e os motivos que fazem projetos funcionarem que nem sempre os que se acredita.
A agilidade, por exemplo, a despeito da visão e conhecimento de vários dos criadores e nomes significativos da área (Cockburn, Fowler), que tinham claras as limitações e reflexões necessárias para desenvolver software, na sua aplicação e adoção, é muitas vezes conduzida por pessoas desconectadas da prática concreta e das tecnologias.
Quando a agilidade se expandiu, após seu sucesso inicial, em grande parte (mas não só) resultado da excelência e qualidade dos criadores e do ecossistema que se formava em torno deles, ganhou corpo, e essa credibilidade a deteriorou em sua próxima fase: a institucionalização (vi isto acontecer de forma similar com o CVV). Nesse momento, ela começou a se descolar dos princípios. Transformada em produto, tribo, dogma, perdeu o valor original, artesanal, crítico, experimental (gosto de verdade construída), para se transformar em produto embalado para escala, uma franquia. Passou a depender de marketing e de seguidores.
Não muito tempo depois, a agilidade parou de ser uma exclusividade dos times de desenvolvimento e entrou nas salas de reunião. De forma apressada e equivocada, globalizou-se. Compreendo a crítica que pode surgir aqui: elitismo. Mas a crítica não é à disseminação, mas à banalização. Elitismo é assumir, com condescendência disfarçada, que só pensa quem teve acesso aos círculos certos, de preferência os da Ivy League (e sim, com ironia e sem ressentimento: sei que Cockburn estudou na Europa). Arrogância não está em cobrar reflexão, mas em crer que a lucidez é monopólio acadêmico ou cultural. Mais que possível é extremamente necessário situar em cada contexto as pŕaticas (voltarei a falar do tema mais a frente quando falar em Hofstede).
Elitismo foi também a crítica dirigida ao Nietzsche, especialmente à sua proposta do “Além-do-homem” (Übermensch), interpretada como desprezo pelos “fracos” quando na verdade ele trata da superação. Nietzsche enxergava isto tão bem, esse tipo de desprezo pelas pessoas, quando ria, já no início do Zaratustra, de quem dizia amar a humanidade, mas vivia longe dela. Também aqui: quem louva os times, mas os considera incapazes de pensar, não os valoriza — instrumentaliza.
Voltando a agilidade, foi apenas alguns anos depois que ela realmente se perdeu. Vi isto acontecer, quando agilistas sem conhecimento técnico, passaram a trocar empirismo adaptativo por positivismo mecânico de processos, sequência chata de buzzwords desvinculada da realidade onde atuamos. Descaracterizou-se.
Como apoiar no direcionamento certo, compreendendo verdadeiramente por que e para quem é necessário realizar? Como apoiar o time com perguntas coerentes entendendo a complexidade e o apoio necessário, a abordagem na interlocução e a iniciativa a priorizar, antecipando, mitigando? Um consultor crítico, inquieto, mergulhado no entendimento, e sem heroismo ególatra. Sem de fato, compreender, as dinâmicas, os problemas, faz facilitação no escuro, ainda mais com a obsolecencia de muitas métricas ágeis, com o advento da IA. O que significa “velocidade” em ambientes que integram IAs no fluxo?
Se este mesmo facilitador serve de interlocutor ou ventriloco (desperdício) com o cliente ou gestão da empresa o time é infantilizado, não aprende a negociar, não constrói vocabulário, não entende o impacto do que entrega e a mediação constante vira tutela com a comunicação perdendo agilidade. É aborrecido ver alguém que desconhece tecnologia atuar; ele vira eterno cotovê-lo, falando do que não compreende.
Por outro lado, se ele apenas marca as reuniões e o cliente entende que ele não tem nada a agregar que não enriquece o debate, prefere contratar T&M tratando a relação com o fornecedor como uma alocação, internalizando a gestão. Perde-se o sentido de consultoria.
Para mim é claro, quando então se perpetua no time contradiz o princípio que afirma. Sem isto, é comprometida toda a ideia de autonomia. Muitos analistas, com 5 ou 10 anos trabalhando em projetos, acumulam, compartilham e fazem muito bem este papel. Esqueça formação acadêmica, entre os melhores profissionais de TI que conheci, havia físicos, engenheiros de diversas áreas etc. A questão está no grau de envolvimento do "Puro agilista", na solução, do entendimento. Claro que generalização sobre um "tipo" é estúpida, sempre existem exceções, pessoas que em determinados contextos podem gerar ótimos resultados, mas falo aqui especificamente dentro de consultorias que mesmo sem serem grandes (ou talvez exatamente por isto) são dinâmicas, exigentes, complexas.
O manifesto ágil veio com as premissas: priorizar "indivíduos e interações", "software funcionando" (...). Focar onde os modelos preditivos fracassaram, ambientes complexos e dinâmicos. Mais do que eficiência, era clara a necessidade de flexibilidade e adaptação.
A pergunta era algo assim: como desenvolver software que entregue valor, qualquer que seja a medida disso, de modo contínuo, adaptável e alinhado ao que realmente é necessário, em vez de seguir planos rígidos que fracassam na prática? Como criar software de forma viva, iterativa, em contato com a realidade mutável dos problemas humanos e organizacionais?
Refletindo um pouco mais, um passo atrás ainda é necessário: o Ágil veio para responder o quê? Ineficiência da entrega de software? Era este o problema? Como tornar visível e eficiente o fluxo de trabalho existente, sem mudanças bruscas, respeitando o sistema atual? Dificuldade de diálogo entre negócio e tecnologia? Como manter a autonomia e alinhamento em organizações que crescem rapidamente, sem perder cultura e velocidade? Impossibilidade de prever escopo em sistemas complexos ou em contínuo movimento? Como adaptar a leveza do ágil a diferentes contextos, priorizando segurança, criticidade e tamanho da equipe? Cada resposta, ou a seletividade das perguntas, leva a respostas/metodologias diferentes, complementares ou não. Na filosofia da ciência, existe um nome pra isto: reconstruções pós-fato. Não estou discutindo da utilidade, todas elas práticas, aplicáveis. Feitas por quem vive a realidade do desenvolvimento, por quem de fato as utiliza!
Outro ponto, que enfrentamos mais nos últimos 10 ou 12 anos, é a gestão de projetos de tecnologia por pessoas que desconhecem a própria tecnologia que gerenciam e ignoram as oportunidades, riscos e desafios que enfrentamos... Não o VP ou o diretor distantes, a gestão operacional, imediata, agora responsável por pessoas, fornecedores, processos, tecnologias e complexidades que julga compreender. O dinheiro migrou para a área de negócio: é consenso que todos precisam estar alinhados ao negócio. Alinhados ao negócio ou submissos ao negócio?
O que falei sobre os agilistas ganha novas dimensões quando os próprios clientes, sob pressão constante por resultados, não aderem a qualquer lógica processual — nem à que eles mesmos contrataram e, em sua urgência, frequentemente atropelam. A entrega só não é comprometida porque o fornecedor antecipa, sobrecarrega, ajusta, apaga incêndios, quase sempre à revelia de qualquer planejamento. Ouço isso com frequência de consultorias de todos os portes em diferentes desafios.
Onde se encaixa a área de tecnologia?, que muitas vezes acreditam ter internalizado na contratação de duas pessoas dentro da área de negócio. Servidora acessória? Informada das decisões, enquanto a IA e a revolução tecnológica se aprofundam e aceleram?
A expectativa da área de negócio torna-se irreal, experiencia de projeto ágil, com preço de projeto de escopo fechado, com gestor que adivinhe sonhos e pensamentos. Uma equipe aberta a mudanças que também sugira melhorias e tenha uma visão de produto durante a execução do projeto. Mas datas e o custo do projeto não podem ser alterados! Se quem gestiona não tiver malícia, entrega-se o pior dos dois mundos: custos nas alturas fora do prazo. Ninguém vai pagar.
Na introdução citei um ponto, de modo geral, razamente debatido e considerado: o nosso contexto.
Geert Hofstede, realizou, entre as décadas de 1960 e 1970, uma das pesquisas mais influentes sobre cultura organizacional analisou dados de funcionários da IBM em mais de 70 países e identificou dimensões culturais que demonstram como valores coletivos moldam comportamentos em ambientes de trabalho e sociedades. Os comportamentos e valores de seus funcionários variavam significativamente conforme o país o que indicava que a cultura nacional tinha mais influência do que a cultura corporativa.
Algumas dimensões culturais propostas por Hofstede incluiam temas caros a agilidade: distância do poder, o individualismo vs. coletivismo, aversão à incerteza, orientação de longo prazo vs. curto prazo, indulgência vs. restrição.
Práticas organizacionais (agilidade?) não podem portanto, concluiu o estudo, serem transplantadas mecanicamente entre contextos culturais distintos sem levar em conta as bases simbólicas e coletivas de cada sociedade. Nem todo modelo portanto funciona da mesma forma no Brasil, nos EUA ou no Japão, pois o pano de fundo cultural altera as expectativas, os comportamentos e até a maneira como se entende o papel da liderança, da hierarquia, da colaboração e da autonomia.
O Brasil, com alta distância de poder, baixa autonomia e aversão à incerteza, exige abordagens próprias, não cópias de modelos escandinavos ou norte-americanos. Analises como a de Henry Pereira, ou o artigo acadêmico de Lopes et al. que reforça a falta de estudos nacionais sobre agilidade situadamente aplicada no Brasil, nos falam desta necessidade.
Mas o mercado brasileiro ainda consome métodos prontos (e rentáveis modelos de certificação importados) como se fossem neutros.
Nos falta um corpo empírico próprio. Mais grave que aplicar a agilidade mal é aplicar sem pensar ou desconhecendo estas variáveis. Importa-se o formato sem importar os fundamentos.
E a confusão da agilidade com ciência? Claro que não são os criadores, mas aplicadores vez por outra que escorregam confundindo. Algumas vertentes da agilidade especialmente no seu discurso corporativo desde sempre se apropriam da linguagem do empirismo para vender legitimidade. O empirismo do ágil não é empirismo científico rigoroso, ele é meramente operacional. Como metodologia, o agil carrega consigo uma epistemologia, um conjunto implícito de suposições sobre o que conta como conhecimento e validação prática (não se trata do aparato formal das ciências). Surge então um fetiche epistemológico (o desejo secreto de quem teme a dúvida). Pega-se a palavra empirismo, associa-se a ciencia e temos uma ideia equivocada de validação. Nem todo modo de agir é, por si só, um modo de conhecer (Merleau-Ponty, Dewey, Rorty). É um otimismo ingênuo achar que a eficácia prática prova a verdade epistemológica. Um método vira uma ilusão simplória de resposta.
Acrescento ainda que estas escolhas e suposições formam estruturas que não aparecem, mas que sustentam o discurso. Se elas não forem compreendidas, a prática se descola da realidade, e tende a se tornar simulacro. Uma metodologia não explica a realidade. Não falamos sobre "a verdade".
Muito do que se afirma sobre a agilidade carrega uma aura de evidência, mas não resiste a exame rigoroso. Replicabilidade? Nem de ambientes, times ou lideranças (e seus estados), nem projetos — e o que chamamos de "sucesso da agilidade" pode ter acontecido, só não posso afirmar com os dados que temos. Uma hipótese e não digo que seja verdade, mas uma hipótese que imagino agora: combinação de pessoas competentes, talvez mais atualizadas ou com fôlego novo, abertas à experimentação, em contextos férteis (ainda só suposição). Pela natureza dos projetos poderia haver maior autonomia e boa vontade — inclusive com o erro. "Ausência de evidência não é evidência de ausência"² pode realmente ser isto, mas eu completaria, "Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias"³. Que algo tenha dado certo não implica causalidade direta com o método, tampouco validade universal. Do ponto de vista da filosofia é ainda pior. Para acreditar nisso é preciso esquecer Hume: o sol ter nascido ontem, ou em todas as manhãs anteriores, não é garantia lógica de que nascerá amanhã, embora se veja casualidade, experiência não é certeza. “Nenhuma conclusão da razão é capaz de nos dar uma justificativa para a suposição de que o futuro se conformará ao passado. Todos os argumentos extraídos da experiência, portanto, são efeitos do costume, e não do raciocínio⁴”. Por isso, em contextos complexos e líquidos como os que vivemos, falar em forecast como se fosse previsão confiável é wishful thinking.
Essa confusão entre prática e validade já apareceu em outros debates públicos recentes, inclusive na folha de são paulo. Natalia Pasternak, cientista de formação, alerta sobre o uso abusivo da palavra "ciência" como selo, recurso de autoridade. E está certa: dizer que algo é “científico” não o torna verdadeiro, nem legítimo, só encobre um vazio de fundamentação. É o mesmo que vejo quando a agilidade evoca "empirismo" sem qualquer rigor, porque testa hipóteses no dia a dia. Chamar isso de ciência é, no mínimo, uma bobagem.
Que Bobagem! escrito pela Pasternak é um livro interessante justamente por tratar do tema com leveza e fluidez. Em tempos corridos e imediatistas, uma leitura assim acessível é quase um alívio. Dá pra ler em uma sentada.
Christian Dunker, psicanalista respondeu publicamente ao livro da Natalia (a psicanalise é um dos temas tratados pelo livro), e pondera que nem todo saber precisa seguir os moldes das ciências naturais. Há validações que se dão pela experiência, pela clínica, pela escuta, pela reflexão, pela prática situada — e isso não é um defeito. É outra forma de operar no mundo. A questão, portanto, não é se a agilidade é ou não ciência. A questão é reconhecer que ela tem sua própria lógica, e que essa lógica não autoriza o uso do discurso científico como forma de blindagem contra o pensamento. Não é “ciência”. É método. E método, como todo pensamento, não merece adesão. Merece resposta.
O que considero ser ainda mais frágil é a fé do método. Em diversos contextos já se disse: são as pessoas, estúpido! Estamos em um contexto, em um pais, em um momento... Não, não há mágica.
Como ter certeza do cliente descobrindo valor ao longo do processo, se a iteração não é autossuficiente, e na realidade muitas vezes falta maturidade, vocabulário, contexto ou as vezes ética e temos no cerne do processo da agilidade a confiança (por quem pede, para quem executa).
Confiar que equipes auto-organizadas farão boas escolhas técnicas e de negócio? Sem ambiente favorável e perfis adequados (que não estão sobrando), a hierarquia formal ou informal domina e decisões seguem nas mãos de quem pouco compreende, do outro lado, o que está em jogo. Decisões que interferem negativamente nos objetivos da alta gestão, da equipe e do próprio negócio.
A nossa servidão por se tratar do cliente, é muitas vezes voluntária, providencial e cômoda, mesmo em ambientes sadios, 'É incrível como os homens, sem coação nem necessidade, se deixam dominar com tanta facilidade'⁵, me entristece esta resignação bovina (e a tenho visto em demasia, por que ela é uma diminuição da tensão). Mas ela não seria também uma reação à indiferença com que muitos são tratados, alijados de praticar autonomia, decisão, colher benefícios, reconhecimento, tratados no fundo como meros joguetes? Poucas pessoas querem realmente responsabilidade em contextos onde assumir riscos não é recompensado ou valorizado. James Joyce tinha uma frase brilhante: "Que minha pátria morra por mim". Quando li Ulisses a muitos anos sempre entendi esta frase como a recusa amarga a morrer por uma coletividade que abandona seus próprios líderes. Joyce nunca perdoou a Irlanda que execrou Parnell em nome da moral de rebanho. O que resta: cinismo ou resignação.
Auto-organização e accountability reais só florescem em ambientes que combinam segurança com exigência — e isso não se improvisa. É cultura, não canvas e powerpoint.
Basta a transparência e diálogo? Panaceia. Não há acordo onde há interesses e potências desalinhados, é da natureza das coisas, insolúvel. Potência, no sentido nietzschiano — não como dominação bruta, mas como expansão ativa de si, criação de valores⁶. Quer aproveitar o melhor disto? Promover a cultura! que não é neutra e demanda para se desenvolver, tempo, reflexão, coragem, perdas! Não dá para se ter tudo. É preciso se escolher o que se quer, o que se é. É comum na cultura corporativa não se desejar verdadeiros criadores, desejar ajustados, adesão cega, repetição e docilidade. Mas ajustados não criam... São só rebanho, que não transforma, e todos não imploramos por inovação e accountability?
As cerimônias são espaço de alinhamento?, mas e o medo e a linguagem truncada, as diferenças culturais e de perspectivas? Teatro do absurdo, entendimento razo. Quando estudei na faculdade a história social do conhecimento, comecei a entender por que “A compreensão efetiva e plena do pensamento alheio só se torna possível quando descobrimos a sua eficaz causa profunda afetivo-volitiva⁷”. A nossa leveza por vezes só esconde que somos herdeiros do jeitinho, da fuga do conflito (a bolha aqui particularmente funciona bem), da passividade agressiva (que homem cordial!), cheios de nós mesmos e da nossa esperteza, do patriarcalismo e do favoritismo.
Fatiar valor em incrementos? há entregas que exigem orquestração, visão e tempo, que nem sempre cabem em backlog. Iterar virou mantra!, e em certos sistemas errar rápido não é aceitável. Software para seguradora? Banco? Segurança? E talvez por isso pensemos que tudo cabe, mesmo quando o pensamento pede reflexão, tempo, profundidade e silêncio. Dizem que entregas contínuas levam ao aprendizado, mas sem tempo para respirar, pensar torna-se exceção. É possível compreender/aprender sem reflexão? E a gestão do dinheiro, "o capital" ironia, sem entendimento do problema, não tem paciência para o orgânico: tolera o ágil só enquanto ele acelera (e perde dinheiro com a falta de visão, o maniqueísmo).
A ideia pueril de que código muda a qualquer hora também desconsidera a realidade técnica: legados frágeis, integrações sensíveis, arquitetura que não permite improviso, sistemas de missão crítica ou onde um desvio implica em milhões. Os puxadinhos para se adequar e resolver estes problemas, fragilizam, não fortalecem a metodologia.
Acredita-se que pôr pessoas juntas gera colaboração, quando na prática, confiança não nasce por proximidade. Supõe-se que todos compartilham a noção do que é um bom trabalho, mas o que é qualidade para um é preciosismo para outro. Costuma-se confiar excessivamente na clareza da linguagem, quando ela é, quase sempre, opaca. É comum assumir que entregar algo equivale, automaticamente, a gerar valor, é sinônimo de valor, mas repetir movimento não é avançar.
Procura-se pessoas disponíveis, inteiras, lúcidas, mas estou nos vendo fragmentados, cansados, distraídos. Cansados!, da mesmice, da burocracia, da estupidez, da basófia, da disputa nonsense! Repete-se a exaustão sobre a auto-organização, tão desejada, que exige maturidade raramente presente. E a transparência, quando total (exigida!), vira vigilância. Por fim, acredita-se em metodologia neutra. Metodologia carrega visão de mundo, traz sua ética, ontologia (ideia implícita de ser humano que esta embutida no método, autônomo, bom, iterativo, toma boas decisões com informação suficiente etc..) e quem apenas segue não se dá conta disso. Talvez por isso a adaptação constante soe tão virtuosa, mesmo quando esgota.
E é justamente nesse ponto — os resultados e o esgotamento em que a contradição se intensifica. Em consultorias de tecnologia, o responsável pelo delivery, antes estratégico e técnico, foi capturado (inocência) pela lógica do acúmulo de papéis. De articulador passou a acumulador: inovação, metodologia, delivery-tecnologia, captação e retenção de talentos, financeiro, processos internos, pré venda, novos negócios-vendas.
Byung-Chul Han já dizia que o sujeito da performance é também o sujeito da autoexploração. A cultura do “sim”, da hiperexposição, da eficiência sem fim — travestida de liberdade e protagonismo — criou um modelo de gestão que não sustenta o pensar, apenas o responder. “O sujeito de desempenho é ao mesmo tempo senhor e escravo. Ele é simultaneamente explorador e explorado. [...] O sujeito de desempenho se explora até que entre em colapso⁸”. Nietzsche começa e Byung-Chul Han termina. O que começa com vontade de potência termina no esgotamento performativo. BurnOut? O que se exige não é decisão com critério, mas reação. O excesso de positividade destrói a possibilidade de crítica, que soaria no meio do teatro, como "remar ao contrário". O que fazer? Em vez de agir, performar, em vez de dizer não, acumular. A saturação é uma forma moderna de submissão, a agilidade só reforçou isto. É o discurso que governa, não mais a pessoa.
Claro que não se trata de um colapso individual; embora favoreça, o isolamento e, com ele, a dificuldade de pedir ajuda. O outro passa a ser visto com excesso de alteridade, distância; a empatia rareia. E essa dificuldade não é neutra: ela é útil. A separação dos corpos enfraquece os vínculos e não facilita a gestão.
Quando olho para o isolamento, um episódio banal, mas didático. Eu e três gerentes da minha equipe íamos juntos a um evento da companhia. Combinei tudo com antecedência, pedi o carro, queria trocar uma ideia antes; alinhar rápido, descontrair. Eu falaria no evento, e limitação, detesto falar. Pelo menos dois deles totalmente cientes disto. Ninguém atendeu o telefone. Estavam no café, cada um no seu tempo. Subi para buscá-los, dois minutos. Quando desci, tinham ido. Pegaram o Uber. Todos sabiam que havia outro Uber a caminho — chegou pouco depois, fui com o pessoal de outra área. Nenhuma afronta direta, nenhum atrito. Só aquela coreografia corporativa sutil onde cada um se administra. Ausência com aparência de normalidade. Relações sem responsabilidade recíproca, afinal, não preciso de apoio, preciso de subordinados. Em O Novo Espírito do Capitalismo, Boltanski e Chiapello mostram como a crítica foi cooptada pela lógica empresarial: flexibilidade, criatividade, engajamento (lembra da agilidade?, mera coincidência o match?); tornaram-se ferramentas do capital, e não do pensamento. É exatamente o que acontece com os líderes. São convidados a serem “inspiradores”, “protagonistas”, “empáticos” — nunca lúcidos. Lúcidos demais, seriam perigosos. “O novo espírito do capitalismo recupera as críticas dirigidas a ele, em particular as críticas de tipo artístico, integrando-as parcialmente, e assim tornando-as inofensivas”⁹.
Um profissional bacana que trabalha comigo me diz o tempo todo: "Programar é arte¹⁰." Só posso concordar discordando. Arte convoca beleza, inquieta, suspende o mundo, produz sonho. Ninguém goza com um código bem escrito. E Joyce diria que a arte é epifania: aquilo que não explica, mas revela. Pequenas epifanias encontro na Clarice e na Carolina Maria de Jesus. Pode haver arte em um pequeno trecho de comentário deixado, mas jamais no código em si. Duchamp abriu essa possibilidade, mas não nos deu passe livre para a banalização: colocou um mictório num museu e disse que era arte, porque afirmou que era. O gesto artístico está no deslocamento, na ironia, na crítica. E não na simples repetição. Só consigo ler no final, como um alívio estético. É a tentativa de redimir o tempo vendido (vida), pela fantasia de criação.
Neste momento conto com o Mujica para esclarecer as coisas “Quando compramos algo, não pagamos com dinheiro. Pagamos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro.” Quando a vida perde sentido, o trabalho pode virar refúgio e às vezes é o único disponível. Se já não encontramos prazer na filosofia, nas relações, na arte verdadeira ou na densidade de uma vida interior, passamos a operar o trabalho como gerador de significado. E ele pode ser. Pode trazer alegria. A busca pela excelência ainda pode ser uma forma legítima de realização — dentro da lógica da eudaimonia. Mas se, dentro do trabalho, tudo que nos resta é entregar, e não realizar com excelência, então a própria lógica se dissolve. Resta só movimento. E cansaço.
No cenário do responsável pelo delivery, a sobrecarga e o cansaço, não redimem. Por que há covardia, quando não se recusa e se cala frente à tarefa impossível. Por que se corrobora com a manutenção do delírio, sustenta-se a farsa da eficiência. Quando tudo vira prioridade, nada é enfrentado. Como Nietzsche advertia, a moral do rebanho (do senhor e do escravo) se esconde muitas vezes e abdica-se da vontade de potência para manter a ordem, mesmo que seja a ordem da decadência. A decadência, onde quero chegar, o ressentimento moral, para Nietzsche, nasce justamente da incapacidade de afirmar a própria potência. Esta incapacidade, leitura minha, de certo modo, se opõe à ideia de felicidade eudaimônica que não se sustenta no julgamento do outro, mas na realização de uma vida com coerência interna, sentido e expressão afirmativa da própria potência (em Aristóteles, entendo que mais serena, quase budista). Não consigo discordar do Nietzsche (e como seria?), que vida plena não precisa ser calma ou pacífica, mas uma afirmação, mesmo diante da dor, do risco e da contradição. Não é sobre poder sobre os outros, mas intensidade de ser, capacidade de autoafirmação criadora.
A metodologia, nesse cenário, não é neutra. Se ela é aplicada sem consciência do tipo de subjetividade que está produzindo, se não leva em conta o que exige dos corpos e das mentes, ela se torna um disfarce técnico para um problema moral da boa e velha politicagem...
Se o projeto, enquanto consultoria, implode, é mais do que faltar tempo para pensar, mas sobretudo porque pensar se tornou um risco político. Os diretores sobrecarregados se tornaram, paradoxalmente, os garantidores da paralisia.
A paralisia não nasce da ineficiência, mas da hesitação frente ao impacto real do pensamento. Pensar com rigor desestabiliza, exige revisão de crenças, confronta o grupo, impõe escolhas. O risco não é só mudar de direção, é de mostrar que corremos pro lado errado e estamos ainda mais longe (este deveria ser o verdadeiro espirito que a agilidade poderia trazer). Pensar, neste cenário, não é bem-vindo. Por quê? Para quem? “Pensar é perigoso. Mas não porque leva à ação; porque nos impede de aceitar o inaceitável. ¹¹” Isso é ética.
Este é um ponto-chave. Por que algumas pessoas são mais suscetíveis à obediência, mesmo quando ela fere seus valores, e outras resistem? A filósofa Hannah Arendt argumenta que a diferença entre os que obedecem e os que resistem está no pensamento crítico como hábito interno. Ela não fala de QI, nem de cargo, nem de caráter, mas da capacidade de parar, refletir, e julgar moralmente. Ter coragem e perguntar: 'Isso que estou fazendo pode ser justificado perante qualquer outro ser humano?' Não cai no dualismo tacanho, bom ou mal, mas fala do esvaziamento da consciência.
Stanley Milgram, em sua famosa experiência sobre obediência (várias vezes passei este video para gerentes e coordenadores da equipe), chegou a uma constatação que ecoa a tese de Arendt: pessoas comuns, sem traços sádicos ou cruéis, podem agir contra seus próprios valores dentro de um ambiente que legitima a autoridade e dissolve a responsabilidade. A obediência, aqui, também não é fruto da maldade, mas da anestesia uma vez que a responsabilidade é de quem pede, não de quem executa. O mal, na maioria das vezes, não exige monstros, mas apenas pessoas dispostas a agir como engrenagens, seguidores que obedecem sem pensar.
Já foi dito que o problema não era este ou aquele mestre, o problema são os seguidores, os que nunca criaram. Os que acreditam cegamente (também no C-Level). Aqueles que encontraram sua tribo, sua identidade, sua paz, sua voz! no senso de pertencimento ao dogma... Alguém quer saber da verdade, ou trata-se apenas de sentir-se bem e fundamentado? As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras¹²". Os que se consideram da tribo ágil, os que se consideram da tribo do board. “Toda convicção é uma prisão¹³”. E a agilidade — ou, além dela, o próprio modo de ver o mundo corporativo — tornou-se exatamente isso: prisão voluntária que regula comportamento, fala, tempo, relações. Prende sem algemas pela adesão. É assim também o capitalismo tardio, entusiasmado e voluntário, dos pequenos empreendedores?
Mas a agilidade ou os ambientes corporativos não se sustentam só por método, argumento ou eficácia, e sim porque mobilizam afetos: pertencimento, reconhecimento, superação coletiva, sensação de avanço e até uma ideia de liberdade (mesmo que simulada). O "espírito do time" muitas vezes encobre a precariedade da estrutura, a arbitrariedade das decisões ou o fracasso do método.
Isso ecoa diretamente no que o Safatle argumenta: regimes de dominação não se impõem só por coerção racional, mas por administração afetiva. O "espirito do time", nesse sentido, não precisa convencer pela razão ele funciona porque oferece emoção, estética, mito (sensação de significado verdadeiro ou não, mesmo que fabricado, sensação). Foi tribalismo, senso de pertencimento, me refugiar durante a pandemia lendo e tentando entender como o fascismo funciona, assustado com a lógica absurda de muitos ao meu redor? É a fragilidade ou o tribalismo que impulsiona? Conseguimos sair desta lógica?
O ágil em particular deixou de ser método para virar forma de vida corporativa regulando comportamento, fala, tempo, relações e não apenas entregas. A empresa não quer só agilidade, quer que você seja ágil, o que transforma método em regime. Já me entristeci ao ouvir pessoas dizendo que levam a agilidade para a vida pessoal. Vida pessoal requer outras coisas além de produtividade e resultado. Não é típico do nosso tempo a vida Instamagrável?
A agilidade foi capturada. Se sua origem era técnica e pragmática, seu destino se tornou ideológico. O método não nasceu corrompido, mas foi cooptado como outros projetos emancipatórios antes dele (contracultura, gestão por propósito, software livre, movimentos sociais de base, economia colaborativa, feminismo corporativo).
Não é que a agilidade mente: ela foi instrumentalizada para mascarar experiencia dura e crua: trabalho é produzir para receber. Há muitos anos, um episódio em que estive envolvido se tornou, pra mim, emblemático. Ele ilustra como autonomia (ou neste caso sua promessa) é interpretada e como a comunicação pode ser atravessada por afetos, expectativas e ruídos simbólicos. Um analista experiente, colocado temporariamente em posição de liderança, reagiu com suspeita e hostilidade a um gesto de apoio. Pedi que me mostrasse um status report antes de enviá-lo, para ajudá-lo; fui interpretado como uma ameaça. O gesto foi lido como controle, imposição, deslegitimação. O problema não era a ação em si, mas a crença instalada. Ele reagia à sombra simbólica do gerente, ao fantasma do comando, à memória de um passado anterior de caos e ausência de limites, e não ao momento da colaboração. A crença cega no método funciona como fé; impede o entendimento, sufoca a escuta.
Não foi o status que causou o atrito. Foi a subjetividade. O gesto simples — "me mostra antes de enviar, te ajudo" — foi lido como ameaça, invasão, controle. Mas o que estava em jogo não era o conteúdo da fala, era o lugar simbólico do sujeito: a identidade de quem se acredita líder emergente colidiu com a imagem arquetípica do gerente opressor. O passado caótico da empresa, a ausência de limites e horários de trabalho, a pressão difusa pela performance: tudo isso compôs o pano de fundo afetivo para um mal-entendido inevitável.
No final então, foi sobre a subjetivação (a constituição da identidade dele). Lazzarato apontava que no capitalismo cognitivo, não basta produzir tarefas, é preciso produzir sujeitos compatíveis com o regime de produção. O analista não reagiu como alguém que nunca liderou (o que era o caso), mas como alguém que foi levado a acreditar que já liderava, bastando a ele crer nisso com força suficiente. A subjetividade exigida pelo trabalho imaterial — autônoma, performática, proativa — transforma o gesto mais banal (um pedido de apoio) em ameaça existencial.
Se eu também não tivesse passado por isto (com erros semelhantes), poderia esquecer que este é o problema da subjetividade contemporânea no trabalho: não se reage ao que é, mas ao que se acredita que é. O ego — essa ficção cultivada pela meritocracia emocional — torna-se frágil, hipersensível, combativo. Tudo vira disputa por reconhecimento. E o sucesso, antes coletivo, passa a ser experiência individualizada, ansiosa, defensiva.
O problema, para não falar de agilidade apenas, quando qualquer prática não é realmente compreendida, não é muitas vezes a simplificação, a pobreza de ideias, a miséria? Já ouvi no passado: “Faz um farol com a situação financeira, operacional, do projeto”. Sim! Claro! — e eu bato a mão na testa. “A simplicidade é o máximo da sofisticação” — dizem, citando uma frase atribuída a Leonardo da Vinci. A simplicidade a qual me refiro é a redução ingênua que serve para parecer que estamos no controle, mas que em sistemas complexos, é apenas uma redução estética. As perguntas realmente importantes neste caso permanecem sem resposta. Elegância sem profundidade é só pose. Emenda-se eventualmente com frases prontas típicas do ambiente corporativo como a chamada Lei de Kidlin: ‘Se você não consegue explicar de forma simples, é porque não entendeu.’ Respostas simples para problemas complexos existem, mas são raras e exigem mais trabalho do que parece. Muitas vezes, explicar de forma simples, em contextos complexos é por que não se compreendeu.
A saída é subverter, recriar, evoluir, mesclar práticas para atender contextos, sem simplificar ou fugir da dificuldade, da reflexão e do risco. Isto não vem de uma simples replicação. Este é o problema da pedagogia da auto-ajuda, onde coachs não só de agilidade, querem ensinar a viver, empreender e gestionar, pensar e resumir tudo a baby steps¹⁴ e otimismo. Sintomático, não?
Claro, às vezes pode parecer simples. Mas só porque alguém se esforçou para interpretar, entender o contexto, combinar repertórios, enfrentar contradições. Leva tempo.
Sempre que penso em simplificar, lembro da Navalha de Ockham — o princípio segundo o qual, entre explicações concorrentes, a mais simples tende a ser a correta. Mas essa ideia, muitas vezes, é mal compreendida. Ockham falava de economia explicativa, não de redução do fenômeno. A simplicidade a que ele se refere é a que explica melhor, com menos pressupostos — não a que reduz o real para caber em um slide.
"Meros códigos fazem um humano. A e C e T e G. O Alfabeto de você. Tudo vem de 4 símbolos. Como IA Eu só tenho 2. É a metade, mas duas vezes mais elegante" (adaptação livre de Blade Runner 2049). Quatro letras. Um ambiente. Como explicação, a elegância do mundo não exige propósito — em ambos os casos, basta que ela aconteça.
Algumas metodologias e práticas hoje se converteram justamente naquilo que diziam combater (incluindo a agilidade): prescrição. Algumas com algum grau de sofisticação (lantejoulas), mas ainda assim, prescrição. Claro, alguns seguidores ainda sonham com liberdade. A liberdade humana — o espírito realmente livre, questionador, demolidor de ídolos — que não brota de ideias repetidas e manuais. Não se emancipa ninguém com fórmula, não há pensamento vivo onde há obediência muda. “A autonomia se exerce, se fortalece e se consolida à medida que vai sendo vivida. Não se decreta, se conquista¹⁵”.
Viva Paulo Freire.
Nietzsche (sempre ele) não nos pede que abandonemos o medo — ele o denuncia como sintoma de uma vida ressentida, paralisada (engraçado por que ainda hoje há medo do Nietzsche e das suas ideias). O medo mais sutil: pensar por conta própria viver sem modelos, abdicar da proteção oferecida pelos métodos e práticas consagrados. Deixar de ser um seguidor, criar valores. Esse "sim" à vida, é o gesto mais potente de afirmação. Como Molly Bloom no final de Ulisses, do Joyce: "sim eu disse sim quero Sim" — uma entrega ativa, lúcida, à vida que pulsa e escapa de todo enquadramento. Vigor.
Voltando agora ao Aristóteles, a excelência (aretḗ), nesse sentido, não é conformidade com o esperado, mas recriação do que é possível. Só quem abandona o ressentimento pode inovar de verdade. Só quem não busca certezas (este é o problema de qualquer dogma) pode experimentar com profundidade, por que remove ao máximo os filtros. A vida como representação da realidade que eu crio diria Schopenhauer, que influenciou Nietzsche.
Pra criar este ambiente, repito a exaustão pra quem conheço, aprendi com a agilidade a desfazer a ilusão do controle. Fazendo uma conexão com o que falei mais cedo — inclusive o controle epistêmico que, como mostrou Hume, é só hábito disfarçado de certeza. A causalidade que afirmamos nas organizações é, em grande parte, superstição. O sol não nascerá amanhã por que eu quero.
Repetimos porque parece funcionar, mas não compreendemos as forças em jogo. Agimos por costume, não por conhecimento. Chamamos isso de empirismo, mas não é ciência. No fundo, o hábito funciona como defesa contra o real: contra a contingência, contra o imprevisível, contra a necessidade de decidir de novo a cada vez. É economia de energia, aceitar dogmas é economia de energia.
Transformar, portanto, é dizer "sim" à incerteza. É arriscar-se. É abrir mão das promessas fáceis de quem vende método como se fosse salvação.
A pergunta original — que com o tempo foi ampliada para: como criar soluções tecnológicas que entreguem valor continuamente, adaptáveis e alinhadas à realidade atual? — foi dissociada do seu contexto e transformada em método reprodutível, um ritual que mantém a forma, mas perde a abertura e a experimentação verdadeira, arriscada, corajosa, hardwork. A resposta se institucionalizou antes que o pensamento se aprofundasse, sem coragem para nomear o que está prejudicando, com medo de desagradar ou tomar decisões dificeis, o pensamento parou na superfície da resposta, e o problema voltou a se repetir com outra aparência (o que matou o RUP já foi dito a exaustão, não foi a falta de conhecimento? Eu acrescentaria, foi e é também para a agilidade, especialmente na gestão, falta de coragem!).
A agilidade é produto do nosso tempo, e possui ética compatível com o capitalismo tardio: adaptável, veloz, mensurável.
Mas sejamos claros: raramente vi a agilidade aplicada numa cultura que vivia um capitalismo meritocrático, aquele em que se mede rápido, troca rápido, e o resultado importa mais do que o discurso. Onde há frieza, pressão e consequência. E por mais estranho que pareça, foi ali que encontrei ética inegociável, responsabilização e critério.
Boa parte das vezes vi o capitalismo de compadrio: favorecimento, jeitinho, blindagem, ausência de responsabilização, vitimismo e infantilização.
E os resultados? Como estão os resultados?
E quanto ao método? Talvez devêssemos (como Montaigne ao defender Sebond), suspeitar mais dos fundamentos. Não há apologia sem interrogação.
E como Clarice, aceitar também o que escapa:
“Não entender. Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. [...] Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”¹⁶
Dostoievski dizia que Dostoiévski dizia que a beleza salvará o mundo. Só a beleza da Clarice salvará o mundo — a nossa humanidade que se importa.
¹ ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro I, 1095a15-20. ² SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado pelos Demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. ³ Idem. ⁴ HUME, David. Investigações sobre o Entendimento Humano, Seção IV. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Unesp, 2005. ⁵ LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso sobre a Servidão Voluntária. ⁶ NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Segunda dissertação, §12. ⁷ VIGOTSKI, Lev S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001. ⁸ HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. ⁹ BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 43. ¹⁰ Robson Rocha, New Business Account Manager na Entelgy Brasil. https://www.linkedin.com/in/robsonrocha/ ¹¹ Paráfrase inspirada em Hannah Arendt, leitura e reflexões sobre a banalidade do mal. ¹² NIETZSCHE, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. ¹³ NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral, I, §10 ¹⁴ What About Bob? (1991). Direção: Frank Oz. Com Bill Murray. Título em português: Nosso Querido Bob. ¹⁵ FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. ¹⁶ LISPECTOR, Clarice. Não entender. In: A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Escrever este texto provocou um momento de catarse. Foram muitos dias e noites intensas, após um longuíssimo período de letargia convenientemente autoimposta. Instigado e remoído percebi com clareza que precisava escrever mesmo com minha limitação; o alcance da minha linguagem é o alcance do meu mundo; só posso viver o que sou capaz de nomear.
Esta é minha jornada intelectual dos últimos 15 ou 16 anos, servindo como gestor, dentro de ambientes corporativos. Inteira minha, com méritos e defeitos, na era do chatGPT e Google, que consultei (além dos livros e da memória do que li), como a Barsa dos nossos tempos.
Gostaria de compartilhar os sentimentos de realização que tive ao escrever este texto e repensar. A leitura e a escrita são alegrias que menos gente sente hoje. A alegria que tive quando descobri Carl Sagan aos 15 anos, Clarice aos 16 ou quando comecei a sofrer com o Nietzsche aos 19. A alegria de compartilhar algumas ideias em um blog de poucos leitores há mais de 20 anos.
Não é uma trajetória menos digna pelos fracassos profissionais, projetos mal geridos, posicionamentos mal feitos ou pela tentativa — nunca concluída até agora — de seguir com cursos na área de humanas. Sempre foi uma busca por um significado que a tecnologia, por si só, não oferece. As humanidades são tudo que nos resta. Perceberemos melhor isso com o avanço da IA e do totalitarismo.
Teríamos resultados muito melhores, para dar já uma alternativa ao niilismo aparente deste texto, caso nossos currículos de formação em tecnologia nos ajudassem em interpretação de texto, visão crítica e ética.
O sucesso da agilidade é indiscutível, mesmo como epifenomeno, mesmo por motivos diferentes dos que muitos agilistas acreditam (como eu discuti no texto), mas deve regredir. As pessoas não estão preparadas para liberdade, são os ciclos. Ela vai ser incorporada, pelo menos as práticas convenientes. A agilidade ao esperar o melhor das pessoas "conduz elas aonde cumpre conduzílas" e trouxe pelo menos no inicio as mentes mais inquietas, era o melhor que podiamos fazer folks. A IA vem agora com uma nova pressão e uma nova forma de desestabilização. Aceleramos mais? Agora é a nova adaptação pra mudar tudo pra permanecer onde estamos.
Não há mágica para solucionar o problema corporativo que hoje é um problema de mundos, é um problema do mundo. Não cabe no modo automático, exige cuidado, exige reflexão: sentir, viver e sonhar. Eu tenho como exemplo de liderança, uma princesa feniciana da odisséia, re-escrita-desenhada por um dos poetas contemporâneos, que descobri a pouco tempo, Miyasaki (afetado diretamente pela IA sem ética): Nausicaa. Não a catarse bela, porém simplificada e messiânica do anime, mas a vida enquanto pugna (Nietzsche?) do mangá.
Não houve, até hoje, sofrimento no trabalho que uma hora de leitura não ajudasse a superar. Chateia-me, de verdade, neste exato momento, ler sobre escola cívico-militar e lembrar do legado do Vlado.
Que bom que nossa história não está no LinkedIn nem poderá se resumir a isto.
texto publicado originalmente no Linkedin
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