Tento não me esquecer:

    Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
    Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
    Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.

25/12/2025

Uma história

Segundo os evangelhos

Maria, virgem e prometida a José, concebe pelo Espírito Santo após anúncio de um anjo. José, advertido em sonho, a acolhe. Jesus nasce em Belém, entre sinais e mensagens. Herodes, o Grande, rei cliente de Roma, ao ouvir que magos do Oriente vieram pelo nascimento do “rei dos judeus”, manda matar meninos de até dois anos. Novamente avisado em sonho, José foge com a família para o Egito e só retorna após a morte de Herodes. Entre nascimento e vida pública, poucos episódios.

Jesus adulto, aproxima-se de João Batista, líder asceta que prega arrependimento e confronta lideranças, e é batizado. Ao sair da água, ou depois, enquanto orava, o céu se abre e uma voz o declara filho amado. Vai ao deserto e é tentado pelo demônio. Ao voltar, João já está preso, ou ainda solto? Mais tarde é morto por decapitação.

Anda pelas vilas da Galileia e diz que o Reino de Deus está próximo e que é preciso mudar. Começa com exorcismos. Chama homens comuns, ensina em público histórias simples, cura febres e paralisias, purifica leprosos, devolve visão, toca impuros e diz a alguns que seus pecados estão perdoados. Escolhe doze e lhes dá autoridade para anunciar e expulsar demônios. Atrai gente, consolida seguidores e cria oposição. Milagre falha onde há incredulidade; ele se irrita, suspira, muda de lugar. Com base em Cafarnaum, circula por aldeias ao redor do lago. Multiplica pães, acalma tempestade, dá visão a cego, ressuscita mortos; um é amigo.

Depois de dois ou três anos, vai a Jerusalém para a Páscoa. A cidade lota, entra aclamado. No Templo ataca o comércio do culto. Autoridades decidem prendê-lo. É traído por um seguidor, interrogado, levado ao governador romano, condenado. Crucificado, fala pouco: perdoa, promete. Sede; vinagre. Entrega a mãe ao discípulo amado: “eis tua mãe”. No momento da morte, clamor humano e desamparado, talvez entrega confiante ao Pai ou declara missão cumprida. Morre e é sepultado. Ressuscita ao terceiro dia; o túmulo é achado vazio; faz aparições. Sobe aos céus, deixando promessa de breve retorno glorioso. Depois, de Deus, silêncio.

Nota: Este resumo é uma montagem dos quatro evangelhos; não problematiza variações e nuances, algumas vezes só as incorpora ou cita as diferentes variações.
O Novo Testamento não é obra coesa, mas um conjunto de textos de comunidades cristãs primitivas, moldado por lutas ideológicas, disputas de interpretação, autoridade, identidade.



O mínimo historiográfico

Jesus judeu galileu ligado a Nazaré, aldeia pequena, num mundo de baixa alfabetização e muita crença em intervenção sobrenatural, fala com carisma na linguagem da Torá e dos profetas. Suas ideias carregam a expectativa de juízo e de “Reino de Deus”. Faz crítica moral e social, e entra em tensão com o Templo e autoridades. No judaísmo do período, circulam máximas éticas curtas atribuídas a sábios como Hillel, como “o que é odioso a você, não faça ao outro”. Provavelmente teve irmãos e irmãs biológicos, filhos de Maria e José. Um deles, Tiago (“o Justo” na tradição cristã), aparece mais tarde como liderança da comunidade de Jerusalém como “irmão do Senhor”.

Na vida adulta, aproxima-se de João Batista, pregador de arrependimento que batiza no Jordão (sinal público de mudança e de preparação para a intervenção iminente de Deus). João ganha adesão popular e provavelmente vira problema político: preso e morto, num contexto de medo de agitação e controle de multidões. Com João fora de cena, Jesus inicia pregação como continuidade desse clima apocalíptico-moral.

Circula por vilas da Galileia, anuncia Reino de Deus próximo e que é preciso mudar a vida agora. Reúne discípulos, ensina em público por máximas e histórias curtas, e cria atrito ao mexer com pureza/impureza, falar em perdão, dividir mesa com marginalizados e criticar a hipocrisia religiosa. Com base em Cafarnaum, povoado pequeno, roda aldeias ao redor do lago.

Ponto relevante e compreensível é a retórica do sinal, comum e mobilizadora. Atribuídos a Jesus nos textos redigidos décadas depois, feitos extraordinários como curas, exorcismos, controle da natureza, multiplicação de pães, dar visão a cego, ressuscitar um morto são historicamente melhor entendidos como tradição de comunidade sobre pregador carismático, não dado independente.

Vai a Jerusalém na Páscoa, em ambiente lotado e tenso; confronta práticas ligadas ao culto. Autoridades locais decidem neutralizá-lo: preso, interrogado e entregue ao poder romano. Sob Pôncio Pilatos, condenado e crucificado. Após a morte, o movimento não acabou, e em poucas décadas já aparece organizado e espalhado, com disputas internas e releituras teológicas que ampliam e reconfiguram o que Jesus teria sido.

Nas décadas seguintes, figuras parecidas, líderes carismáticos e “profetas de sinal” como Teudas, o “Egípcio”, o profeta samaritano, entre outros também atuam no ambiente de expectativa, crise e repressão romana. Jesus é um caso dentro dessa paisagem, não exceção inexplicável.

Adendo literário
Duas histórias, não pretendem ser factuais, para ler de forma não mitificada os evangelhos
Um dos três contos de Flaubert: Herodíade. A prisão de João Batista, o jogo de poder de Herodes, o ódio de Herodíade e a figura ambígua de Salomé aparecem de forma esquemática nos evangelhos, mas ganham corpo, densidade política e brutalidade no conto, onde o sagrado é reduzido a pó e a execução deixa de ser mistério para virar narrativa.
O segundo é a ironia de quem criou Putois. Anatole France: “O procurador da Judeia”. Divertidíssimo.

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