Tento não me esquecer:

    Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
    Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
    Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.
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20/02/2025

Sobre a política

E se houvesse um político que fosse o Lula de 2002 no carisma e na capacidade de conciliação mas sem necessidade tola de aprovação ou apetite pelo poder? Suplicy na utopia e beleza da tez límpida e clara? Zé Dirceu no estoicismo cerebral, mas ético? Sem ideal ou esperança de que isto vá nos acontecer: mora a 3 horas de avião da minha casa, o ex presidente uruguaio Pepe Mujica...

O ateísmo visceral, não militante e profundamente enraizado, sem confronto, indiferente e pragmático, que faz política vivendo sua teoria — coisa que Lula não faz e Suplicy não consegue operacionalizar mesmo quando tem razão. A visão de mundo não doutrinária (há quem discorde) e menos ainda dogmática com grande abertura pro mundo, pra realidade, pra diferença — leve, sem dor, sem esforço de alguém que se basta, sem o olho do outro. Ele não precisa de quase nada, e quando fala, a liberdade interior e o silencio que quase ninguém, ainda menos na política, tem. Um profundo autoconhecimento, sem busca de poder, sem busca de dinheiro. Ele é.

Não seria possível em um país como o Brasil esta descrença, onde presidentes mentem descaradamente sobre sua fé (bozopatia) ou ausencia (FHC e Dilma?). Onde a mera possibilidade de ceticismo afundaria qualquer carreira politica.

Não há, entretanto, inocência. Ele é, como politico?, falho, repleto de contradições. Não retirou por ideologia, apoio a governos autoritários. Não combateu o consumismo e chegou até mesmo a incentivá-lo. Precisava de apoio para conseguir fazer algo: abraçou alianças condenáveis. Maldito presidencialismo de coalizão? Será?

Agora que o Mujica está morrendo; que morreram Abul, meu pai, minha irmã; que Antonioni e Carl Sagan se foram; que até o coerente e corajoso Papa Francisco está no fim – o mundo está empobrecendo. Mas as obras permanecem... Conheci um pouco do Porchat Pereira e do George Minois... Reparei melhor no Falstaff e no Próspero (revivendo sempre Hamlet, Péricles, Otelo, Edgar e Rosalind). Sim!, ainda sinto alegria ao ler filosofia e literatura. Suponho que compreendi melhor o Tchekhov dos contos sem final. Mas mesmo percebendo que sempre há mais um autor ou personagem a ser descoberto — e que o mundo é sempre maior, e maior, e infinito, ainda assim estou envelhecendo e só posso contar de trás pra frente: 10.000, 9999, 9998 dias ...

Cada vez mais cegueta, me regozijo por estar em 2025 e poder dispor de óculos porque o apocalipse cyberpunk ainda demora 30 anos... Se tudo der certo, morro bem antes disto, depois de me mudar pra um campo largo - o mais incomunicável possível, no meio do evangelistão de raivosos idiotas cristãos armados - com a esperança de continuar vendo as meninas felizes... Será delas também a escolha entre a solidão e a vulgaridade... É praticamente incompatível a verdade e agradar as pessoas, ou um ou outro não acontece pra quem ainda não aprendeu a jogar conversa fora... Quando acontece, milagre!, surge verdadeira amizade, sem lambeções, de poucas palavras.

02/10/2022

Sobre a amizade

Um suspiro depois de um longo caminho; penso em todas as vezes que me equivoquei tentando controlar ou oprimir sem aceitação completa e incondicional da vida...  Vejo tão diferente....

Neste momento votar leve e sem esperança entendendo que reeleito ou não o psicopata burro com  apoio de crentinice incauta, a democracia fracassou neste pais. Os retrocessos virão ainda mais com o próximo congresso, onde leis e práticas progressistas serão substituídas por limitantes e preconceituosas (mais que tudo hipócritas). Os ciclos se iniciam e impulsionam os seguintes: "a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa". Até no senado, foi tudo pro espaço. Votar no Safatle ou na bancada feminista, tanto faz. "Para um homem de bem, a indiferença pode ser uma religião."

"Que o mundo «está infestado com a escória do género humano» é perfeitamente verdade. (...) 
Parece-me que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. A sua função é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.
Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar corretamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objetivo, chamando-lhe indiferença em relação ao bem e ao mal, falta de ideias e ideais, etc. Querem que, ao descrever ladrões de cavalos, diga: «Roubar cavalos é mau». Mas isso é sabido há séculos sem que eu tenha de o dizer. Deixem que um júri os julgue; a minha tarefa é simplesmente mostrar que género de pessoas são. Escrevo: estão a lidar com ladrões de cavalos e, assim, deixem-me dizer-lhes que não são mendigos, mas gente bem alimentada que segue um culto especial e que roubar cavalos não é simplesmente roubo, mas uma paixão."

Os homens julgam segundo suas convicções, pouco se importando com a verdade... Não tenho a inocência e dispenso a amizade dos que preconizam a amizade entre todos. "Falta-nos 'algo', isso é certo. (...) Alguns, de acordo com seu calibre, tem uma meta mais próxima - o fim da servidão, a libertação da pátria, a política, a beleza ou apenas a 'cachaça'; outros tem uma meta remota - Deus, a vida após a morte, a felicidade da espécie humana e assim por diante. Os melhores entre eles são realistas e escrevem sobre a vida como ela é, mas uma vez que cada linha esta impregnada como se fosse a sua seiva, pela consciência da meta, além da vida tal como é e pressentem a vida como deveria ser e isto os cativa. E nós? Nós escrevemos a vida como ela é e não damos nem mais um pio. Mesmo chicoteados não avançaremos um passo além dai. Não temos meta nem próxima nem remota e estamos vazios. Não temos política, não acreditamos na revolução, Deus não existe, não temos medo de fantasmas e eu pessoalmente não temo a morte nem a cegueira. " Sê fiel a ti mesmo... Sobre a amizade, sobraram algumas ... E olhando pra minha vida, uma sensação de ser eu... feliz e de terem sido boas.. E a paz esta vindo com a musica.. com uma lembrança doce de quem já morreu... Minha irmã falecida aos 23 anos, pai a poucos meses e mãe mais raramente, em algumas das conversas mais lindas que já tive... e conversas avulsas, durante toda a vida, com amigos, ex namoradas, colegas. Meu pai sem dúvida. E agora a Iris e a Clau...

A vida compartilhada dos últimos 20 anos com a Claudia não é livre de dissabores e de divergências/diferenças, mas foi constante e calma.. Claro que é ela quem melhor entende, não como mãe de HBollywood, mas com seu medo do mundo dos milicos, que um lugar perigoso como este que esta sendo construído no Brasil, não merece alguém como a Alice... Me parece estupido demais um ateu explicar para um cristão por que armas não são uma boa ideia, mas talvez a questão seja: existem cristãos mesmo? Raramente conheci. Alguns não se diziam... Com a Alice o olhar tão certo, tão frágil tão forte e vem um paaapaiii abraço colinho demorado abraço quentinho aquele cheiro doce se espalha vertigem forte frio calor medo e certeza e alegria e tristeza e dor e felicidade e Milton Nascimento e eu faria qualquer coisa o olhar qualquer coisa pra que aquilo ficasse assim o abraço assim assim e eu já morresse e estava tudo bem tudo bem.

"Tu minha águia de asas azuis e negras
Onde esteve voando tanto tampo?
Como tem estado todos estes anos?" Ah Dersu!
A vida não tem sentido; não nos deve nada, não corrige nada, não conduz a lugar algum; maturidade é só o momento em que paramos de mendigar explicação de uma coisa muda.

04/11/2014

Sobre o que esta acontecendo

o que fazer quando não é apaixonado por nenhum partido, politico, ideal... quando não concorda com corrupção, nem apoia golpe de estado... quando acha natural e não vê problemas em dar esmola sempre, para quem quer beber, pra quem não quer trabalhar, esmola pra todos que pedem, sem distinção... ou apoio, pura e simples, por que meritocracia é uma bobagem ... o que fazer quando se acha que todos deveriam ter o minimo e que como o mínimo, deveria haver um máximo depois do qual sobras são supérfluas e que como tais deveriam ser dispensadas para os que precisam de esmolas ou apoio... Como expor o que pensa quando não se concorda com pena de morte e se entende que cada mulher tem direito a escolher o que precisa ser feito com seu corpo mas não com seu filho depois de nascer e que mesmo um "tapinha" é violência ... que se vê que é óbvio que é o dinheiro a punição que mais amedronta a maior parte dos boçais que perambulam pelo mundo... Quando não acredita em nada mas entende que cada um na sua casa, longe da esfera pública afetando a vida dos outros acredite no que quiser... quando se sente responsável pelos filhos e não culpa os professores... quando entende que deveríamos parar de falar em direitos e passarmos a falar de deveres... o que fazer... quando os amigos brigam desesperados por certezas ... é um momento tal onde apenas citar a incerteza já é um posicionamento radical... é ininteligível pra quem vive de certeza a sombra da dúvida, o questionamento... tudo é um problema, motivo de briga, de defesa apaixonada... de discurso virulento...

https://www.youtube.com/watch?v=GveIBalolhg&list=PLzr6YDBQS2O01eiSYkVeBL50hN1nL3Sy4&index=1

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/12/1559430-superficialidade-da-vida-atual.shtml

27/01/2006

Política

Lembrar-me: não fechar os olhos pras gafes do operário que agora esta deslumbrado.

16/02/2004

Sobre as denuncias de corrupção ao governo do PT

"Alguém que se incline a consciência, deve não só poder amar o seu inimigo, como deve poder odiar o seu amigo."

15/12/2003

Sobre Eduardo Suplicy

Não é de hoje que me chama a atenção as atitudes, falas, coerências, a mais impressionante autenticidade que já se viu em uma figura pública. Eduardo Suplicy é o nosso princípe Mitchkin, "O Idiota" de Dostoievski. Seu artigo no site do PT, defendendo o Lampeão de saias me surpreendeu. O Zé, justo o Zé, teve a pachorra de insinuar que o Suplicy gosta de motrar-se bom moço. Ah Rasputin! E pensar que tu, meu velho, já usou barba e mirou-se ao espelho lembrando da fotografia do Tchê... Não tinhas tempo para se ater a fofocas e fazer pose pra aparecer na Caras. Bons tempos aqueles. Os que acreditavam no que você dizia tinham esperança. Se ouvisse a sua estupidez quem sabe diria um fã do príncipe Mitchkin: "Para os puros tudo é puro. Para os porcos, tudo é porco!!!"

08/10/2002

Politica (III)

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
- Bertold Bretch

07/10/2002

Eleição (I)

Quem interessasse por noticias internacionais e sabe entender o que há por trás das palavras da Marionete Bernardes no Jornal pro Tonto, não pode pensar diferente: Geoge W. Bush é infinitamente mais perigoso, estúpido e boçal que Osama Bin Laden.
Sem fugir das noticias internacionais: a possibilidade de não haver idoneidade no nosso processo eleitoral existe, é história da mamãe ganso; e da Cia. Nem mesmo o FHC vai com a cara do Genérico.

25/09/2002

Ensina a teu filho

Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável.

Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros como Antônio Pinheiro, pai do jornalista Chico Pinheiro, que revelou na mídia seu contracheque de parlamentar e devolveu aos cofres públicos jetons de procedência duvidosa.

Saiba o teu filho que, no monolito preto do Banco Central, em Brasília, onde trabalham cerca de 3 mil pessoas, a maioria é honrada e, porque não é cega, indignada ante maracutaias de autoridades que deveriam primar pela ética no cargo que lhes foi confiado.

Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer.

Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais fertéis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou, mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.

Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas e prédios públicos são, hoje, chamados de "bandidos", como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.

Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários.

Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de sua vida no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.

Ensina teu filho a evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que nos tenta incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética.

Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Hélder Câmara e Chico Mendes.

Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz se se unir àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.

Ensina teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem e, se a maioria tiver a mesma reação, será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.

Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor.

Cultiva nele os desejos do espírito.

Frei Betto é escritor
Publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo em 4/7/2002

Também está no site do candidato desaculturado, que nunca trabalhou e só fez parte de sindicato. Só fez greve. Afinal, pra que sindicato? Pra que lutar? Deveriamos abaixar a cabeça de vez. Deveriamos nos submeter a quem rouba mas não faz e que depois de oito anos no poder, vê, pode nos sugar mais. Vamos deixar?

- Frei Beto