Tento não me esquecer:

    Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
    Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
    Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.

30/12/2025

A Bíblia ou o que somos nós

A Bíblia, pro meu pai, teólogo e filósofo, antes de sair do seminário aos 26 anos, era o livro máximo. Preparou-se para dominá-la. Latim e grego fluentes; algum francês; amor pelos textos, pela exegese católica e por boas traduções. A grega, favorita e hoje perdida, ele abria pra dividir epifanias.

Depois do seminário, graduou-se em História, cursou Letras, trabalhou na Veja como chefe de revisão e mais tarde na Playboy, como secretário de redação. O desemprego após o fim da ditadura não o impediu de celebrar. No Plano Collor, perdemos quase tudo; infartou. Reergueu-se. Terminou a vida coordenando curso em universidade particular. E a Bíblia? Não abandonou nem no fim.

Mas isso não é tudo. Não estranhei quando, mais velho, percebi certa dose de ironia nos comentários que eventualmente soltava (mesmo sendo religioso). No Natal é inevitável lembrar dele e do tema; foi meu professor na crisma. De certa forma, tornou possível o ceticismo dos filhos, até o da minha irmã já morta. O vi sorrir e questionar várias vezes: "parece tão estranho!". Andávamos de carro. Descíamos a Avenida 36 em Araraquara, perto de um farol. Sinto que gostaria de responder também sorrindo: é, é estranho!

Foi ele também que trouxe do Culturato, escola onde dava aula na mesma Avenida 36, um livro de capa dura emprestado em 1989 para o filho de 13 anos que se interessava por astronomia. Era Cosmos, do Carl Sagan. Foi ali que conheci mais do ceticismo que depois se tornou parte do meu modo de enxergar o mundo. Se olho hoje com curiosidade para a Bíblia ou outro tema qualquer que possa ser considerado espinhoso, sem nenhum conflito, angústia ou receio, devo isso a essa abertura, um passado quase inacreditável para mim. Tenho comigo as lembranças do que eu era. Foram anos incríveis... Sem fé e sem ressentimento, sigo com curiosidade e sem reverência por ideias que merecem resposta, não idolatria. Hoje, relendo a Bíblia para escrever este texto, vi menos revelação e mais a máquina.

O Antigo Testamento

Encontrei mais código civil do que esperava, e menos teologia; regras para gerir crises tribais com temas que falam de lei, pureza, conquista, propaganda dinástica, punição. O tom oscila; lamento, queixa, súplica, ironia, desespero; às vezes surge entusiasmo e moral simples ao celebrar Deus. Incomodam falácias repetitivas e o apelo à autoridade, base da narrativa (é verdade porque Deus disse, Moisés disse ou o profeta disse); previsivelmente Deus não é objeto de reflexão e o raciocínio circular denuncia escrita para convertidos; Deus é verdadeiro porque a Escritura (de Deus) diz. Post hoc; sofreu? então pecou; prosperou? então foi fiel. Muitas vezes entediante, parece funcionar mais como disciplina social, não a revelação que eu esperava questionar.

Particularmente aclamado, Isaías tem suas melhores passagens em Deutero-Isaías (caps. 40-55) cenário de colapso que é o exílio babilônico. Entretanto, não encontro (deveria?) nuance ética moderna ou sutileza; a beleza é execução retórica, a construção do consolo, identidade e esperança. Além dessas passagens, muitas vezes vi retribuição simplista (moral de cartilha), punição, "será devorado pela espada" refrões e martelo "apesar de tudo, sua ira não se desviou, sua mão ainda está estendida". Boa parte do livro é binária, de crise, modo panfletário, voz de absolutos, fórmulas repetidas, inimigos caricaturados, o que particularmente não me toca.

Os Salmos são compêndio de poética hebraica (paralelismo), antologia de 150 poemas/hinos atribuídos a Davi. Muitos são ricos e belos; lamento, finitude, exílio. Alternam lucidez emocional com licença para o sadismo via Deus; muita repetição, nas ideias, na forma.

Jó é microcosmo da Bíblia, colcha de retalhos, prólogo e epílogo em prosa arcaica, quase conto sapiencial enquanto o miolo é poesia altamente elaborada, provavelmente de outra época, sendo os discursos de Eliú talvez enxertos tardios. Tem a força das grandes tragédias, trata o problema do sofrimento e da injustiça, supera a falência das explicações morais. Mesmo assim é teologia defensiva, não investigação radical. A pergunta "por que o justo sofre?" é forte, mas a resposta é apelo à assimetria ontológica "quem é você para perguntar?". Isso não é profundidade; é apelo à autoridade pra encerrar. A dor é dilacerante e cativa, nos drena, mas Jó não é Shakespeare, não leu o conto da mulher de Bath, não conheceu a ironia e humanidade de Chaucer, ele foi uma das bases, não o ápice. Em Jó, personagens são tipos morais, não consciências dilaceradas. Jó não evolui psicologicamente; ele oscila retoricamente; Shakespeare constrói interioridade.

Eclesiastes/Qohelet, desilusão sem subterfúgios, curto, seco, concentrado, o corpo estranho mais subversivo do cânone bíblico, ceticismo que a tradição tentou domesticar sem sucesso. A autoria salomônica é máscara literária (hebraico tardio, aramaico e provavelmente até termos persas). Conteúdo sem ideal ou esperança, "Tive tudo, vi tudo, e deu em nada" (Sidarta?). Esse nada é hevel, vapor, hálito, fumaça, não só futilidade moral, mas insubstância ontológica; tentamos segurar a vida, mas nos escapa. Remendar o texto e tentar transformá-lo em epílogo moralista ("teme a Deus…"), com trechos pró-sabedoria servindo de cola piedosa, domesticar o estrago e fingir uma saída, não se sustenta. Aqui Deus não é presença, é distância; não há justiça estável nem lucro último (yitron tende a zero), sobra ética pragmática e melancólica; comer, beber e trabalhar como consolo paliativo, não redenção, é Cioran: dureza que não consola.

O Novo Testamento

Meu pai tinha um hábito. Sem ser pedante ou fazer proselitismo, misturava frases da Bíblia e do seminário com expressões clássicas que apropriou como suas, talvez para segurar a dureza da vida que teve. Quid est veritas? ("o que é a verdade?"); homo homini lupus ("homem é lobo do homem"); memento mori ("lembra-te de que vais morrer"); mais do que o significado, com o tempo, entendi também a entonação, suas dores. Não havia domingo que não dissesse: quanto melhor o domingo pior a segunda-feira. Como detestava o ambiente corporativo, encaixava ironicamente Sic transit gloria mundi ("assim passa a glória do mundo") ou Vanitas vanitatum ("vaidade das vaidades"). Falava do dia da semana (dies Lunae), das horas do dia (Laudes, Vesperae), do tempo litúrgico (Quadragesima) ou de algo do ritual (Introibo ad altare Dei), que viveu por quase 20 anos (foi depositado aos 8 anos em um trem para o seminário). Invariavelmente soltava coisas mais duras e tristes. Pater mi, si possibile est, transeat a me calix iste. Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? Pater, dimitte illis: non enim sciunt quid faciunt. Filius autem hominis non habet ubi caput reclinet.

Em grego ele repetia, introspectivo: γνῶθι σεαυτόν ("conhece-te a ti mesmo"). Refletindo sobre esta frase tentei extrair da leitura (em vão?) o valor das passagens quando abri mais solene do que o esperado para um cético, o Novo Testamento. Memória afetiva? Aprendi a gostar e a admirar várias passagens e isto não se perdeu com o tempo; cativantes, múltiplas camadas, rica simbologia. O filho pródigo, com sua aparente contradição e final aberto; o desmonte da lógica meritocrática dos trabalhadores na vinha; a negação e a dor de Pedro; a ética além da reciprocidade; o rico insensato; o lava-pés; o início do evangelho de João, entre outras.

Há outra coisa ainda, mais enraizada, mais funda em mim: música, também entre nós. Bach, Mozart, Vivaldi, o gregoriano. No sacro e fora dele, mais do que forma, rigor ou grandeza, a tristeza e certo acanhamento do viver; uma reserva, serena e doce. Meu pai ao violão.

Ele morreu há pouco mais de quatro anos e, se alguém fosse hoje descrevê-lo no nosso universo letrado, com fotos, vídeos, com o que ele escreveu, ainda assim me parece improvável que capturássemos exatamente quem ele foi ou o que disse. Depende de quem fala; enfatizamos ou projetamos coisas distintas. Minha tia, no grupo da família que eu participava, vociferava com a autoridade de irmã e de "conhecê-lo antes de todos" que meu pai detestava "os vagabundos da esquerda", como, segundo ela, o próprio Jesus detestaria. O que esperar dos evangelhos, escritos décadas depois por gente que sequer o conheceu?

Nos evangelhos, a sensação geral é de parábolas soltas, mal encaixadas na narrativa; texto oscilando entre memória, catequese, propaganda, manual de conduta. Circulavam oralmente ou em coleções antes de serem incorporados? Recomendo ler Bart D. Ehrman. Muitos trechos dão a sensação de costura à vista. Mc 16:8 termina abrupto (mulheres fogem do túmulo, medo, silêncio) enquanto Mc 16:9 recomeça "do zero" (Jesus aparece, Maria Madalena é reapresentada como se o leitor não a conhecesse), e vira um resumo em blocos (aparições + sinais + comissão). Há forte tradição crítica de que 16:9–20 não está nos manuscritos mais antigos. Outro exemplo é Jo 20:30–31 que soa como frase de encerramento ("estes sinais… para que creiais…"), nitidamente um colofão e Jo 21:1 começa “depois disso” com nova cena longa (pesca, Pedro, "apascenta minhas ovelhas") e fecha com outra assinatura editorial em 21:24–25 ("sabemos que seu testemunho é verdadeiro…"). Parecem redações tardias que colam tudo em macro-narrativa.

As contradições não são difíceis de encontrar. Genealogia (Mt 1 vs Lc 3); calendário da Páscoa (sinóticos vs João); hora da crucifixão (Mc 15:25 vs Jo 19:14). Não se tratam de erros de revisão, mas tentativas de diferentes comunidades de disputar a figura de Jesus para suas agendas (Mateus para judeus, Lucas para gentios), indícios de cristianismo primitivo talvez mercado de ideias em conflito (não revelação única e coerente). Bart D. Ehrman, em Como Jesus se tornou Deus, reconstrói justamente esse processo de elevação progressiva da figura de Jesus no cristianismo primitivo. A linha do tempo ajuda também a explicar: morte de Jesus costuma ser aceita entre 29–34 d.C. e os primeiros textos preservados são as cartas paulinas (49–62 d.C.), com os evangelhos/Atos + cartas pós-paulinas (70–100 d.C.)².

Passagens famosas como a ideia de que crer sem evidência eleva (Jo 20:29, "não viram e creram"; Mt 12:39, "geração… pede sinal") impõem um problema de difícil contorno. Crenças (todas!) têm custo social e, portanto, formar crença sem evidência é vício público, não virtude privada; fere autonomia, terceiriza o juízo e toma por virtude. Resta poder, carisma e ameaça (sujeição e acomodação convenientes que Étienne de La Boétie diagnosticou bem em A servidão voluntária).

Milagre e intervenção divina são teses que, se fossem plausíveis como descrição do mundo, deixariam rastro nos dados. Quando testada clinicamente, essa hipótese não aparece de forma robusta ou replicável, como em ensaios clínicos de oração intercessória e em revisões sistemáticas (Benson et al., 2006; Krucoff et al., 2005; Roberts et al., 2009)³. Hume descreve por que, na Investigação sobre o Entendimento Humano, milagre não é apenas raro; é a ruptura do curso regular da natureza⁴. Testemunho? É fraco/insuficiente se temos explicações melhores. Navalha de Ockham. Medo, esperança, desejo de assombro, prestígio. Há também, tanto por realização pessoal quanto por pressão do grupo, incentivo para mentir pelo bem. O milagre costuma prosperar onde o ceticismo tem custo social, porque o ecossistema recompensa a crença fácil e pune a dúvida. Não é até previsível o resultado? Não é o milagre que se prova; é a comunidade que se autoprotege. As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras⁵. Aparições marianas são caso exemplar: tanto Lourdes (que 'confirmou' em 1858, pela vidente, o dogma da Imaculada Conceição proclamado quatro anos antes) quanto Fátima (narrativa que incluiu temas geopolíticos como a Rússia décadas após o evento). Ambiguidade inicial, grupo ansioso, autoridade local, imprensa, relato que se refina a cada repetição e ecossistema que recompensa quem confirma e pune quem duvida. A verve faz o resto.

O Sermão da Montanha particularmente (Mateus 5–7) texto ético-limite, me encanta, mas não como ética universal autossustentada, lembra mais "Reino iminente" (salvação e recompensa), para comunidade ansiosa por reversão e juízo (com o que mais eles poderiam sonhar?). Sem o lastro escatológico, amar inimigos, não retaliar, não acumular e não se preocupar com amanhã não é regra geral de vida, a realidade chega. O problema parece maior porque se radicaliza intenção e perdão o faz condicionando a um horizonte punitivo e excludente (não há mal no mundo que faça merecer o inferno, seres fracos e ridículos como nós); é ética sob ameaça que modernizaram, mas está lá, simultaneamente sublime e doentia. A figura de Jesus que emerge do evangelho faz parte da genealogia, não é ápice do humanismo limpinho moderno. A beleza do texto é ter, muitas vezes, atualidade, quebrar a escalada de violência e expor a injustiça; como trata o amor não é sempre ressentimento fantasiado o que não impede o uso para domesticar, culpabilizar e manter hierarquias (pessoas "boas" como obedientes).

Ainda no sermão da montanha, a ideia de que desejo sexual já é adultério (Mt 5:27–28), eu sempre considerei particularmente profunda. " Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.". Jesus não inventa o conceito de que o adultério começa no pensamento; já havia o diagnóstico da visão como a porta de entrada para a ação. Jesus expande o que já estava no decálogo, unindo "não adulterarás" a "não cobiçarás" e deslocando o critério moral do ato verificável para a intencionalidade que já reconfigura a pessoa, não o simples ver, nem impulso que aparece sem convite, mas olhar assumido como projeto, olhar como instrumento para cultivar a cobiça. A traição não começa no corpo, começa quando o outro deixa de ser sujeito e vira objeto apropriável dentro da imaginação, uma posse ensaiada. Ele transforma a lei de limite jurídico em ética de formação. O problema não é só o que você fez, mas quem você está se tornando pela disciplina (ou indisciplina) do desejo (esta simulação, por exemplo pela masturbação, encontra eco no Metzinger e pode preparar para o ato).

Kieślowski traduz isso sem o moralismo que apequenou muitos dos seus outros filmes como "A liberdade é azul", No Decálogo VI episódio da série sobre os dez mandamentos pra TV polonesa. Tomek e Magda não têm relacionamento, não são casados, então "adultério" ali é sobre a adulteração do vínculo. Temos na primeira parte do filme o olhar que vira projeto, rotina, método, acesso sem reciprocidade, invasão, este é o adultério do Tomek. Depois de chamá-la para ir tomar sorvete, de conversarem, começa a existir para Tomek, espaço para o cuidado, hesitação ao agir. Magda é mais brutal, nas palavras que trituram o afeto e o reduzem a reflexo, amor apenas como circuito de excitação; ela não revela a verdade mas com cinismo e indiferença impõe o próprio niilismo como imunização, este é o adultério de Magda, "um ato que empana a graça e o rubor da modéstia; chama a virtude de hipócrita; arrebata da bela fronte um amor inocente, lá deixando uma chaga infame". Quando encontra um desejo que começa a virar cuidado, Magda o interpreta como fraude.

Tomek não mente, não se esconde, ele participa, se expõe passivamente, sente dor, vergonha. Talvez desaprendemos a reconhecer sentimento sem cinismo, não toleramos a hipótese de que alguém possa ser decente. Me distancio assim do reducionismo brilhante-e-vazio do Žižek, Tomek como stalker, predador. A psicanálise é a superestrutura interpretada e colada com talento retórico, projeção e malícia por ele, pra quem não é a pessoa, é a imagem o que move o Tomek.

Interpretar com o Metzinger (outra superestrutura, quiçá uma evolução das que já sustentaram o ocidente, um dia refinada?) desloca a moral do teatro público, o que eu fiz, para a engenharia de processos interna, o que eu rodo; se o eu é um modelo transparente usado para navegar o mundo social, imaginar não é neutro, é treino. A questão fundamental esta aí, treino talvez não seja sua sentença. Tomek começa no cinema privado do olhar solitário o que reduz Magda a imagem até ser capturado por detalhes reais, horários, solidão, fragilidade, dor. No momento que ele começa a enxergá-la cono pessoa é talvez quando a simulação perde a força narcísica e a realidade aparece. Magda carrega outro modelo de processos rodando por dentro: ela aprendeu a ler vínculo como transação e afeto como isca.

O filme fecha a tese que o Sermão só sugere: o dano não é desejar; é quando o desejo vira modo de relação e o outro vira função. A reparação não nasce de culpa, nasce de realidade, limite e exposição. Ele mostra que a mesma máquina que objetificou pode educar. Se a repetição pode viciar/empobrecer, nós humanos podemos refinar empatia quando o roteiro deixa de ser fechado. E é aqui que o determinismo não autoriza simplificação: mesmo que tudo seja causal, genética, história, ambiente, sorte, não temos as variáveis nem seus pesos, então prudência é não transformar isso em destino uma vez que não somos o demônio do Laplace; o que dá para dizer, é que o que você repete por dentro tende a virar padrão, na violência, no cinismo; mas às vezes o real quebra o circuito e reorienta o modelo. A simulação pode ser aprendizagem. Extrapolo dizendo que a simulação interna não é um ensaio neutro, mas a própria arquitetura do sujeito: que o homem não comete o ato porque deseja, mas torna-se o ato ao cultivar o projeto da posse no teatro (transparente) da imaginação.

Para fechar o que é relevante no Novo Testamento, as cartas autênticas de Paulo (de qualidades indiscutíveis) e a tradição paulina constituem a primeira superestrutura textual preservada do movimento em torno de Jesus. A leitura dominante é que nascem no calor das disputas sobre o significado da morte dele. Paulo não acompanha Jesus histórico e trabalha sobretudo com o Cristo proclamado, fazendo da cruz e ressurreição o centro interpretativo, a cola comunitária. As cartas extrapolam o que Jesus teria dito. A tensão fica nítida porque o eixo passa a ser uma identidade translocal que precisa sobreviver ao atraso da expectativa apocalíptica (divertidamente atual esta crença) e gerir conflito interno, produzindo tanto potência intelectual quanto coesão dentro da instituição que se formava. Elas são a mutação decisiva do cristianismo de anúncio para arquitetura doutrinária e disciplinar, com o centro deslocado do ensino e do Reino para uma economia de cruz e ressurreição, culpa e reconciliação, pertencimento e obediência. Não é portanto sem razão que Nietzsche critica impiedosamente Paulo em O Anticristo como um tipo oposto ao de Jesus. “E o que esse (dis) angelista não sacrificou em nome do ódio? Acima de tudo, o próprio Salvador; pregou-o à sua cruz.”

Minha leitura, cética

Coleção de textos, não "um livro", muito menos "o livro". O óbvio, qualidade irregular, escritos editados por séculos, autores e escolas diferentes, em contextos humanos distintos. Parte dos textos é pobre e repetitiva, histórias que canonizam o pior de nós, reality shows miseravelmente autênticos, arquivo de traumas e estratégias de poder (e é disto que alguns dependem para humanizá-los, contra o sentido de especial e vistos unicamente por Deus). Como obra seminal da Antiguidade (a Ilíada, os Vedas, Gilgamesh, Eneida e a Odisseia também o são), muito do que afirma foi reformulado/expandido e já teve seus limites expostos. Abri o livro leve, procurava maturidade e reflexão; encontrei, na maior parte, oratória e engenharia social; fora algumas exceções, muitas delas têm apenas valor histórico. Contra o senso comum, não encontramos registro singularmente lúcido ou profundo, se o comparamos com outras obras humanas, nada que justifique o status de a verdade, mas interpretação comunitária e desesperada com mais ética de partilha e antiacumulação do que a direita religiosa supõe. É um exercício fracassado tentar tirá-la do anacronismo.

O que teologia apologética/institucional frequentemente faz não é aprofundar no texto, mas acoplar categorias filosóficas externas (Platão, Aristóteles, estoicismo, neoplatonismo, “espírito do tempo”) e tratá-las como condição de leitura correta, criando imunidade da interpretação à crítica. Não que a Bíblia seja ‘pura’, que haja uma essência, ela já nasce híbrida e sincrética. O problema é quando a mistura vira prova de profundidade e o enxerto apresentado como sentido necessário do texto (tentativa de blindar contra crítica). Parece profundo ou atual, talvez porque filosofia é profunda ou porque texto foi reeditado e reinterpretado. Claro que a teologia também é tentativa de coerência, muitas vezes honesta mas outras tantas é poder. E trabalho teológico tende a extrair consequências com pretensão de universalidade e perfeição a partir de conjunto finito e historicamente situado de textos, mesmo quando resultado é eloquente e brilhante, como muitos textos não sagrados também o são. Um exemplo é quando o evangelho abre com “No princípio era o Logos”, o teólogo lê Logos não como palavra ou discurso, mas como um conceito carregado da filosofia helenística, e então injeta ali uma metafísica inteira de razão divina que estrutura o cosmos e faz mediação entre Deus e mundo e garante a preexistência do Cristo, de modo que a sensação de profundidade vem do pacote conceitual importado e não de uma necessidade interna do verso. Diante de “isto é meu corpo”, a teologia medieval não se contenta com leituras diretas possíveis como memorial, símbolo ou presença espiritual e recorre ao esquema aristotélico de substância e acidentes para dizer que substância muda enquanto acidentes ficam, criando explicação ontológica técnica que dá ar de profundidade e precisão ao rito, mas depende quase totalmente de categorias extratextuais que texto bíblico não pede nem entrega por si.

Por que então estes textos em particular ganharam tanta projeção, são aceitos com tanta naturalidade como tendo origem divina, por tanta gente? Passaram-se séculos. Sei que os próprios valores que uso para julgar a Bíblia (autonomia individual, igualdade, crítica à escravidão/misoginia) são, genealogicamente, mutações secularizadas do próprio cristianismo ocidental. É que muito mais foi criado em todas as artes, na literatura, filosofia, cinema, música, muita coisa mais rica, profunda, viva, dinâmica que poderia nos enriquecer, nos expandir, nos consolar. Quando se trata da finitude, do vazio, do medo, da carência, algumas vezes somos mais pobres e pretensiosos do que parece. Cânone não é sobre o melhor texto ou o mais profundo, é sobre o que melhor serve à tribo. Não é uma afirmação pretensiosa. A religião é que de fato não é nada modesta; relação particular com o criador do universo. E os textos não se sustentam como profundos, atemporais ou universais: envelhecem, dependem de contexto, perdem poder explicativo e acabam salvos por releituras e metáforas. Insuficientes para a própria ambição. Quando a leitura correta muda exatamente nos pontos em que a pressão externa muda (ciência, costumes, direitos), o texto não guia; ele é guiado, sua verdade é construída.

A pergunta relevante não é "por que é verdadeiro?", mas "por que se replica e se torna obrigatório?". Crenças viralizam acopladas a instituições que barateiam a adesão (rotina/rito) e encarecem a dissidência (culpa, exclusão, punição). Talvez então possamos dizer que não foi profundidade nem magnetismo místico, mas logística de poder e eficiência institucional (eficiência de rede, primeiro comunitária, depois imperial), porque virou norma muito antes de virar leitura. O início foi o texto funcionando como crachá de pertencimento e régua de ortodoxia, repetido até que hábito se travestiu de evidência. Mas foi quando o Estado e a Igreja se acoplaram, virando infraestrutura e ordem pública, que se passou a decidir o que era heresia e crime, família e autoridade, cortando o que não convém (ou interpretando como convém) com rede, hierarquia, escola e liturgia padronizadas e escaláveis; a imprensa, posteriormente, só acelerou.

Resposta moderna comum ao meu incômodo é de que a Bíblia não precisa ser verdadeira no sentido forte, porque seu sentido surge entre texto e leitor. A narrativa pouco importa, o que vale é o chamado ético que atravessa as épocas. Só que isso não resolve nada, desloca a autoridade do texto para o intérprete e para a instituição que valida o intérprete, repetindo em versão acadêmica o mesmo mecanismo que produziu o cânone, que produziu dogma, só atualiza o passado com valores do presente (a superestrutura), sem admitir que isto é transformá-la em espelho onde cada época lê o que quer encontrar. É uma forma elegante de não encarar a limitação brutal dos textos diante do que somos e do que vem aí.

A história marginalizou Lucrécio e o atomismo antigo não por obsolescência intelectual, mas por incompatibilidade sistêmica. Na História do Ateismo do Georges Minois esclarece que o "apagamento" de diversas obras, incluindo Sobre a Natureza das Coisas é resultado de um filtro secular: o que não servia à teleologia cristã e à sua estrutura de culpa não era copiado. Para uma máquina que governa através do medo do juízo e da promessa de providência, o universo de Lucrécio — regido pelo clinamen (acaso), sem deuses punitivos e com uma alma mortal — é uma toxina.

Não tratamos Espinoza ou Montaigne com o devido valor pelo mesmo motivo: a história das ideias no Ocidente foi curadoria eclesiástica. A Bíblia não "venceu" Lucrécio no campo do argumento; ela o venceu no campo da logística de replicação. O ateísmo foi relegado à clandestinidade ou ao silêncio dos pergaminhos não reproduzidos, enquanto o texto bíblico tornava-se infraestrutura estatal. A religião não é apenas "cola social"; é o sistema que decide o que merece ser lembrado. O "sucesso" desses textos é, portanto, a prova de um funil ontológico, não de uma superioridade revelada.

As pessoas não são tão burras quanto são covardes nem tão más quanto são frágeis, mas elas são, acima de tudo, ambiciosas e gregárias. Lembro do evento cristão após a queda das torres gêmeas. A celebração do poder divino no evento de luto da maior potência militar, que precisava celebrar o poder de Deus porque a questão é que nossa miséria, nossa fraqueza pede o Deus todo-poderoso. Pedimos que Deus tenha poder porque queremos nós este poder... Transformamos o paradoxo do mundo em informação processável.

Um dia me contaram uma história sobre um jovem, filho de família pobre, que dizia poder mudar o mundo com o seu bom coração (ingênuo no mínimo, morreu na cruz). Então para que ele tivesse poder, depois de morto afirmaram categoricamente "ah, mas é o filho de Deus": inacreditável pra não dizer absurdo, humano e instrumental. Ah a humildade e a candura cristãs... Me provocam arrepios! Nos unimos muito mais para destruir do que para construir (a unidade da comunidade é apenas a outra face da sua violência unânime, diria René Girard em A Violência e o Sagrado). O tribalismo não vem de outro lugar. A psicologia evolutiva mostra que a cooperação intra-grupo é frequentemente alavancada pela hostilidade inter-grupo e que o "efeito inimigo comum" é uma das alavancas mais potentes de coesão social. O altruísmo paroquial (ser bom com os nossos para sermos maus com os outros) é um pacote só! Isso cresce quando a vida traz ameaça, escassez e insegurança. No fim, a religião parece uma tecnologia social de sobrevivência e se fortalece quando a vida piora.

Aleatoriedade não gera livre agência, só acaso; neste mundo emaranhado, complexo, nos surge o tempo todo perspectivas. Noite insone, filha recém-nascida, TV nova, canal da BBC. "A Rough History of Disbelief" me cativa, em particular a entrevista com Pascal Boyer que tem ao falar de religião, o que Joseph Campbell jamais atendeu, rigor acadêmico, sem baboseira, sem monomito, sem leitura junguiana. Compro dele o que encontro pela frente e se materializa. É dele uma explicação mais sofisticada sobre o que acontece com a religião, do mecanismo por trás da persistência da religião e consequentemente desses textos. Boyer chama de arquitetura cognitiva do subproduto. Em Religion Explained, ele insiste que religião não é adaptação biológica; é parasita. Ela se aloja em sistemas inferenciais já existentes (eu já intuía de certa forma isto olhando para mim mesmo): detecção de agentes, psicologia de coalizão, memória ontológica. O que importa aqui é na verdade simples. A Bíblia sobrevive porque seus conceitos são minimamente contraintuitivos (isso é contraintuitivo). Agentes que preservam as características de uma “pessoa” (desejos, crenças, intenções), mas violam uma única propriedade biológica (imortalidade, invisibilidade) têm design otimizado para memória humana. Se a ciência exige recrutamento forçado de capacidades cognitivas para sustentar ideias que não “clicam” intuitivamente o pensamento religioso flui sem atrito porque ativa um sistema de acesso à informação estratégica, deuses como agentes que “sabem” o que é socialmente relevante. Isso aciona precaução e moralidade na hora. Assim, enquanto a ciência demanda esforço para desfazer o óbvio, a religião se expande naturalmente, não porque seja profunda, mas porque é barata e encaixa no nosso hardware de agência e culpa.

E o meu pai?

Meu pai, no fim da vida, sofreu metamorfose nítida até para quem tinha pouco convívio: mais suave, leve, quase adocicado; parou de se preocupar, pechinchar, reclamar. Lia a Bíblia. Sentiu o corpo começar a falhar e deu mais peso à religião. Isso não prova nada sobre Deus; fala sobre nós. Aposentado, perdeu convívio social; vieram mortes em sequência, amigo de longa data, suicídios na família (irmão e depois sobrinha), e a perda do Nivaldo, chefe e próximo; veio também a sensação de mundo piorando, com o Trump subindo pela primeira vez e Bolsonaro aqui. Para quem se animou no primeiro Lula, foi baque. Passou a ir quase diariamente à missa na capela das freiras, como quem recompõe rotina, voz humana e um lugar onde a vida ainda responde. Por isso interpretei não como santidade, mas como adaptação. Ernest Becker descreve sem poesia: cultura e religião como arranjos para domesticar o terror de saber que vamos morrer; e tem o lado social, mais feio e mais honesto, ninguém gosta de velho, quase ninguém gosta de quem não pode te beneficiar em algo. Durkheim já dizia que religião é cola, pertença, consolo coletivo, uma máquina de transformar dor em narrativa e solidão em comunidade; no sofrimento ela ressurge porque é funcional, promete ordem quando a realidade vira entropia e promete companhia quando o indivíduo vira resto, e ainda serve como anestésico político, não por explicar o mundo, mas por tornar suportável a sensação de que ele está indo na direção errada. Por isso ela some mais fácil na estabilidade do que na crise; não é na dor que a razão vence, é na dor que ela some: a Bíblia pode ser desmontada como artefato histórico, político e cognitivo e ainda assim continuar sendo buscada, talvez mais, quando o corpo e o mundo lembram, sem delicadeza, o que somos. Sua suavidade final não era santidade, era o desapego de quem percebeu que a precisão do mundo importa menos do que o seu acolhimento (e eu vivo me esquecendo!); ele não estava sendo enganado pelo texto, estava sendo embalado por ele enquanto a realidade perdia o fôlego. "O que eu sei?" "Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo". Mesmo hevel, funcionava.

Vivo eu, com dúvida, receio e cautela porque reconheço que sou herdeiro de textos que não escolhi, desse amontoado caótico e precário, mesmo quando produz identidade e consolo. Respeitar religião como tabu público só reforça o problema que é o mecanismo: certeza moral sem evidência + disciplina de grupo + imunidade à crítica. A crença não fundamentada não é hipótese; ela é identidade e exige lealdade que não forneço, porque quanto mais dogmática, mais é impermeável ao viver. Não é, portanto, preguiça de viver sem manual que me faz discutir esse texto em 2025; é a tentativa de entender quem somos; vida tão miope, breve e pequena. Pensando no Cosmos pelo Eclesiastes, esse universo numa casca de nós: "uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece". "Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens".

Sou filho do meu pai e pai da Iris e da Alice.

Lore. That’s all, folks.


Notas
1. Sobre o final longo de Marcos (Mc 16:9–20) como adição textual posterior, ver EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: quem mudou a Bíblia e por quê?
2. A precedência das cartas paulinas autênticas em relação aos evangelhos canônicos preservados é amplamente aceita na historiografia do cristianismo primitivo; as datas exatas, contudo, seguem debatidas.
3. Sobre oração intercessória e ausência de evidência robusta de efeito clínico específico, ver BENSON et al. (2006), KRUCOFF et al. (2005) e ROBERTS; AHMED; DAVISON (2009).
4. David Hume, Investigações sobre o entendimento humano, seção X, “Sobre os milagres”.
5. NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, I, §483.


Bibliografia mínima
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus.
BLOOM, Harold. Gênio: os 100 autores mais criativos da história da literatura. Tradução de José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
BOYER, Pascal. Religion Explained: The Evolutionary Origins of Religious Thought. New York: Basic Books, 2001.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes.
EHRMAN, Bart D. Como Jesus se tornou Deus. Tradução de Lúcia Britto. São Paulo: LeYa, 2014.
EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: quem mudou a Bíblia e por quê? Tradução de Marcos Marcionilo. 2. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.
HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. 1. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2004.
LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da servidão voluntária. São Paulo: Martins Fontes.
METZINGER, Thomas. The Ego Tunnel. New York: Basic Books, 2009.
MINOIS, Georges. História do ateísmo. Tradução de Flávia Nascimento Falleiros. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


Leituras e artigos citados

BENSON, Herbert et al. Study of the Therapeutic Effects of Intercessory Prayer (STEP) in cardiac bypass patients: a multicenter randomized trial of uncertainty and certainty of receiving intercessory prayer. American Heart Journal, v. 151, n. 4, p. 934–942, 2006.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0002870305006496
Acesso em: 6 mar. 2026.

KRUCOFF, M. W. et al. Music, imagery, touch, and prayer as adjuncts to interventional cardiac care: the Monitoring and Actualisation of Noetic Trainings (MANTRA) II randomised study. The Lancet, v. 366, n. 9481, p. 211–217, 2005.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(05)67719-7/abstract
Acesso em: 6 mar. 2026.

ROBERTS, L.; AHMED, I.; DAVISON, A. Intercessory prayer for the alleviation of ill health. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2009, Issue 2, Art. No.: CD000368. DOI: 10.1002/14651858.CD000368.pub3.
Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD000368.pub3/abstract
Acesso em: 6 mar. 2026.