Tento não me esquecer:

    Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
    Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
    Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.
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10/11/2012

Tabacaria


Sentado na sala, lendo. Ultimas estrofes do poema Tabacaria. Toca The Second Waltz. Fecho a janela da rua... Não há espaço para conversa com o primeiro idiota que estende a mão... Temas enfadonhos... O dinheiro, desnecessário falar dele se em casa já temos o que comer... eleições uma bobagem, a novidade tecnológica da vez não resolve nada e o futuro da humanidade não me interessa mais, não tenho tanta presunção em saber... nem o futuro da minha filha no quarto ao lado sou capaz de conhecer... Música 
termina, escuto o Abul dizer "odeio quem me rouba a solidão sem em troca oferecer verdadeira companhia", vou pro quarto... Enfim, tudo parece definitivo... 

É perfeito apagar todas as luzes, abrir a janela que dá para única árvore no fundo do quintal e  ouvir as Gymnopédies. O que me faz pensar: árvore e Satie...  Nada a fazer... Nada... Esperando Godot... Satie musicou Malone Morre, fez trilha sonora pro livro que é impossível de ser filmado ... Nem Bergman,  Antonioni ou Kieslowski. Talvez se tivessem filmado Esperando Godot...  Filme... Filme.. O Jack Nicholson (ah o subestimado godotweed) sem ter para onde ir com seu carro em Confissões de Schmidt me faz pensar, todas as vezes que assisti, em Esperando Godot... O Filme seria melhor com um final diferente... É triste vê-lo permanecer até o fim ignorante ... Sem perceber que não havia nubundu, era só mais um chiste de pessoas ambiciosas... É o Forrest Gump que cria o menino tendo certeza que é seu filho. Bom pro menino afinal! Ah, a maternidade. Ah! Qualquer engodo se justifica... Como são saudáveis as mulherzinhas. 

Sobre ignorar verdades, me volto pra minha esposa deitada ao meu lado, que fala dormindo mas permanece em silêncio acordada e sem ter nenhum segredo que ela não possa saber, só segredos enfadonhos e interiores, penso no filme do Kubrick de olhos bem fechados... Penso na foto do Kubrick de quando ele filmou 2001, penso na cara do Abul, depois no Kubrick de novo.. Por que ele escolheu Ryan O'Neal para protagonista de um filme ... Queria provar que se pode fazer um filme espetacular com qualquer ator... O que importa são as idéias... Quem são Irene Jacob ou Juliet Binoche pós Kieslowski? Creio que também não seria exagero dizer que um grande ator pode levantar qualquer filme mediocre... O que faz Tom Hanks em O náufrago senão nos deliciar com a construção do personagem maior que o filme pouco inspirado do Zemicks? Bem, Tom Hanks ... A ignorância também está no topo... Já ouviram ele tentando pensar?... Assustador... Agora escuto o Rostro e o cello das suites do mestre... Ah, não vai além das variações Goldberg... Queria ter conhecido estas obras agora... Anos de felicidade única... 

18/05/2004

Há dias em que se tem motivo para se estar triste

Ah Dona Marina!! AH! OHHH! OHHHH! ahh! Uma vida benigna. Sinto sua falta vovó. 

 Aniversário 
 - Fernando Pessoa 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma. (...) 

Song - Canção (W. H. Auden) 

 "Stop all the clocks, cut off the telephone, Prevent the dogs from barking with a juice bone, Silence the pianos and with a muffled drum Bring out the coffin, let the mouners come. Parem todos os relogios, desliguem o telefone, impeçam os caes de latir com um osso suculento, Silenciem os pianos e com um tambor surdo Tragam para fora o caixao, que venham os que velam (carpideiras) He was my North, my South, my East and West, My working week and my Sunday rest, My noon, my midnight, my talk, my song; I thought that love would last forever: I was wrong. Ela era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste, Minha semana de trabalho e meu descanso de domingo. Meu meio-dia, minha meia-noite, minha conversa, minha cançao; Eu pensei que o amor duraria para sempre: eu estava errado. (...) The stars are nos wanted now: put out every one; Pack up the moon and dismantle the sun; Pour away the ocean and sweep up the wood. For nothing now can ever come to any good." As estrelas não são mais desejadas agora: apaguem todas; Encaixotem a lua e desmantelem o sol; Derramem o oceano e varram o bosque, Pois nada agora pode servir para coisa alguma." "

12/05/2004

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma. (...)

- Fernando Pessoa

01/10/2003

O Guardador de Rebanhos

Excerto de O Guardador de Rebanhos

VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera


Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
..................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.............................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
...................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Fernando Pessoa

23/05/2002

Eros e Psiquê

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa