Quando tive coragem para na minha melhor versão aceitar que a vida é diversa e muito mais rica do que eu supunha? Quando abri o Zaratustra e realmente li? Num sábado ocioso depois de um ano de casado, quando me sinto livre e sem qualquer medo. Quando não estou doente...
Da Imaculada Cognição
Eis o que diz o vosso espírito mentiroso, ó sábios e contemplativos, ao vosso ouvido:
“‘Eis o meu valor mais alto: olhar para a vida sem desejo – não com a língua pendente, como se fosse um cão; encontrar a felicidade na pura contemplação, com uma vontade que morreu, o corpo inteiro frio e inerte, feito cinza... Percepção imaculada de todas as coisas! Que significa isso para mim? Significa que das coisas nada desejo, exceto a permissão de ficar prostrado diante delas como um espelho de cem olhos.’”
Dizeis vós que essa é a vossa suprema virtude – não querer mais nada, não ter mais desejo, e chamar a isso de pureza, de conhecimento imaculado! Mas olhai bem para esses contemplativos sem desejo. Que são eles, afinal, senão um espelho inerte e frio? Nada criam, nada fecundam com o olhar. Sua “imaculada cognição” não passa de um reflexo passivo, um retrato sem vida do que está diante deles. É essa a verdade que exaltam?
Eu vos digo: toda percepção que não traz em si a semente de um novo valor, que não engravida o mundo com um sentido mais alto, não é virtude, mas estéril quietude. O homem que apenas reflete, sem querer, sem arder de vontade, não passa de um espectador morto diante do palco da vida. Onde está a grandeza nisso?
Acreditais, acaso, que o supremo objetivo do sábio seja tornar-se inofensivo como um espelho, imóvel e sem paixão? Chamar a isso de pureza, de estar “imaculado”? Eu vos digo: essa não é a pureza dos fortes, mas a impotência dos fracos, incapazes de desejar, de criar, de impor um sentido novo à existência. Vede, a vida é mais que um objeto a ser mirado à distância! A grandeza do homem está em sua capacidade de querer, de formar, de afirmar. O olhar que não quer nada é um olhar sem futuro, sem força, sem divindade. Que seria do mundo se todos apenas refletissem, como cinza fria, sem dar de si o fogo da criação?
Olhai bem, ó homens da “imaculada cognição”! O vosso não-desejo é um disfarce da vossa fraqueza. Não quereis, porque não podeis. Não desejais, porque vossa vontade se extinguiu. E chamais a isso de virtude! Mas eu vos digo: a virtude cria, a virtude impõe valor, a virtude é a chama que consome e transmuta. A percepção imaculada, sem desejo, é um nada; não eleva, não produz, não faz nascer o novo.
Portanto, fugi dessa mentira que chamas virtude. Sede criadores! Que a vossa visão do mundo seja fecunda e impetuosa, gerando novas metas, valores e significados! Não sejais meros espelhos de cem olhos, prostrados ante as coisas. Antes, erguei-vos, desejai, querei, transformai o que vedes! Pois é assim que a vida será engrandecida – e vós com ela. Assim falou Zaratustra.
Quem tem dEus não precisa dos outros... Quem aprendeu a ver flores, não precisa mais inventar dEus.
Tento não me esquecer:
Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.
Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.
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