Tento não me esquecer:

    Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
    Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
    Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.

15/09/2025

Mulholland Drive e a direita americana: no hay banda

Debaixo da tenda montada, luz branca estourada e sombra dura. Sob ela, uma pessoa sentada fala ao microfone, atrás de uma mesa repleta de bonés, garrafas d'água e panfletos, tudo disposto sobre um pequeno palco. Diversas vezes, nos quatro lados da lona que os protege, aparece a frase PROVE ME WRONG; leio-a com ironia inevitável. Do lado de fora, massa amorfa com centenas, talvez milhares; o sol recorta grupos. Nas escadas do prédio próximo, um bloco compacto, amontoado. Todos, olhos fixos em quem fala; algumas bocas paradas no meio do grito. No momento em que solta um recorte pronto pra internet, o quadro inteiro parece travar: um homem na primeira fila, com a cabeça acima das demais, inclina só um pouco o corpo, como se preparasse levantar-se, enquanto uma mulher ao lado, imóvel, olha para o chão. Um estampido interrompe a fala, e o corpo de quem discursa cai lentamente para o lado (com a imagem borrada). Agonizo junto.

Quando escrevi, há alguns meses, sobre o ambiente de trabalho, veio à mente o Hopper de Nighthawks, que usei como banner no artigo sobre o mundo corporativo: algo não se encaixa, algo vai acontecer. Reassistindo essa cena, com a violência ocultada pelo desfoque, tenho a mesma sensação: algo não se encaixa, algo vai acontecer: o assassinato de Charlie Kirk.

Não vou defendê-lo; ele não precisa. São milhões, com ideias de jirico, chorando pelo santo. Tampouco vim celebrar assassinato. Ele era um escroto proto-fascista cujas ideias o mainstream tratou de ignorar para colocá-lo em um lugar imerecido, também aqui no quintal. Conhecia pouco sobre ele e, pasmo, assisti dezenas de vídeos, reconhecendo fala após fala, o teatro de outro ícone americano, David Lynch, mise en scène entre o mundano kitsch e o macabro/surreal, a banda de Mulholland Drive: público levado às lágrimas, convencido pela performance, nada ciente da miséria em que se encontra. Parece espontâneo, “popular”, cheio de emoção, mas é playback. A conexão entre Hopper e Lynch, aliás, transcende falarem sobre o modo de vida americano. Em ambos, o cenário é personagem e temos aquela rachadura no cotidiano, tudo aparentemente banal, solidão, suspensão, tempo parado. É o Lynch, é o Kirk: a cena foi artificialmente pensada, coreografada, encenada.

Essa encenação não é de hoje e transcende o palco político. Tocqueville percebeu no século XIX; onde todos podiam em teoria ascender socialmente, o sucesso material visível se tornava o principal marcador de valor e status. Todo mundo supostamente “igual”, medindo o próprio valor pelo olho dos outros. Se não temos sucesso, a culpa é nossa: não nos esforçamos o suficiente, não acreditamos o suficiente, não performamos o suficiente. A inveja e o medo de não ter valor impulsionam tudo. Minimalismo e vida simples jamais serão mainstream no capitalismo, porque o capitalismo desmoronaria se a vitrine perdesse sua função religiosa.

Quem está preso na corrida dos ratos, acreditando nela, retira da equação o acaso, a sorte, os eventos fora do controle, os privilégios, as dívidas contraídas pela aparência e os atos ilícitos ou injustos. O que importa é a opinião alheia. É o Instagram, que funciona nos Estados Unidos e no Brasil como em poucos lugares: uma vitrine contínua onde se exibem corpo, consumo, “sucesso” e fé performática. Igrejas de espetáculo e figuras como Charlie Kirk não prosperam por acaso; muitas vezes prosperam juntas, vide Pablo Marçal. Oferecem ao ressentido um pacote pronto de status: ele é vencedor, parte da América cristã original, alguém escolhido, alguém de sucesso. O cerne da observação de Tocqueville é esse desassossego persistente. É o palco de Lynch.

O objetivo é substituir a realidade consensual por um culto de exaustão emocional, propaganda e adesão fanática, sempre com desprezo pela nuance e pelo pensamento crítico. Olhando para os temas dos vídeos, reconheci um após o outro os elementos discutidos por Jason Stanley sobre o fascismo: passado mítico, homogeneidade, propaganda, anti-intelectualismo, conspiração, realidade paralela, escolhidos, vitimismo, hierarquia, lei e ordem seletivas, culto ao herói, visão messiânica. Não é difícil reconhecer a contradição insolúvel: um grupo se pretende superior e escolhido, herdeiro da pureza cristã e ocidental, mas ao mesmo tempo se diz perseguido, humilhado, derrotado, traído. A solução é sempre a narrativa de traição. O fracasso do grupo é projetado em inimigos externos: liberais, minorias, mídia, comunistas. O resgate da glória é delegado ao herói viril e implacável, autorizado a suspender as leis para purificar a nação.

Essa redenção violenta se traduz em lei e ordem seletivas: repressão brutal contra os fracos e os diferentes, silêncio completo sobre o capitalismo de compadrio e sobre a exploração que produz escravidão moderna nas prisões americanas. Essa retórica não é acidente lateral da direita republicana; é parte central de seu establishment e de seus apoiadores radicais. Não há, nesse ponto, uma “direita boa” e uma “direita performática”. Há a mesma máquina de poder, desejo, status e conforto. A única mudança é que o pudor acabou. A farsa da seriedade institucional já não funciona. That’s all, folks.

Essa contradição não nasce com Kirk; atravessa o cristianismo desde cedo. Não falo da figura de Jesus; falo do cristianismo paulino, com seu dogmatismo duro, seu messianismo, seu ódio instintivo a tudo que o contradiz, seu tribalismo e sua rejeição da dúvida. Paulo está na genealogia desse cristianismo de combate: uma matriz afetiva, moral e retórica que certos extremismos de direita, inclusive os de inclinação fascista, herdam sem saber nomear. O Sermão da Montanha, o perdão aos inimigos e a ética antiacumulativa dos Evangelhos são incompatíveis com a igreja evangélica dos super-ricos e das armas.

Tragédia é Gaza. Tragédia são os corpos coloniais que a Europa empilhou na África e nas Américas. Tragédia é o que Achille Mbembe chama de necropolítica: o poder de decidir quem vive, quem morre e quem, no fim, vira estatística. Tragédia é a vida transformada em matéria administrável por impérios, fronteiras, exércitos, prisões, drones e bloqueios. Tragédia foi o Congo Belga, o Vietnã, a fome em Bengala, as bombas no Laos e centenas de outros exemplos na história humana. Tragédia é o assassinato de quem dá a vida pelos outros: dos pacifistas, dos generosos, dos altruístas que repartem o quase nada que têm; dos que entram na favela, limpam ferida, acolhem o viciado, enterram filho, seguram a mão do moribundo, protegem desconhecidos. A morte de Kirk é intolerável porque assassinato é intolerável; a morte de Kirk não é tragédia.

A conta da história do pensamento é simples e incômoda. Todo avanço real em ciência e direitos veio de quem rompeu com a fé oficial, hereges, céticos e ateus. A religião organizada, historicamente, atuou para censurar, atrasar e apagar o diferente. Sua função foi sempre póstuma, abençoar o que já estava conquistado, vendendo a farsa de que esteve do lado certo. Kirk é o subproduto final. Um cristianismo de palco que instrumentaliza a cruz enquanto ataca a pouca humanidade que a modernidade arrancou a fórceps de crentes e ateus. A vida real, a luta pela nossa humanidade e pela sobrevivência da Terra, sobra para meia dúzia de humanistas que restaram, cristãos ou não. Meu ateísmo me consola: há paz, no fim das contas — no meu fim, onde só restam o bom e velho Lucrécio, alguns poucos pares e o fisicalismo. O evangelho morreu na cruz..