Quando escrevi, há alguns meses, sobre o ambiente de trabalho, veio à mente o Hopper de Nighthawks, que usei como banner no artigo sobre o mundo corporativo: algo não se encaixa, algo vai acontecer. Reassistindo essa cena (com a violência ocultada pelo desfoque), é a mesma sensação, algo não se encaixa, algo vai acontecer: o assassinato de Charlie Kirk.
Não vou defendê-lo; ele não precisa. São milhões de pessoas com ideias de jirico chorando pelo santo. Tampouco vim celebrar assassinato. Ele era um escroto proto-fascista cujas ideias o mainstream tratou de ignorar para colocá-lo em um lugar imerecido, também aqui no quintal. Mas assassinato não está em discussão. Nenhum.
Conhecia pouco sobre ele e, pasmo, assisti dezenas de vídeos, reconhecendo fala após fala, o teatro de outro ícone americano, David Lynch, mise en scène entre o mundano kitsch e o macabro/surreal, a banda de Mulholland Drive: público levado às lágrimas, convencido pela performance, nada ciente da miséria em que se encontra. Parece espontâneo, “popular”, cheio de emoção, mas é playback. A conexão entre Hopper e Lynch, aliás, transcende falarem sobre o modo de vida americano. Em ambos, o cenário é personagem e temos aquela rachadura no cotidiano, tudo aparentemente banal, solidão, suspensão, tempo parado. É o Lynch, é o Kirk: a cena foi artificialmente pensada, coreografada, encenada.
Essa encenação não é de hoje, transcende o palco político. Tocqueville no século XIX, quando visitava os EUA, percebeu cedo que onde todos podiam (em teoria) ascender socialmente, o sucesso material visível, tornava-se o principal marcador de valor e status. Todo mundo supostamente “igual”, medindo o próprio valor pelo olho dos outros. Se não temos sucesso é culpa nossa, não nos esforçamos o suficiente, não acreditamos o suficiente. A inveja e o medo de não termos valor, impulsionam tudo. Minimalismo, vida simples, nunca vai ser mainstream no capitalismo, que desmoronaria. Quem está preso na corrida dos ratos (acreditando nela), retira da equação o acaso, a sorte, os eventos dos quais não temos controle, os privilégios as dividas pela aparência e os atos ilícitos ou injustos. O que importa: a opinião alheia. É o Instagram, que funciona nos EUA e no Brasil como em poucos lugares, a vitrine contínua onde se exibe corpo, consumo, “sucesso” e fé performática. As igrejas de espetáculo e figuras como Charlie Kirk não prosperam por acaso (e muitas vezes juntas, vide Pablito Marçal), são impulsionados pelo pacote pronto de status que oferecem para o ressentido, ele é vencedor, parte da “América cristã original”, alguém de sucesso. O cerne da observação de Tocqueville, é a "inquietação" ou "desassossego" persistente, é o palco do Lynch.
O objetivo é substituir a realidade consensual por um culto de exaustão emocional (com e como propaganda) e adesão fanática com desprezo pela nuance e pelo pensamento crítico. Olhando para os temas dos videos, reconheci um após o outro os temas de discussão do Jason Stanley sobre o fascismo: o passado mítico e a homogeneidade, a propaganda e o anti-Intelectualismo, as conspirações e a realidade paralela (brasil para lerdos diria o Peninha), os escolhidos, vitimismo e hierarquia (uma tendência a se ver como especial e, ao mesmo tempo, como vítima de uma conspiração), lei e ordem seletivas e culto ao herói, a visão messiânica. Não é dificil reconhecer é o fascismo e sua contradição insolúvel. Um grupo que se pretende superior e escolhido (a civilização cristã/ocidental, herdeira da pureza) mas que esta sofrendo e perdendo (segundo eles). A resposta é a visão messiânica. Essa tensão é cinicamente resolvida pela narrativa de traição, por que o fracasso do grupo é projetado em inimigos externos (liberais, minorias, mídia, comunistas). O resgate dessa glória é, então, delegado ao culto ao herói, figura viril e implacável que deve anular as leis para purificar a nação. Essa mentalidade de redenção violenta se traduz em lei e ordem seletivas: repressão brutal contra os fracos e os diferentes, em completo silêncio sobre o capitalismo de compadrio e a exploração que gera a escravidão moderna nas prisões americanas. Essa retórica é parte central do establishment da direita republicana e seus apoiadores radicais. Não há “direita boa” e “direita performática”. É a mesma máquina de poder, desejo, status e conforto. A única mudança é que o pudor acabou, a farsa de “seriedade institucional” não funciona. That's all folks.
O culto fascista e o culto religioso convergem na mesma lona: todo mundo atuando para provar que vale alguma coisa diante do olhar alheio, enquanto substância e reflexão crítica são varridas para fora do enquadramento. Essa observação não é um ajuste de contas tardio, mas uma crítica de quem vê enquanto vivencia. As contradições de sempre não param ai. Cristianismo e guerra. Cristianismo e arma. Cristianismo e a falta de generosidade. Cristianismo e o perdão. Cristianismo e o dinheiro/riqueza.
Por isto entendo que qualquer assassinato seja absurdo e intolerável... Mas este não é uma tragédia! Tragédia é Gaza ou os massacrados pelos europeus na africa e nas americas.
Tragédia é o assassinato de quem dá a vida pelos outros, dos pacifistas, dos generosos e altruistas com o quase nada que tem.
Precisamos superar a estupidez. O projeto de Kirk desconhece o cristianismo do Sermão da Montanha. Não entende a igualdade radical, o único tema sério de Jesus. Não fala de paz nem de integração. Ignora as ideias dos Focolares, a doação do que não sobra, os franciscanos ou o padre Júlio. Não pisa na favela, não limpa a ferida de viciado, não dá a mínima para o planeta. É só mídia, palco, Instagram e reputação. É tudo fake, como suas próprias ideias; ele vive preso na ilusão de Mulholland Drive.
A conta da história do pensamento é simples e incômoda. Todo avanço real em ciência e direitos veio de quem rompeu com a fé oficial, hereges, céticos e ateus. A religião organizada, historicamente, atuou para censurar, atrasar e apagar o diferente. Sua função foi sempre póstuma, abençoar o que já estava conquistado, vendendo a farsa de que esteve do lado certo. Kirk é o subproduto final. Um cristianismo de palco que instrumentaliza a cruz enquanto ataca a pouca humanidade que a modernidade arrancou a fórceps de crentes e ateus.
A vida real, a luta pela nossa humanidade e pela sobrevivência da Terra, sobra para meia dúzia de humanistas que restaram, cristãos ou não. Meu ateísmo me consola: há paz, no fim das contas — no meu fim, onde só restam o bom e velho Lucrécio, alguns poucos pares e o fisicalismo.
O evangelho morreu na cruz..
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