Tento não me esquecer:

    Este blog me ajuda a não esquecer que a pior inimiga da verdade é a convicção e que amar não significa apoiar-se.
    Nós não resolvemos problemas filosóficos. Nós os superamos. Nosso parto é sobre o túmulo, a luz dura um instante e volta a noite.
    Existe alegria. Às vezes é só ouvir, minhas filhas descobrindo o mundo. Mas no fim, o mundo é mais pobre do que eu imaginei.

30/10/2024

Sobre o trabalho

No primeiro dia de férias já tinha atividade programada, neurologista segunda às 09 e meta clara: retomar capacidade cognitiva dos 17 aos 48 =)
Cansado, últimos anos puxados, consultoria de TI, projetos de diferentes tamanhos e modalidades, clientes de todos os perfis possíveis, mudanças e revitalizações das tecnologias e metodologias e ofertas, rotina da família e nova faculdade, precisava de ajuda. Escutei do médico novidades: fazer exercícios, me alimentar melhor, trabalhar menos horas, diminuir o ritmo e as atividades, ter mais tempo para o descanso, não acumular férias, diminuir ao mínimo celular e eletrônicos, priorizar conversas pessoalmente, etc. O óbvio que ignoro. Saindo do consultório, ligando para as clínicas que me indicou a caminho de casa, marquei o primeiro exame na mesma semana em clínica do sono.
Chegado o dia, lugar limpo e organizado, rapidamente atendido e encaminhado a um quarto arrumado, ar a 22 graus, meia luz, abajur, chave para os pertences e banheiro cheirando a flores com sabonete novo e toalha branca. A técnica me instalou os eletrodos com paciência, educada e solícita. Trabalhava há 12 anos no mesmo lugar nesta atividade. Deitei-me às 23 horas e acordei sobressaltado com barulho quando me dei conta: meu quarto estava no térreo, bem na frente da clínica. Adormeci novamente, mas acordei com risadas e conversas. Apertei o botão e pedi ajuda, perguntando se poderia ser trocado de quarto; ela sem graça disse: tem um bar aqui ao lado. Pediu pra eu tentar dormir. Sem refletir, segui e acordei mais 2, 3, 4 vezes até as 03; quando sem poder sentar na cama, pelos eletrodos, chamei ela novamente e questionei meio sem jeito se ninguém mais tinha reclamado, se a clínica já tinha tentado resolver. Deu de ombros e me disse que nunca tinha falado nada, nem dentro da clínica. Perguntei se não atrapalhava o exame: não respondeu. Emendei um "tudo bem", agradeci voltei a tentar dormir. As 04:20 parou o barulho e devo ter dormido poucos minutos depois, até as 6 quando me despertou.
Em 5 minutos estava em um uber indo pra casa, a cabeça meio voltada, meio sem entender o que acabara de acontecer: ela ouvia o barulho, entendia o exame, sabia que poderia gerar incômodo e que se não atrapalhava o exame, no mínimo deixa o cliente insatisfeito: por que ela não tomou uma atitude? Visivelmente aquilo não a incomodava. Não pensou em falar nem dentro da empresa do problema, ou, se falou, foi ignorada e simplesmente desistiu? Não achou que era pertinente? Me ocorreu que ela podia querer qualquer coisa menos um conflito ou uma conversa que talvez na visão dela ultrapassasse suas atribuições. Talvez não quisesse se meter no que não lhe cabia.
Ainda antes de descer do carro me lembrei de uma cena em um carro, de um filme do Antonioni com a Maria Schneider e o Jack Nicholson. Ele dirige um carro esportivo da época e estão se conhecendo. Ela questiona se pode fazer uma pergunta ao que ele retruca sim: "eu gostaria de fazer uma pergunta, sempre a mesma: do que você esta fugindo". Me ocorreu que é exatamente isto com esta profissional. Ela não quer o conflito ou sanar o problema. Ela quer permanecer onde esta, fazendo do mesmo jeito, com o mesmo conforto. Ela não quer que nada mude. É o que as vezes fazemos quando "tudo muda pra permanecer exatamente como esta.", de outro clássico, Lampedusa. Não se altera as estruturas, só os adereços. Olhei muitas vezes pra colegas no trabalho e vi isto. Alguém fugindo de uma situação. Fugindo de não se atualizar, fugindo de tentar olhar pro real problema que pode tirá-la do conforto. fugindo de ter que enfrentar quem a pessoa é. Voltei pra mim a câmera e pergunto: do que eu estou fugindo?
Um clássico é uma obra onde a mensagem se atualiza, universal, ressignificado em cada época e cada situação que revivemos. Por isto a auto ajuda tem tão pouco valor e a filosofia permanece relevante.
Por que tenho evitado falar sobre como controle é inútil seja com ou sem home-office. Como não existe mais chefe e que precisamos descentralizar o poder ... Como precisamos evitar o desperdício de tempo e recursos com relatórios e reuniões infindáveis. Alguns não querem responsabilidade, outros não querem largar o poder. Se é gestor de um punhado de dezenas ou centenas de pessoas, se imagina guia espiritual. Por outro lado, ser guiado é mais fácil, mais leve.

What are you running away from?

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